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Não aos planos aproximados de surfistas em biquini

A primeira etapa dos circuitos mundiais de surf masculino e feminino está a decorrer na Austrália e a World Surf League (WSL) ter-se-á reunido para instruir os seus operadores de câmara de uma coisa: durante as competições, caso haja mulheres a surfarem de biquini, os planos devem ser mais afastados

Diogo Pombo

Stephanie Gilmore, a australiana e seis vezes campeã do mundo, a surfar em Snapper Rocks, durante a primeira etapa do circuito mundial de surf.

Ed Sloane/WSL

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Durante anos, muitos anos mesmo, o surf no feminino era associado a mulheres em sítios tropicais, banhados por águas quentes que dispensam um fato para proteger o corpo do frio. O convencionalismo, o conforto, as marcas que as patrocinavam ou o simples gosto e a preferência das surfistas, faziam-nas ir para as ondas apenas com um biquini vestido. Ao longo dos anos, e por motivos difíceis de especificar, mas entram na esfera do sexismo, o estereótipo da surfista era uma mulher de biquini na água. Sempre.

Uma associação que toldava, e tolda, o que realmente importa no surf feminino de competição - a qualidade das manobras, as linhas desenhadas, as capacidades de uma mulher em conseguir a melhor pontuação possível com o uso que faz de cada onda. É contra isso que, aparentemente, a World Surf League (WSL) pretende lutar.

Nos últimos dias, algures na Gold Coast australiana, perto de Snapper Rocks, onde está a decorrer o Roxy Pro, terá acontecido uma reunião entre responsáveis da entidade que organiza os circuitos mundiais de surf e os operadores de câmara das competições. O objetivo terá sido alertar todos os funcionários para o “bom-senso que devem ter” e a “discrição” ao filmarem heats de mulheres.

O suposto encontro, noticiado pela revista “Stab”, surge durante a realização da primeira etapa do circuito feminino. “Raparigas que tenham calções aparecerão em planos mais aproximados no ecrã do que as que usem biquinis”, lê-se, no texto, em que é também frisado “o cuidado” que deverá existir quando as surfistas fizerem um bico-de-pato (mergulharem com a prancha por baixo de uma onda) ou bottom turns (manobra em voltam à parede da onda através de uma curva na sua base).

A Tribuna Expresso tentou confirmar esta informação com a WSL, mas ainda não obteve resposta.

Não é, de todo, a primeira vez que este tema é discutido. Em 2014, quando tinha dois dos três títulos mundiais que já conquistou, Carissa Moore escreveu uma carta para a revista “Surfer” na qual desabafou e argumentou sobre a “sexualização” do surf feminino. “Não vou usar biquinis pequenos. Isso não sou eu. Vou ter uma postura mais atlética. Adoro o surf, por isso quero que as pessoas se inspirem no meu surf”, escreveu.

Carissa Moore, tricampeã do mundo (2011, 2013 e 2015), durante o Roxy Pro Gold Coast

Carissa Moore, tricampeã do mundo (2011, 2013 e 2015), durante o Roxy Pro Gold Coast

Ed Sloane/WSL

Na altura, a havaiana pegou no exemplo da conterrânea Alana Blanchard, que hoje não compete no circuito mundial, quiçá mais popular pelo seu lado estético,em vez das suas aptidões como surfista. “Trouxe milhares de olhos para o nosso desporto por usar um pequeno biquini, mas quero que toda a gente aprecie o facto de a Alana também ser uma atleta e levar a sério o que faz. Sei que existe um público masculino, mas a linha é fina quando se trata de sexualizar o surf feminino”, defendeu Carissa Moore.

Antes do arranque desta temporada, a WSL anunciou Sophie GoldSchmidt como a sua nova diretora executiva (CEO) - a primeira vez que uma mulher chegou ao cargo. Os prémios monetários nas competições femininas, porém, continuam a ter valores cerca de 40% inferiores aos destinados às provas masculinas.

O circuito mundial feminino e masculino coincidem nos meses (vão de março a dezembro), mas existem algumas diferenças a separá-los. Os homens competem em 11 etapas, as mulheres em 10. Há ondas em que os melhores surfistas do mundo páram e as mulheres não (em Teahupo’o, no Tahiti; nos Supertubos, em Peniche, e em Pipeline, no Havai) - embora, este ano, as longas direitas de Jeffreys Bay já sejam uma paragem para as mulheres.