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Perdemos o Kikas, mas temos lá um português (que é bodyboarder) há anos no circuito

Frederico Morais foi eliminado na terça-feira, mas João Kopke descobriu outro português que anda no circuito há mais tempo do que ele: é Vasco Figueiredo, o cameraman que é bodyboarder e já lá anda há cinco anos. João Kopke é um surfista profissional, mas não está em Peniche para competir na etapa do circuito mundial de surf - vai lá à caça de histórias para contar na Tribuna Expresso.

João Kopke

Pedro Mestre/WSL

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O dia começou cedo em Peniche. Os surfistas que restavam da competição, fotógrafos e produtores de vídeo, staff e equipa técnica, bem como a enorme entourage de promotores e promotoras das muitas marcas associadas ao evento, estavam todos de pé antes do sol raiar.

Todos na praia para o primeiro call, às 8h. E depois para o segundo, e para o terceiro e para todos os seguintes até que o mar finalmente decidiu mostrar-se digno de uma prova do World Tour.

Para aqueles que veem a maior parte destas provas no ecrã de um smartphone, camuflado dos olhares do chefe, no trabalho, é fácil não ter a noção do quão duro podem ser estes longos dias na praia. São jornadas de sol a sol, no sentido mais literal que anda por aí.

Para conviver pacificamente com o tédio, o stress, o sol e as horas intermináveis, as estratégias utilizadas são muitas: há os que controlam o webcast através dos seus telemóveis e aparecem na “hora h” para os seus heats. Alguns fazem um uso aparentemente excessivo do protetor solar (o Mick Fanning, noutra vida, terá sido um mimo). Não é pouco comum ver os prós a babar ligeiramente os sofás da estrutura de prova – sestas são uma ótima forma de carregar energias e acordar para o mundo mais perto da hora de competir, mas também dão instagrams engraçados!

À uma e meia, finalmente, decidiu-se começar com o round 4.

Kikas, no seu heat, abriu com um oito pontos sólido que tranquilizou os corações do público luso na praia. Mas o mar começou a mudar para melhor e vimos o aquecer dos motores de Kanoa Igarashi (parceiro no crime de uma das melhores surfistas portuguesas, a Teresa Bonvalot e, por isso, um terno amante de Portugal) e de Josh Kerr.

O surfista de nome nipónico apanhou uma das poucas ondas de sonho que entraram no heat e igualou o oito de Kikas com um senhor tubo. Um pouco depois, encontrou outra onda em que espetou três manobras sólidas, colocando na mesa outra nota forte. Josh Kerr parecia não estar ali para competir. Tentativas sucessivas de aéreos arrancaram vários “uaus” da praia, até que, por fim, acertou uma manobra que desafiou as leis da física, recebendo uma nota perto do perfeito.

Nesta fase, em que ninguém perde “para sempre”, vimos o Kikas a ser relegado para a repescagem da quinta ronda. Apesar da derrota, foi, para mim, uma das baterias mais interessantes da prova até agora.

Já a sua performance contra Fanning no round 5 não foi tão intensa. Um heat difícil para ambos os atletas, mas em que o australiano definiu o compasso ao colocar um oito e meio em jogo logo na primeira onda. Perdemos o último representante do verde e vermelho nesta etapa.

Pedro Mestre/WSL

Mas… será que perdemos mesmo?

Existe um parâmetro óbvio para medir a qualidade da carreira de um surfista: quanto tempo é que se consegue aguentar no tour. Alguns ficam apenas uma temporada, outros tornam-se verdadeiros veteranos do circuito e eternizam os seus nomes os livros de história do surf. O português que conheci hoje já leva cinco anos de campeonatos no Wourld Tour, mas as suas performances são atrás das câmaras.

Depois de uma etapa à experiência, a WSL perguntou ao Vasco Figueiredo se estava interessado em passar a pertencer à equipa que acompanha o circuito por esse mundo fora. Bodyboarder de coração (uma característica aparentemente bem aceite pela comunidade surfística), a resposta a esta pergunta foi óbvia: vamos a isso.

Diz que é o seu trabalho de sonho, não só pelo estilo de vida que está associado a viajar recorrentemente para lugares onde a água é quente e as palmeiras dão água de coco, mas também pela dinâmica da equipa com quem trabalha. Aqueles que garantem que temos uma imagem bonita nos nossos computadores vivem com um espírito descontraído. O Vasco contou-me que, se assim não fosse, seria impossível aguentar o stress associado a fazer com que tudo corra bem a milhares de quilómetros de distância de casa.

Alguns eventos, nomeadamente os do circuito de ondas grandes, obrigam a que uma viagem da equipa para o outro lado do mundo seja anunciada com três dias de antecedência. Às vezes, esse aviso concretiza-se. Outras, como as que foram anunciadas ao Vasco, goram-se um dia antes da data prevista para se apanhar o avião.

Claro que os eventos que têm data marcada e não dependem de previsões do mar para acontecer têm uma preparação mais simples.

O Vasco foi primeiramente chamado para trabalhar no Brasil, talvez pela proximidade linguística. Dessa proximidade resultam as suas maiores amizades entre os surfistas. Dá-se muito bem com o Jadson André ou o Miguel Pupo, por exemplo, e alguns copos já foram bebidos em conjunto. Do grupo dos comentadores, destacou o Strider como sendo uma das maiores personagens que acompanha o circuito. Um homem de cinquenta anos com um espírito de surfista de vinte. O protótipo do californiano do mar.

Outro dado que me pareceu extremamente interessante sobre este funcionamento mais interno da WSL foi o facto de a empresa pagar o transporte aéreo das pranchas de surf aos seus funcionários, quando viajam em trabalho. Algo que tem um sabor agridoce porque, nos dias bons, obviamente, alguém tem que pôr as coisas a funcionar e não pode ir para a água. Curiosamente, o realizador de serviço neste momento não é surfista.

Um português que, apesar de o Kikas ter perdido, ainda vai estar em prova amanhã [esta quarta-feira], para o possível derradeiro dia de competição.

Vêm aí as finais, por isso, apertem os cintos porque o próximo campeão do mundo de surf pode ficar decidido nas areias de Supertubos.

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