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Do Titanic ao ténis. Nada é impossível

Um publicitário inspirado decretou que o impossível não é nada, pelo menos para quem comprar equipamento de uma certa marca desportiva. Einstein, que andava sempre com a mesma roupa, explicou que “algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário”. Esta é uma história impossível que começa no Titanic e acaba no US Open - com João Sousa

Rui Gustavo

O tenista português João Sousa, 36º do ranking ATP, está a competir no US Open

Al Bello/Getty

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Em abril de 1912, Richard Norris Williams II viajava com o pai a bordo do Titanic e, claro, naufragou. Apesar de ocuparem um camarote na primeira classe do “navio impossível de afundar” os Williams tiveram de nadar pela vida. O pai morreu quase imediatamente. Richard, uma jovem promessa do ténis americano no vigor dos 21 anos, conseguiu agarrar-se a um salva vidas e passou horas na água gelada à espera de socorro.

Sobreviver era quase impossível, mas ele escapou. Foi um dos 710 sobreviventes do naufrágio que matou mais de 1500 pessoas. Tinha graves lesões nas pernas, provocadas pela água gelada e a amputação era inevitável. Foi esse o diagnóstico do médico que o observou a bordo do Carpathia, o navio que resgatou os sobreviventes.

Richard, que viajava para os Estados Unidos para ingressar em Harvard e jogar alguns torneios, não aceitou. Ficou na Europa e começou a fazer tratamentos. Apesar dos rudimentos da medicina do início do século XX, e contra todos os prognósticos e diagnósticos médicos, as pernas curaram.

De tal maneira que Richard Norris voltou a jogar. Tão espetacularmente que disputou o Open dos Estados Unidos desse ano de 1912. Tão milagrosamente que ganhou a final de pares mistos. Voltou no ano seguinte, perdeu a final masculina e em 1914 foi campeão. Dois anos depois de escapar ao maior naufrágio da história naval. Chegou a número dois do mundo e parece impossível que esta história tenha escapado aos guionistas de Hollywood.

João Sousa é o 36º do ranking ATP

João Sousa é o 36º do ranking ATP

JEWEL SAMAD/Getty

João Sousa, que joga hoje com Grigor Dimitrov o acesso à terceira ronda do Open dos Estados Unidos, teve de nadar até Espanha para escapar ao naufrágio das jovens promessas do ténis nacional.

Por acaso, vi-o jogar no Estoril Open quando tinha uns 17 anos e se alguém me dissesse que aquele rapaz de cabelo à jogador da bola dos anos 80 iria ganhar dois torneios ATP e tornar-se o melhor tenista português de sempre, eu diria que era improvável. Cresci a ver Nuno Marques e João Cunha e Silva serem notícia porque ganhavam um jogo no estrangeiro, vi a final perdida de Frederico Gil no Jamor a festejar cada ponto como se fosse um golo da seleção e acho que interiorizei aquele fatalismo do quase, que despareceu, acho eu, com o golo de Eder.

Na última quarta-feira vi João Sousa a jogar o melhor ténis de sempre e a bater Feliciano Lopez, o nº18 do mundo, com classe. Ele joga à espanhola, sempre de dentes cerrados e zangado com o mundo inteiro. Mas diz asneiras em português. Imaginei-o a ganhar mais uma eliminatória, a chegar às rondas finais dos grandes torneios, a chegar ao top 10 mundial, a, vá, ganhar um Grand Slam. Mas isso é impossível.

João Sousa joga hoje (17h30, transmissão Eurosport) a terceira ronda do Open dos Estados Unidos, um dos quatro maiores torneios do mundo. O adversário é Grigor Dimitrov, nº 24 do mundo, que já ocupou a oitava posição. Impossível?