Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Desculpa Mick, o Ítalo Ferreira não gosta de contos de fadas

O brasileiro estreou-se a vencer uma etapa do circuito mundial de surf e tocou o sino de Bells Beach pela primeira vez, impedindo, no processo, que Mick Fanning o tocasse uma última vez, na sua última prova, aos 36 anos: "Nunca surfei tão relaxado. Foi uma carreira incrível". Nas mulheres, Stephanie Gilmore conseguiu a quarta vitória neste evento, mas brincou demasiado com a sorte nos últimos segundos da final

Diogo Pombo

Ed Sloane/WSL

Partilhar

Estava-se a compor um estereótipo de final feliz: o surfista que ia acabar ali a carreira, na praia que mais gosta, onde já vencera por quatro vezes e é quem mais vitórias tem, chegara à decisão do título em Bells Beach. Ganhando, não poderia, literalmente, haver um melhor desfecho de carreira para Mick Fanning, o australiano de 36 anos, três vezes campeão mundial de surf e um das caras mais conhecidas da modalidade.

O problema, para ele e para quem ansiava por um conto de fadas sem desilusões, é que surfou na final contra Ítalo Ferreira. Um brasileiro que estava possuído por um qualquer espírito domador de ondas, que acabou o evento com a maior pontuação (combinada e de uma onda) e se mostrou imparável com a fome de conquistar a sua primeira prova no circuito mundial.

Ele, um ainda novato de 23 anos, apanhou cinco ondas e o poder dos seus açoites de prancha nas paredes, em backside, deu poucas hipóteses às quatro ondas que tiveram a honra de serem as últimas que Fanning atravessou rápido, irrequieto e enérgico, como um relâmpago. "Não acredito. É incrível, o Mick é um herói para mim. Inspirou-me a cada dia, em cada competição. Lembram-se daquele filme, "3 Degrees" [lançado em 2003]? Já o vi umas duas mil vezes", desabafou Ítalo, no final, já em terra e depois de abraçar fortemente o australiano, ainda na água.

Mick Fanning chegou à praia, deu entrevistas, subiu as escadas do palanque e apareceu na cerimónia de prémios sorridente e visivelmente aliviado. "Sempre quis acabar aqui em Bells, porque me sinto mais calmo aqui. Todos os meus melhores amigos estão aqui e o apoio que as pessoas me têm dado... Chegar à final com o Ítalo e ver o quão isto significa para ele faz-me sentir melhor. Aprendi muito e levo tantas boas memórias, de viajar com pessoas e conviver com elas em terra. Acho que vou ter mais saudades das amizades e de, simplesmente, estar aqui. Mas o bom é que posso sempre aparecer e vir chatear as pessoas. Do que não vou ter saudades é das manhãs de competição às 6h30", disse, com uma voz serena.

Kelly Cestari/WSL

Final feminina: brincar com a sorte quase deu azar

Antes deste desmancha prazer de não se assistir a um conto de fadas, Stephanie Gilmore saiu do mar a usar as duas mãos para o gesto de quem toca um sino - sendo a praia Bells Beach, o troféu é um pedaço gigante de madeira com um sino preso, que cada vencedor abana efusivamente. Mas a seis vezes campeã mundial teve tanta confiança de que tal iria suceder que foi por pouco que não teve uma desfeita das grandes.

Nos últimos segundos da final, a australiana liderava a bateria e detinha prioridade, ou seja, podia-se fazer a qualquer onda com a garantia de que Tatiana Weston-Webb não o poderia fazer, pois aí seria penalizada. Aparece uma onda, só havia tempo para essa, e a havaiana rema ao lado de Gilmore, que já foi seis vezes campeã mundial e não aprendeu a dar esta missa ontem.

Mas Stephanie não reage, não rema, deixa Tatiana apanhar a onda e fica a olhar para trás, sentada na prancha, talvez já ciente de que podia ter cometido um erro crucial. A havaina surfou a onda com tudo o que tinha, precisava de um 6.80 para vencer e, pelo que fez, era bem possível que o fosse ter. Os juízes demoraram quase cinco minutos a darem a nota e, já Weston-Webb estava nas escadas da estrutura do evento, anunciaram um 6.57.

Stephanie Gilmore saiu da água e festejou a conquista como nunca, fervorosa pela vitória que quase lhe escapou. Ou não. "Depois da onda da Tati, faltava um minuto e meio e pensei que viria uma onda milagrosa atrás. Sabia que uma onda de 6.80 em Bells teria que ficar perto da minha grande onda da bateria [7.17], por isso estava confiante [que ia ganhar]", disse, após a final.

Seja como for, ela é a nova líder do ranking mundial. Nos homens, a licra amarela continua a com Julian Wilson, embora tenha agora os mesmos pontos que Ítalo Ferreira. Em terceiro, muito perto, está Mick Fanning - ou fica a memória de Mick Fanning.

Kelly Cestari/WSL

  • Frederico Morais: partir duas pranchas e acabar em quinto lugar

    Surf

    Tal e qual o ano passado, o surfista português ficou-se pelos quartos-de-final da segunda etapa do circuito mundial de surf, numa bateria em que partiu duas pranchas. Kikas foi eliminado por Gabriel Medina em Bells Beach, ex-campeão do mundo que, à terceira, lá o conseguiu vencer. Com este resultado, Frederico Morais deverá entrar no top-10 do ranking

  • O Relâmpago Branco diz adeus e leva uma história gloriosa e difícil com ele

    Surf

    O surfista australiano anunciou que se vai retirar da vida profissional, em abril. Aos 36 anos, e descontando a anormalidade lendária que é Kelly Slater, o surf ficará sem o tipo com mais títulos no ativo (três) e que mais vezes tocou o sino em Bells Beach, na Austrália, a segunda etapa do circuito após a qual, simbolicamente, Mick Fanning dirá o adeus