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A perfeita nota 10 de Ítalo Ferreira onde tudo é subjetivo e irrepetível

Se não é natural um humano deslizar sobre uma onda, em cima de uma prancha, então o que será ver alguém a voar, rodopiar no ar e aterrar na água como se nada fosse? É uma onda nota 10, como Ítalo Ferreira mostrou enquanto dominava a quarta etapa do circuito mundial, na Indonésia

Diogo Pombo

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Antes de me endereçar, em concreto, ao vídeo em cima, há que enaltecer uns quantos aspetos sobre o surf e a competição.

No dia em que alguém olhou para o mar, viu aquelas massas de água a erguerem-se, embalarem e a quebrarem, ordeiramente, na direção da praia, e magicou uma forma de tirar proveito de ondas, por certo não imaginou que se pudesse atribuir pontos ao que viria a ser a forma de conviver com a natureza em cima de uma prancha.

Porque nunca, em momento algum, jamais, o mar fabricará duas ondas exatamente iguais: as condições de vento, a altura e a direção da ondulação, a temperatura da água, os fundos de areia e todas as restantes coisas mutáveis que cabem neste etc., não são como o eram no dia anterior.

Ou seja, o surf, como desporto de competição, é altamente subjetivo e parcial, por muito que a World Surf League (WSL) tenha no seu livro de regras que, a cada prova, os cinco juízes avaliam uma onda, numa escala de 0 a 10, consoante 1) o grau de dificuldade e comprometimento; 2) a inovação das manobras; 3) a combinação de grandes manobras; 4) a variedade; 5) a velocidade, power e fluidez.

Lá está, tudo coisas subjetivas.

É raríssimo ver um surfista comportar-se numa onda com a genialidade e certeza suficientes para que cinco pessoas o reconheçam e lhe dêem uma nota 10. É, por isso, espetacular ver como Ítalo Ferreira, na meia-final de uma etapa do circuito mundial de surf, arriscou fazer-se a um 10 desta forma.

O brasileiro, a surfar de costas para as paredes que quebravam para a direita e contra a areia preta e vulcânica de Keramas, na Indonésia, ousou descolar da onda e rodar 180º, com a graciosidade dada pelos pés imóveis na prancha e pela aterragem suave, como se nada fosse.

Ao monstruoso aéreo, Ítalo procedeu com duas manobras a rasgar a onda com leques de água, seguido, como se ainda precisasse, de um pop shove-it - manobra, por hábito, feita em skate, em que se dá um salto para que a cauda da prancha passe a ser o bico. O brasileiro fê-lo e, face à natural reorientação da prancha na água, ainda deslizou durante uns segundos com os pés trocados (ou seja, de frente para a onda).

Aconteceu antes de Ítalo Ferreira ganhar a quarta etapa do circuito e o seu segundo evento do ano - já fora o melhor em Bells Beach, na Austrália -, para garantir a liderança do ranking. E nos mostrar uma das raras ocasiões em que, objetivamente, quase se chegou à perfeição num desporto baseado na mais mutável das partes da natureza e, portanto, subjetivo.