Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Ele está subir na vida a pulso. Outra vez

Pensou em abandonar o ténis durante os três anos em que as lesões nos pulsos quase o privaram de jogar. Agora, Juan Martin del Potro, o bom gigante do circuito, continua a sorrir após ganhar a prata nos Jogos Olímpicos: de volta a um Grand Slam, está nos quartos-de-final do US Open e tornou-se no tenista com pior ranking dos últimos 25 anos a fazê-lo. Falámos com Rui Machado, que chegou a apanhá-lo no seu melhor

Diogo Pombo

OLHA QUEM ESTÁ DE VOLTA O argentino voltou a ser feliz no US Open, ao derrotar Dominic Thiem (vencia por 6-3, 3-2 quando o austríaco abandonou o encontro devido a lesão) e passar aos “quartos” do Grand Slam que venceu em 2009

Partilhar

“Não é bom ganhar desta maneira.” Del Potro solta apenas duas frases, algo tímido, dizendo-se triste por ver alguém ser derrotado pelo adversário que ganha, quase sempre, a toda a gente: a dor.

O corpo malandro tramou Dominic Thiem enquanto jogava o 69.º encontro da temporada, o maior número entre os tenistas do circuito ATP. O joelho obrigou-o a desistir e a fazer com que o grandalhão que estava do outro lado da rede, com 1,98 metros em altura e um lenço apertado à testa, por uma vez, não sorrisse.

Porque Juan Martin del Potro ter-se-á lembrado do que os pulsos lhe fizeram.

Há três anos, começaram a tramá-lo. Lesionou-se e o direito deu-lhe dores, tantas que teve de deitar na mesa de operações uma das partes do corpo que o ténis mais castiga. Uma vez não chegou. Foram três as cirurgias que abriram os pulsos do argentino; aos poucos, foram dando pancadas na esperança que tinha de voltar a jogar ao seu nível.

A primeira aconteceu no início de 2010, pouco depois de escalar ao alto do quarto lugar do ranking e cheirar o cume onde habitavam Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, os extraterrestres que desceram à terra de raquete na mão.

Essa lesão fez o argentino cair sozinho numa avalanche, mas ele voltaria às escaladas. No ano seguinte, regressou aos courts e conseguiu bater de novo à porta do top-3 (foi número quatro do mundo em fevereiro de 2014), até o pulso o obrigar a largar a raquete mais uma vez – e a submeter-se a outras duas operações.

“Tive problemas muito grandes. Estive perto de deixar o ténis, pensei nisso o ano passado [2015], mas, nesse momento, não tinha outro trabalho”, disse, esta terça-feira, quando a ESPN conversou com ele após ter a sorte de, no US, ver Dominic Thiem servir-se da fatia de bolo do azar que tantas vezes ele próprio engolira.

Del Potro está nos quartos-de-final do US Open, feliz da vida, sorridente e, assegura, “contente por estar a jogar ténis”, pouco preocupado se ganha ou perde. É a mesma atitude que levou na mala para o Rio de Janeiro, onde acabou com a medalha de prata no torneio olímpico, perdendo apenas para Andy Murray. Pelo caminho, a direita animalesca e o serviço lança-mísseis, ligados por uma uma atitude de guerreiro solitário – “Emocionalmente, vivo cada jogo como se fosse o último da minha carreira”, admitiu, em julho – chegaram-lhe para derrotar Novak Djokovic (logo à primeira ronda) e Rafael Nadal.

Ou seja, a mesma combinação que fez a vida negra a Rui Machado.

O serviço e a direita

Em 2012, o português partilhou o pó de tijolo com o argentino na quarta ronda do Estoril Open – e sofreu. Muito. O antigo tenista, que se retirou em junho, resume ao Expresso que “a base do jogo dele sempre foi o serviço e a direita”, a mesma que não lhe deu qualquer hipótese há quatro anos. “Lembro-me muito bem, foi o adversário que senti mais dificuldades do início ao fim do jogo. Foi aquele que menos oportunidades me deu, em toda a carreira”, admite, entre alguns risos, ao recordar os parciais de 6-1 e 6-0 com que foi derrotado por uma das melhores versões do gigante. “Provavelmente, era o único que podia fazer frente aos grandes”.

Numa palavra, o português refere-se a quatro palavras, Djokovic, Federer e Nadal, o sérvio, o suíço e o espanhol que, entre eles, têm 43 Grands Slams conquistados. Aos 27 anos, Del Potro já os venceu a todos, embora as cirurgias ao pulso o tenham transformado noutro tenista. “Está um bocadinho mais protegido do lado esquerdo, procura jogar mais os pontos com a direita. Nada que ele já não fizesse, mas agora está mais acentuado”, analisa Rui Machado, que apenas lamento o facto de “não ter tido muito tempo para nos habituarmos a vê-lo ganhar mais vezes”.

Mas calma, ainda há tempo.

O pior de sempre

Porque as pancadas de direita, brutas, ao longo do court, e o estilo de ténis agressivo e direto do argentino parecem, aos poucos, estar a regressar. O azar em forma de lesão de Dominic Thiem colocou Juan Martin del Potro, 142.º classificado do circuito mundial, nos quartos-de-final do US Open, o primeiro Grand Slam em que participa nos últimos três anos. Que, aliás, venceu em 2009, quando era o imberbe argentino por quem os americanos se apaixonaram com a vitória na final, contra Federer.

Agora já é o tenista com pior ranking, desde 1991 (quando Jim Courrier o fez), a alcançar os quartos-de-final da prova. E com um wildcard, uma espécie de convite que as organizações dos torneios atribuem a alguns tenistas. “Não estava à espera de chegar tão longe. Estou surpreendido comigo próprio. Ainda não tenho uma boa esquerda, mas acho que estou a jogar melhor do que estava. Estou mais inteligente, jogo mais com o slice e vou mais vezes à rede. Mas todas as manhãs sinto os pulsos muito apertados e não é fácil jogar com a minha mente. às vezes ainda sinto medo de bater com força na bola. Não sou mentiroso. Estou a gostar muito de jogar”, explicou-se.

A verdade de Del Potro vai agora a jogo com Stanislas Wawrinka, o terceiro do ranking mundial.