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O Relâmpago Branco diz adeus e leva uma história gloriosa e difícil com ele

O surfista australiano anunciou que se vai retirar da vida profissional, em abril. Aos 36 anos, e descontando a anormalidade lendária que é Kelly Slater, o surf ficará sem o tipo com mais títulos no ativo (três) e que mais vezes tocou o sino em Bells Beach, na Austrália, a segunda etapa do circuito após a qual, simbolicamente, Mick Fanning dirá o adeus

Diogo Pombo

Em Bells Beach, na Austrália, a praia onde mais venceu e onde Mick Fanning se retirará, em abril.

Morgan Hancock

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My lightning's flashing across the sky.

(...)

See my white light flashing as I split the night.

O meu relâmpago a piscar pelo céu. Vê a minha luz branca a piscar enquanto eu divido a noite. Sempre que há competição em Bells Beach, no sul da Austrália, estas são duas frases que se ouvem na voz estridentemente afinada e icónica de Brian Johnson, vocalista dos AC/DC. Todas as manhãs, a tradição fez com que se oiça a canção “Hell’s Bell” na praia a hora e meia de Melbourne, onde há muito tempo se realiza uma das primeiras etapas do circuito mundial de surf. A praia onde o vencedor, no final, recebe um troféu com um pequeno sino pendurado para o abanar e fazer soar e ecoar o som da vitória.

Essa praia já viu um surfista erguer esse ornamentado pedaço gigante de madeira mais vezes do que os outros. Quatro vitórias ao longo dos anos que, no máximo, só poderão ter mais uma sequela porque, após a edição deste ano, Mick Fanning vai retirar-se do surf profissional. De repente, sem aviso, com uma brusquidão inesperada, tal e qual como em 2001.

Esse foi o ano em que um miúdo, de 20 anos e cabelo tão loiro que parecia oxigenado, recebeu um convite para participar na etapa de Bells Beach. Ganhou-a com um estranho à-vontade para um wildcard e, no ano seguinte, seria o Rookie of the Year na primeira das 16 temporadas que faria no circuito mundial de surf. O alcunhado de White Lightning - o Relâmpago Branco - começava a desenhar a sua lenda.

Veloz em cima da prancha, um estilo vertiginoso e acelerado a desenhar linhas na onda, à base do rail e dos cortes poderosos na água, o australiano ganhou muito. À vitória na estreia em Bells Beach, a praia onde mais venceu (apesar de ter arraiais perto de Snapper Rocks, na Gold Coast australiana, a mais de mil quilómetros dali), Fanning venceria mais três provas (2012, 2014 e 2015). Ao todo, tem 22 vitórias em etapas do Championship Tour, incluindo duas nos Supertubos de Peniche, em 2009 e 2014.

Instagram

O aloirado surfista, de postura curvada e algo corcunda na prancha, sempre branqueado na cara pela espessa camada de protetor solar, dominou por várias vezes o circuito.

Mick Fanning foi campeão mundial em 2007 e 2009, o melhor quando o extraterrestre, sobredotado e undecacampeão (sim, são onze vezes) Kelly Slater estava no seu auge. Voltaria a ganhar em 2013. Nos anos anteriores ou seguintes, se não ganhou esteve na luta por ganhar. Até chegar ao estado em que diz estar hoje: “Ainda adoro surf, mas já não consigo encontrar a motivação e a dedicação que são necessárias para competir por títulos mundiais”.

A confissão apareceu esta quarta-feira, pelos dedos de Fanning, escrita na sua conta de Instagram. Anunciou que vai competir em Snapper Rocks, na primeira etapa (11-22 de março), antes de se despedir em Bells Beach (28 de março a 8 de abril), o “onde a [sua] carreira realmente começou”. Ele quer viajar, conhecer sítios novos, evoluir no surf para longe da competição e desligar, de vez, como tantas vezes a vida pareceu querer que desligasse.

Como aos 17 anos, quando perdeu o irmão Sean, surfista tão ou mais talentoso, num acidente de carro. Anos depois, rompeu um ligamento do joelho e descolou-o por completo do osso ao aterrar um aéreo algures na Indonésia, lesão que acabaria com muitas carreiras em vários desportos – talvez por isso esse tipo de manobras nunca tenham sido algo que associemos aos variados talentos de Mick Fanning sobre uma prancha.

NICOLAS PESCHIER

E, em 2015, ao surfar uma final em Jeffreys Bay, aconteceu-lhe o que o popularizou para toda a gente que não segue ou gosta de surf: foi atacado por um tubarão, que esmurrou por instinto e do qual escapou, sabe-se lá como, para sair da água em lágrimas e em choque.

Nesse ano ainda venceria uma etapa (em Trestles, nos EUA) para chegar ao Havai na discussão do título mundial. Quando estava em Pipeline, com o trauma do tubarão e a cabeça na separação de um casamento de oito anos quase a acontecer, soube da morte de outro irmão, Peter. Perderia esse título para Gabriel Medina e, em 2016, quis recuperar com um pé fora e outro dentro do circuito. Competiu apenas esporadicamente, em metade das etapas, mas voltou a Jeffreys Bay para se curar - e ganhou.

E agora, para terminar, Mick Fanning vai voltar à praia que tem à frente de casa. Os contos que as fadas contam diriam que o Relâmpago Branco deveria ganhar uma última vez em Bells Beach.

A abanar o sino que é mais dele do que outro qualquer surfista. A sua luz branca a piscar enquanto se despede.