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Mick Fanning, o surfista simples que, no fundo, não se retirou

O homem que foi três vezes campeão do mundo abandonou, no mês passado, o surf de competição e o mundo disse que Mick Fanning se retirou porque, supostamente, não voltaria competir. Mas, em entrevista à "GQ", o australiano explicou que não é bem assim e até se abriu sobre a forma como optou por não se armar em forte para lidar com a vida que lhe tirou dois irmãos e deu um ataque de tubarão: "As merdas acontecem e armam-se em fortes, quando na verdade só querem chorar. Não tenho energia para isso. É uma coisa que odeio"

Diogo Pombo

Drew Ryan

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Mick Fanning sempre foi um rapaz recatado, nascido na cidade (Penrith, Sydney) e crescido junto ao mar (Tweed Heads), simples e adorador da simplicidade da vida, traços que dele se descortinam pelo que, com os anos, fomos ouvindo, lendo e vendo. Como a que explica, muito rápido, a razão que nunca o fez ter um empresário, alguém que lhe gerisse as contas, filtrasse os pedidos de falatório para entrevistas ou se preocupasse com o como voar e o onde ficar - porque a mãe, um dia, disse-lhe: "És esperto o suficiente para tratares de tudo sozinho". Ele diz que apenas seguiu o conselho e manteve-se fiel ao instinto. A decidir sempre segundo o que lhe parecia bem.

Há cerca de um mês, o australiano decidiu retirar-se do surf de competição. Não sendo um australiano qualquer, mas sim um que ganhou três títulos mundiais (2007, 2009 e 2013), foi atacado por um tubarão em direto para o mundo e, unanimemente, sempre foi visto como o tipo simpático deste desporto de ondas, as coisas que Fanning diz tornaram-se mais valiosas. Como uma espreitadela à mente que comanda o surfista, rara, porque ele escolheu nunca falar muito.

Ele, simples como é, não era pródigo em frases bombásticas para titular textos e não seria agora que começaria a ser. Mas é essa simplicidade que lhe dá gestos como o de encher uma carrinha de pranchas e fazer questão em ir buscar o jornalista da "GQ" ao aeroporto, na Austrália, quando a revista quis falar com ele pouco antes de Fanning anunciar que se iria retirar da vida de surfar para ganhar, perder ou ser melhor que alguém. "O desejo de acordar de manhã e ir para o ginásio já não existia. Sentia que se ganhasse, ganhava - mas já não importava. De certa forma, estava a mentir a mim próprio, a tentar fazer com que ficasse entusiasmado para heats, a tentar querer muito ganhar a alguém", confessou, logo no arranque.

Nessa entrevista, Fanning foi o que se espera, com frases curtas e diretas, desabafos sobre o estar farto de puxar pelo corpo para competir e de surfar para ganhar e ficar em casa no resto do tempo. Cansado de ter de partilhar ondas quase sempre com os mesmos 36 tipos de um circuito. "Agora quero as ondas só para mim", disse, em pulgas com o tempo que agora terá de sobra para, simplesmente, dizer que sim a quaisquer planos que lhe surjam no caminho.

E insisto em ir, de novo, à forma simples como Mick Fanning desabafa e discute, por certas coisas que ele diz na entrevista e pela forma como as diz:

Sobre a morte de dois irmãos e o ataque de tubarão

"Não há uma forma certa para lidar com este tipo de coisas. O que mais me ajudou foi falar com amigos e com um psicólogo. Não só os tipos australianos, mas os homens no geral, têm uma carapaça dura e tentam ser fortes, quando têm medo de falar. É uma coisa que odeio.

As merdas acontecem e armam-se em fortes, quando na verdade só querem chorar. Não tenho energia para isso. E há sempre alguém, algures, em pior estado que nós. Tenho muita sorte - estou aqui sentado, com esta vista [a entrevista realizou-se em casa de Fanning], mas há pessoas que nem têm casa, comida ou uma vida calma, por isso penso sempre nos outros quando sinto pena de mim próprio."

Os tempos sem as versões de nós próprios em redes sociais

"Sentávamo-nos em cafés com internet, era tão divertido nos primeiros anos, éramos jovens e estávamos entusiasmados por cair dentro do que toda a gente estava a fazer. Havia muita camaradagem nesse tempo, porque nem toda a gente ganhava assim tanto dinheiro e viajávamos juntos. Agora, as pessoas têm a sua própria entourage, todos têm os seus fotógrafos e operadores de câmara. É muito diferente."

O surf, que não é um desporto

"É um pouco diferente porque, realmente, não nos retiramos do nosso desporto. É algo que continuamos a fazer. O surf é mais um estilo de vida do que um desporto. No futebol, precisas que um grupo de amigos se junte e vão jogar, enquanto que no surf, se houver boas ondas, podes ir onde te apetecer."

Uma das razões que fazem Fanning ser assim

"Tenho de agradecer à minha mãe. Uma vez, estava numa prova regional de sub-13, a lutar pelo título, e surfei tão mal e fiquei tão chateado que atirei a minha prancha [ao chão] e comportei-me como um idiota. A minha mãe disse-me: 'Se alguma vez fizeres isso de novo, vou dar-te uma estalada na cabeça'. Daí em diante, apertei sempre a mão ao outro tipo e continuei a competir. Tentei ser um bom desportista."

Simples.

São coisas ditas por Mick Fanning no mesmo registo em que narrou, há tempos, o vídeo com que a Red Bull quis resumir a história do australiano. A voz é sóbria, quase que amuada por uma hipotética obrigação de estar a fazer aquilo, a dar a sensação de que os factos ali contados são banais, quando são tudo menos isso.

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    Surf

    O brasileiro estreou-se a vencer uma etapa do circuito mundial de surf e tocou o sino de Bells Beach pela primeira vez, impedindo, no processo, que Mick Fanning o tocasse uma última vez, na sua última prova, aos 36 anos: "Nunca surfei tão relaxado. Foi uma carreira incrível". Nas mulheres, Stephanie Gilmore conseguiu a quarta vitória neste evento, mas brincou demasiado com a sorte nos últimos segundos da final

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    Surf

    O surfista australiano anunciou que se vai retirar da vida profissional, em abril. Aos 36 anos, e descontando a anormalidade lendária que é Kelly Slater, o surf ficará sem o tipo com mais títulos no ativo (três) e que mais vezes tocou o sino em Bells Beach, na Austrália, a segunda etapa do circuito após a qual, simbolicamente, Mick Fanning dirá o adeus