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René Lacoste, o homem do crocodilo

René Lacoste desapareceu há 20 anos e o seu apelido continua a ser um ícone da moda dentro e fora dos courts de ténis. Mas o homem que ganhou a alcunha de crocodilo fez mais do que criar um marca. Inventou a primeira raquete de ténis de aço, o antivibrador para raquetes e o canhão de bolas de ténis. E ainda conquistou sete Grand Slams

Alexandra Simões de Abreu

Jacques Brugnon, Henri Cochet, René Lacoste e Jean Borotra, os “quatro mosqueteiros” que ganharam a Taça Davis seis vezes entre 1927 e 1932

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Quando ouvimos ou lemos o nome Lacoste, automaticamente o nosso cérebro vai buscar a imagem de um crocodilo. Não há erro possível. A marca tornou-se indissociável do animal, absorveu-o e continua a ser um caso sério de sucesso. O que se calhar poucos sabem ou recordam é que aquele crocodilo surgiu por mero acaso, depois de uma aposta, transformou-se numa marca antes mesmo de ser comercializada e René, além de jogador e campeão de ténis, foi inventor.

Nascido em julho de 1904 numa família abastada, foi com o seu pai, um dos diretores da marca de carros Hispano-Suiza, que René descobriu o ténis, numa viagem que fizeram juntos a Inglaterra. Tinha 15 anos. Mal chegou a casa o jovem francês contratou um treinador pessoal e preparou-se com afinco para se tornar jogador profissional, apesar de estar destinado a estudar engenharia na Escola Politécnica de Paris.

Desde logo foi um pioneiro, juntando à formação técnica o treino de ginásio. O seu prazer em treinar era tão grande que, em 1923, com 19 anos, inventou a máquina de arremesso de bolas para praticar mais frequentemente.

Um ano antes, com apenas 18 anos, tinha conseguido juntar-se à seleção francesa que disputava a Taça Davis e em 1925 ganha o campeonato francês (o original Roland Garros), um feito repetido em 27 a 29. Em Wimbledon também alcançou grandes resultados, vencendo em 1925 e 1928. Do outro lado do Atlântico teve bom desempenho no Open dos EUA, ganhando em 1926 e 1927. Pode dizer-se com alguma segurança que só não venceu o Open da Austrália porque nunca participou naquela prova. Afinal ele foi o número um do mundo em 1926 e 1927.

Uma aposta, uma mala e um crocodilo

Mas vamos ao que interessa: como nasceu o logotipo e a marca do crocodilo verde de língua vermelha. Em 1927, na final da Taça Davis entre França e EUA, René Lacoste e Allan H. Muhr, capitão da equipa francesa, fazem uma aposta. Reza a história que enquanto passeavam nas ruas de Boston, René ficou de olho numa mala feita com pele de crocodilo e que o capitão prometeu oferecer-lhe uma caso ele fizessse pelo um bom jogo pela equipa. Depois de Jean Borotra (o Basco Saltitante), Henri Cochet (o Mágico) e Jacques Brugnon (Toto), o quarto mosqueteiro da equipa francesa tinha agora o seu próprio apelido.

Quando chegou a França, o amigo de René, Robert George, desenha um crocodilo que o tenista mandou bordar num casaco branco que passou a usar nos courts de ténis. Mas foi só no final da década de 1920 que Lacoste mandou confecionar um primeiro lote de camisolas em algodão para serem utilizadas durante os campeonatos. Só que não eram as vulgares camisolas de manga comprida usadas nos courts.

Um dia, ao ver o amigo, o Marquês de Cholmondeley, a jogar com um polo (camisola de gola com mangas mais curtas) percebeu que ali estava uma peça bem mais confortável para usar dentro dos courts. Não perdeu tempo e encomendou a um alfaiate inglês algumas camisolas iguais. Em pouco tempo, a moda pegou junto dos jogadores da altura.

AFP

René entretanto fica doente, com uma bronquite que se torna crónica, e afasta-se dos courts. Irriquieto e criativo, o francês não fica parado e em 1933 associa-se ao fabricante de malhas André Gillier, para lançar a primeira produção industrial da “La Chemise Lacoste”, um pólo com a marca do crocodilo, de mangas curtas e com colarinho de bordos cortados.

O tecido era leve e fresco, o famoso “jersey petit pique”. Foi a primeira vez que uma marca estampou o seu logotipo do lado de fora da roupa, tornando-o visível. Uma ideia que, como sabemos, prosperou. Rapidamente a Lacoste toma conta dos courts, tornando-se numa espécie de farda no ténis. Mas não só. A marca espande-se para outras áreas, nomeadamente o golfe e desportos ligados ao mar.

Nos anos 50 a Lacoste lança a primeira gama de cores para o “polo petit piquet”, cria os primeiros ténis (leves e resistentes), lança a primeira coleção infantil e começa a exportar. Na década seguinte Rene Lacoste começa por patentear a gola polo (mais grossa) e dá largas ao seu lado criativo e engenhoso. Cria a primeira raquete de ténis em aço, que oferece melhor aerodinâmica. Desenvolve e patenteia o primeiro antivibrador para as raquetes, um dispositivo que absorve as vibrações provocadas pelo impacto da bola, reduzindo assim o risco de contusões.

Em meados dos anos 60, René vê a sua filha Catherine seguir as pisadas da mãe, Simone de La Chaume, ao tornar-se campeã mundial de golfe amador por equipas e entrega o comando da empresa ao filho mais velho, Bernard. Nas décadas seguintes a Lacoste expande-se para uma série de produtos - casacos, sapatos, perfumes, malas, óculos, e outros acessórios -, e acentua um estilo ligado à elegância e descontração, contando para a sua expansão com algumas celebridades que aderiram à marca, como a atriz Audrey Hepburn ou Jackie Kennedy (mulher de JFK), ou algumas estrelas, sobretudo do ténis e do golfe, como Fabrice Santoro, Henri Leconte, Gustavo Kuerten, Nathalie Tauziat, Alex Corretja, Andy Roddick, Severiano Ballesteros, Patricia Meunier-Lebouc, Lorena Ochoa ou José Maria Olazabal.

A ameaça do declínio e um português nas bocas do mundo

Como qualquer marca, a Lacoste passou também por um período menos bom, de algum declínio. Aconteceu nos anos 90, quando surgiram em grande força outras etiquetas. A Lacoste começou a ser vista como demasiado clássica, uma espécie de marca desportiva para “cotas mais velhos”.

Pascal Rondeau/Getty

Sem nunca baixar os braços, a família Lacoste resolveu iniciar a expansão e modernização da rede de lojas e inaugura em 1994 a primeira unidade na China. Ao mesmo tempo investe em novos estilistas para criarem novas coleções e a partir do ano 2000 moderniza-se e ganha um tom mais jovial, sem perder a elegância e a identidade.

Em 2002, Clément Derock, diretor de criação da agência Seenk, suavizou o traço do logo, alongou a boca do crocodilo e emagreceu a silhueta. Para celebrar os 75 anos da marca, a empresa lançou, em 2008, uma campanha publicitária especial e um site (lacoste-future.com) com design futurista. O tema principal era mostrar como será o ténis no ano de 2083.

Entretanto, em 2010, o estilista português Filipe Oliveira Baptista é contratado para assumir o cargo de diretor criativo, em substituição de Christophe Lemaire, que foi para a Hermès. Nascido nos Açores, Filpe formou-se em Design de Moda na Universidade de Kingston, Londres, em 1997. Trabalhou como estilista para marcas como Maxmara, Christophe Lemaire e Cerrutti, e em 2003 criou a sua própria marca e passou a viver permanentemente em Paris com a família. Em 2010 torna-se o primeiro português a ser diretor criativo de uma grande casa de moda.

Nesse mesmo ano a empresa lança a LACOSTE L!VE, uma linha que aposta no conceito jovem e urbano e mistura o estilo original da marca com a arte de rua das grandes cidades mundiais. Atualmente a marca está presente em 114 países em todo o mundo, contando com aproximadamente 1200 lojas próprias e tem os seus produtos vendidos em mais de 2.500 pontos de vendas. 41% de suas lojas estão localizadas na Europa e outros 26% nas Américas. A marca é tão famosa que a cada ano são lançados no mercado paralelo cerca de 3,5 milhões de produtos Lacoste falsificados.

Em 2011 a marca francesa viveu um pesadelo ao ver o norueguês Anders Behring Breivik, que matou 77 pessoas em Oslo, a utilizar as suas roupas nas idas ao tribunal, quando era exaustivamente fotografado. Para piorar a situação o atirador chegou a citar a marca no seu manifesto online, dizendo que “pessoas refinadas como ele deveriam usar marcas como a Lacoste”. Segundo várias noticias publicadas na altura a empresa francesa chegou a escrever uma carta à polícia da capital norueguesa pedindo que impedisse o terrorista de usar roupas da marca nas idas a tribunal.

Com mais ou menos polémica, a verdade é que o nome Lacoste continua a ser uma referênca, um ícone da moda e do ténis, já lá vão 83 anos. René faleceu a 12 de outubro de 1996, com 92 anos de idade.