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Se é sobre Mick Fanning, só se pode falar em lendas

Mick Fanning retirou-se na madrugada de quinta-feira na sua praia. E João Kopke, um surfista português que estava a vê-lo (e a admirá-lo) à distância, escreve sobre uma das maiores personagens do surf de todos os tempos

João Kopke

Ed Sloane/WSL

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01:24 da manhã – “João, tudo bem, pá?”

Era o Diogo Pombo, do Expresso.

A estas horas, para aqueles que trabalham melhor com as pestanas queimadas, talvez seja normal receber um email. No limite, uma mensagem elaborada para responder mais logo, amanhã ou depois. Mas, na madrugada de uma quarta-feira, um “tudo bem, pá” requer resposta imediata, urgente.

Mas não achei estranho. Soube exatamente qual seria a proposta que se seguiria a este whatsapp noturno. O Diogo também não terá tido muitas dúvidas sobre se eu estaria ou não acordado, aquela hora.

Na Austrália eram 10:24 da manhã. E a razão de um jornalista e um surfista estarem de olhos abertos quando a lua já ia tão alta era que um dos momentos mais bonitos do nosso desporto estava “a dar”, em direto, nos nossos computadores.

Lembro-me de sermos muitos, no calor de um duvidoso hotel numa terriola qualquer do Equador, durante um mundial júnior, os que estávamos sentados a olhar para uma televisão onde passava um DVD de surf: “Me, Myself And The Eugene”. Mick Fanning, na altura, apenas com um título mundial amarrado ao cinto, expunha em vídeo o seu surf e o seu alter-ego festeiro. Sim, o Eugene é um personagem inventado pelo surfista profissional com autorização para beber uns copos a mais – a parte de inventar alter-egos diz muito sobre a personalidade deste herói, que estava, agora, a dizer adeus às licras de competição. E era este adeus que nos mantinha despertos a altas horas da madrugada (mais sobre alter-egos no fim do texto).

O surf na TV não deixava dúvidas – era o melhor surfista do mundo, na altura. E o crowd de miúdos de todas as nacionalidades não tirava os olhos cheios de sal da velocidade com que surfava e da técnica que, ainda hoje, é uma das mais perfeitas de todos os tempos. Mick é uma espécie de carro alemão do surf profissional. Não é simplesmente consistente, mas consistentemente muito acima da média. De 2007 (ano do seu primeiro título mundial) a 2015, Mick seria uma escolha acertada no Fantasy Surfer de todos aqueles que acham giro fazer apostas de surf.

Não valia a pena a nenhum adversário entrar na água com expectativas de que vacilasse, não acertasse a última manobra ou não estivesse nas melhores ondas do heat. Para derrotá-lo, era preciso surfar muito. Para a maioria dos surfistas que foram passando pelo tour, muito mais do que o seu normal. E, quando descia as escadas em direção à areia com os olhos postos no mar, sem falar com ninguém, de headphones nos ouvidos, as hipóteses dos adversários ficavam próximas do zero.

Títulos foram “apenas” três. Porquê o apenas? Porque, no percurso da carreira de Mick, depois do primeiro, poderiam ter sido muito mais. Em todos os Pipe Masters, a etapa havaiana que termina o circuito, desde 2007, não houve ano em que Mick não estivesse na disputa.

Ora com Slater (o melhor de todos os tempos), ora com o seu melhor amigo, Joel Parkinson, com Mineirinho e com Medina e John John (os melhores desta nova era de surf profissional) Fanning era sempre a principal ameaça. Há umas semanas, antes do início da primeira etapa do circuito, Tiago Pires comentou, através do Instagram, que poderiam ter sido mais títulos. A julgar pelo surf, e pela entrega que mostrava em relação ao desporto, concordo: poderiam, deveriam ter sido muitos mais.

Mick não é uma lenda viva do desporto apenas pelo desporto. Há aqueles que ficam grandes porque são muito bons a fazer alguma coisa. Mas Fanning não será recordado simplesmente pela técnica, pelas táticas ou pelos títulos.

Kelly Cestari/WSL

Nós do surf temos 34 “heróis” todos os anos. São poucos os surfistas que estão constantemente debaixo das luzes da ribalta a disputar ondas sobre as bancadas de coral do Tahiti, Fiji e Havai. E, por isso, ao fim de umas temporadas, parece que os conhecemos, falamos deles como se tivessem estado na água connosco naquela sessão de ontem ao final de dia e sabemos de todas as histórias. Para mim, esta é a razão pela qual, depois da última etapa da carreira de Mick, o surf profissional vai perder uma das suas maiores personagens de todos os tempos.

Estava num campeonato em Santa Cruz, à espera do meu heat, quando o speaker de praia anuncia nos altifalantes que Mick Fanning acabava de ser atacado por um tubarão, na África do Sul, durante a final do campeonato. Não sei com que cara o speaker pôde, depois desta notícia solene (porque ninguém sabia se o nosso herói estava vivo, sem uma perna, ou são e salvo) para uma praia cheia de fanáticos do surf, continuar com uma linha como esta: “isto lembra-me aquela vez em que fui atacado por um tamboril enquanto estava a fazer bodyboard”. Ninguém riu, mas, sim, ele foi o maior.

Não houve jornal no mundo que não noticiasse o acontecimento. Mas, para mim, o momento mais memorável da carreira de Fanning (como pessoa e não só como surfista) foi quando perdeu o título para Adriano de Souza em 2015: Estávamos na derradeira etapa do tour. Disputa por títulos mundiais, os surfistas de todo o mundo fechados em casa, olhando para o computador quando o Martin Potter (um dos comentadores da WSL) fala ao webcast com a notícia de que Mick acabara de perder o irmão.

O outro irmão, porque já havia perdido um primeiro num acidente de carro, depois de uma festa, na Austrália. E foi emocionante ver como, bateria a bateria, Mick superava a dor com surf. Como se focava em não deixar que aquilo que faria com que qualquer um de nós ficasse sem a capacidade de viver durante uns dias, não destruísse o sonho do quarto título mundial. E, entre lágrimas, disputou a vitória até a conjuntura das ondas e dos seus adversários não o permitirem mais.

Perdeu, nesse ano, o título e a pica para se manter como um dos melhores atletas que o surf já viu. Mas não perdeu os momentos brilhantes que, desde o apanhar lixo nas praias portuguesas sem saber que alguém estava a filmar, a ganhar a etapa onde quase foi atacado por um “tamboril” sul-africano, no ano seguinte, deram a esta nossa comunidade de ondas um exemplo a seguir.

Às 10 da manhã, em Bells Beach, o Joel Parkinson perguntava se seria ainda muito cedo para beber uma cerveja. À 01:00 da manhã, em Carcavelos, eu lutava para manter os olhos abertos e acompanhar mais uma, a última, jornada rumo à vitória de Mick Fanning. Nem ele conseguiu ganhar, caindo na derradeira bateria face a Ítalo Ferreira, nem eu consegui não adormecer. E, por isso, daqui em diante, só posso falar em lendas.

E reza a lenda que, ao chegar à área de competidores depois da sua última final, Mick Fanning, a plenos pulmões, deu as boas vindas ao seu novo alter-ego – Mr. McMuffin. E a lenda conta também que, à altura em que leres estas palavras, McMuffin estará num bar australiano a beber cerveja e a celebrar uma carreira que começou e acabou, de forma brilhante, em Bells Beach.

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