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Stanimal, Stan The Man ou simplesmente Stan

O tenista suíço Stan Wawrinka derrotou Novak Djokovic e é o primeiro desde Fred Perry nos anos 30 a conseguir as três primeiras vitórias em três torneios diferentes

Alexandra Simões de Abreu

Stan Wawrinka tem 31 anos e é o número três mundial

Chris Trotman/Getty

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Em 2010, um ano depois de ter casado com a apresentadora suíça Ilham Vuilloud, o tenista Stan Wawrinka entrou em casa e, na frente da filha de sete meses, disse à mulher que só tinha cinco anos pela frente de bom ténis e não queria distrações para atingir o seu objetivo: gravar o nome na história da modalidade. Por isso ia separar-se dela.

O episódio é apenas um entre muitos que Wawrinka tem vindo a protagonizar dentro e fora do ténis desde que o seu nome passou a ser conhecido no circuito profissional. E é aqui que começam as surpresas de Wawrinka. É que ao contrário da maioria dos tenistas profissionais que começam novos a dar nas vistas e vão perdendo algum gás ao longo dos anos, o suíço só entrou pela primeira vez no top dez do ranking mundial ATP, em 2008, já com 23 anos, ao alcançar a final do Masters 1000 de Roma.

Pode dizer-se que o título olímpico em pares, ao lado do compatriota Roger Federer, nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, é a primeira grande vitória da sua carreira, depois do primeiro torneio ganho na Croácia, em 2006. Entre as suas conquistas destacam-se os três torneios do Grand Slam - o Open da Austrália de 2014 - onde derrotou Rafael Nadal -, Roland Garros, em 2015, e este domingo o Open dos Estados Unidos.

Wawrinka venceu o número um do mundo pelos parciais de 6-7 (1), 6-4, 7-5 e 6-3, tornando-se, aos 31 anos, o primeiro desde Fred Perry nos anos 30, a conseguir vencer na estreia em finais de três dos quatro torneios do Grand Slam. No currículo como profissional, em que conquistou 17 torneios nível ATP, 13 deles singulares e quatro em pares, falta-lhe agora Wimbledon.

“Quando cheguei aqui, só queria fazer o meu melhor. Nunca pensei nisto”, revelou Wawrinka depois de vencer a final do US Open. Mas a verdade é que o suíço ficou muito perto de entrar no restrito lote dos Big 4 (Federer, Nadal, Djokovic e Murray) com vitórias nos Big 4 (Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open). “Não, ainda falta muito. Estou muito longe deles em matéria de sucesso, troféus e consistência ao longo de uma temporada durante anos e anos. Nem sequer penso nisso. Quero só desfrutar do terceiro título de Grand Slam. É incrível o que consegui, nem consigo explicar. Não dá. A cabeça ainda está à roda com tantas emoções. Antes de entrar no court, tremia e chorava no balneário. Como nunca tinha chorado. No início da carreira, ia descontraído para as finais como se me desse já por feliz de estar ali. Depois, amadureci e já ia com aquele nervoso miudinho para as finais. Hoje, tremi e chorei.”

Chris Trotman/Getty

Stananimal, Stan The Man ou simplesmente Stan

Com nome de origem polaca, Stanislas Wawrinka é filho de um alemão e de uma suíça, e neto de checos. E se no sobrenome, que é do avô paterno que se radicou na Suíça após deixar a então Checoslováquia em 1946, nunca ousou mexer, já no próprio Stanislas solicitou à ATP (Associação de Tenistas Profissionais) a mudança do seu nome de apresentação no circuito, reduzindo o primeiro nome ao apelido de “Stan”. Não satisfeito registou duas alcunhas: “Stan the Man” e “Stanimal”.

Com um irmão mais velho e duas irmãs mais novas, aos 15 anos resolveu colocar os estudos de parte para se dedicar de corpo e alma ao ténis, embora de início, sem grande sucesso e consistência. Pode dizer-se que a vitória no Portugal Open, no Jamor, em 2013, foi o início do caminho do sucesso, mas verdadeiramente a verdadeira rampa de lançamento parece ser a reconquista do Chennai Open e a vitória no primeiro Grand Slam, na Austrália (vs. Rafael Nadal, então o número um do ranking), em 2014.

Foi também nesse ano que viveu ouro episódio caricato, desta vez dentro do court, quando discutia com Roger Federer um lugar na final do Masters de Londres. O jogo é renhido e é Wawrinka quem serve. Mirka, a mulher de Federer diz qualquer coisa alto e Wawrinka murmura “não se fala antes do serviço”.

Mirka não se cala e atira: "chora, bebé, chora". O próprio Federer manda-a calar com um gesto e Mirka atira o telemóvel ao chão. No final do set Wawrinka irritadíssimo diz ao árbitro: “Ela fez o mesmo em Wimbledon”. Federer ganhou o jogo e segundo rezam as crónicas, sobretudo as de John McEnroe, ex-tenista e comentador da ESPN, as coisas no balneário aqueceram entre ambos, tendo havido uma longa troca de acusações.

Mas as coisas parecem ter ficado bem resolvidas entre ambos. No final da temporada, juntamente com os compatriotas Marco Chiudinelli, Michael Lammer e Federer, Wawrinka levou a Suíça ao título da Copa Davis. Segue-se em 2015 a vitória em Roland Garros frente a Djokovic e nesse mesmo ano pousa nu para edição de julho da revista americana Magazine Body Issue e é eleito desportista do ano do seu país.

Chris Trotman/Getty

Na vida pessoal, depois da separação da estrela suíça Ilham Vuilloud, Wawrinka não demorou muito tempo a arrepender-se e em 2011 os dois reconciliam-se. Mas, há um ano, o jogador helvético resolveu recorrer às redes sociais para informar que a relação com ex-modelo e apresentadora de televisão chegou ao fim. “Desfrutámos de dez anos gratificantes, com os altos e baixos próprios de um casal, mas a vida às vezes é mais exigente do que estamos à espera”, escreveu Wawrinka na sua conta do Facebook.

Esta é a versão dele, à qual a ex-mulher respondeu com a palavra traição, dando a entender que o tenista não queria estar preso ao casamento e que as insinuações do jornal 'Blick' que falou na croata loira Donna Vekic, de 18 anos, ex-número 62 mundial, como principal razão para a separação, podiam estar certas. “Stan quer recuperar a sua liberdade a todos os níveis”, escreveu a ex-manequim de 40 anos na declaração que entregou à imprensa logo após o comunicado do jogador no Facebook.

Considerado como um dos mais completos tenistas do circuito ATP, batendo-se muito bem em todas as superfícies - o ex-tenista profissional norte-americano John McEnroe declarou que Wawrinka é um dos jogadores mais poderosos que viu e o melhor com o braço direito -, Stan Wawrinka tem tatuado no braço esquerdo uma frase de Samuel Beckett que, segundo um dos seus muitos treinadores, Magnus Norman, reflete bem o caráter do helvético: “Ever tried. Ever fail. No matter. Try again. Fail again. Fail better”.