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Julian Wilson: ser campeão com um ombro e meio e uma filha recém-nascida

É por histórias como esta que o desporto é adorado. Há menos de um mês e meio, Julian Wilson deslocou o ombro a andar de bicicleta, mas resolveu arriscar e participar, na mesma, na primeira etapa do circuito mundial de surf. Admitiu que nunca chegara tão pouco preparado, também porque a sua primeira filha nascera apenas três dias antes de a prova começar. Mas foi o australiano a vencer a prova em Snapper Rocks. Nas mulheres, a californiana Lakey Peterson ganhou uma etapa pela segunda vez na carreira

Diogo Pombo

Ed Sloane/WSL

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“Olá, malta. Não tenho muito boas notícias para partilhar.”

Julian Wilson está com o telemóvel muito perto da cara, nem deve ter o braço esticado ao máximo, aparece num plano bem aproximado. Tem um ar triste a revesti-lo, tem o tronco despido e tem um saco de ervilhas congeladas sobre o ombro direito. Fala com uma voz arrastada no ritmo, parece carregada de pesar: “Acabei desfeito no meu treino de bicicleta de montanha, voei sobre o guiador e aterrei em cima do meu ombro. Rompi a articulação, mas não vai ser preciso cirurgia”.

O aspeto enfadado e triste justifica-se pela altura em que aconteceu essa peripécia no parque de Glenrock, perto de Newcastle, na Austrália. Julian sabia que estava a um mês, mais ou menos, do arranque do circuito mundial de surf, a mais de 600 quilómetros dali, em em Snapper Rocks, e que o tempo estava contra ele. “A janela de recuperação é apertada, isto é extremamente desconfortável, o descanso é forçado”, desabafou, para o mundo.

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O saco de ervilhas desapareceu e Julian Wilson insistiu em comparecer à prova. Foi ultrapassando heats, com maior ou menor margem, mas sempre com dores no ombro, limitado pelas dores que o corpo provocava e os sinais que o cérebro recebia, até vencer o Quiksilver Pro Gold Coast na madrugada desta quinta-feira, em ondas pesadas, tubulares, agressivas e bem para lá do aconselhável para quem tinha uma parte da anatomia tão requisitada (a remada, os take offs, o equilíbrio, as rotações) e tão limitada.

Por isso admitira, emocionado, acabado de sair vivo da terceira ronda com uma vantagem de 0.20 pontos, que estava a surfar a 50% do que era capaz, cheio de dores, grato por cada momento porque, estando ali, estava a perder momentos com Olivia, a filha recém-nascida. Mas explicou que tinha de estar, repetiu que não podia deixar de apelar à luta contra o cancro da mama, luta que a mãe superou há cerca de 10 anos e o fez negociar com o patrocinador, já há algum tempo, para surfar com a cor rosa nos calções ou no fato.

Era essa a cor que tinha na final, quando se enfiou numa onda tubular, prolongou a estadia e a aventura lhe valeu um 9.93, a melhor onda da bateria em que venceu Adrian Buchan e a primeira etapa do circuito.

Foi, provavelmente, a mais improvável vitória da carreira de Julian Wilson, australiano de 29 anos, a competir no circuito desde 2011 e dono de um dos estilos mais espetaculares entre quem faz disto vida. “Aprendi muito sobre mim mesmo neste evento, através da lesão que tive, com o nascimento da minha filha e com a minha mulher, Ashley. Honestamente, ver a minha filha a nascer deu-lhe uma força inacreditável para suportar a dor, vir aqui e fazer o que tinha a fazer”, reconheceu, no final da prova.

Foi a quarta vitória de Julian Wilson em oito anos a dar voltas ao mundo com os melhores surfistas do mundo e a ter o prazer de, ocasionalmente, ter as melhores e mais desejadas ondas do planeta só para ele e um ou dois outros tipos. Tê-las com um ombro combalido, uma filha recém-nascida em casa, uma vida de surfista profissional sem um treinador e com uma causa por promover, só pode ter sabido melhor.

As surpresas no quadro feminino

No lado feminino do circuito, Snapper Rocks deu o segundo evento da carreira a Lakey Peterson. A surpreendente californiana, de 23 anos, bateu Keely Andrew na final, australiana que acabou por ser outra surpresa.

À medida que a prova ia avançando, dividindo o tempo e as ondas com o evento masculino, as duas surfistas foram eliminando as mais do que habituais concorrentes a ganharem tudo - Lakey livrou-se de Tyler Wright e Carissa Moore, respetivamente a atual campeã e a tri vencedora do circuito, enquanto Keely foi melhor que Sally Fitzgibbons e Stephanie Gilmore, a seis vezes campeã mundial.

"Sinto que estava há sete anos a trabalhar para ter outra vitória. É super surreal consegui-la, finalmente. Nunca ganhar nada acaba por ter ir deitando abaixo. Demorou um bocado, mas o trabalho duro acaba por compensar", confessou, já com o troféu nas mãos.

Ed Sloane/WSL

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