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O patinho feio chegou ao topo da cadeia alimentar

Andy Murray não nasceu para o ténis mas chegou a número 1 do mundo. É que o desporto dá muito trabalho

Rui Gustavo

Dan Mullan

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É porreiro gostar de ténis e viver na mesma altura do que Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic. A menos, claro, que se seja um jogador de ténis. Não daqueles que consideram um privilégio ganhar uns pontos aos melhores do mundo. Falo dos mesmo bons. Dos que têm tem legitimas esperanças de chegar a número um e têm obstáculos destes para ultrapassar.

Como Andy Murray, o jogador britânico (na verdade é escocês e defendeu a independência) que esta segunda-feira, aos 29 anos, se tornou no 26º jogador profissional a conseguir chegar ao topo do mundo. O mais velho desde John Newcombe.

Murray não é um génio como Federer, um touro como Nadal ou um acrobata como Djokovic. Nem sequer é popular entre os fãs do ténis. Apesar de revelar um excelente sentido de humor fora dos courts e de ser descrito por todos que lidam como ele como um “good chap”, Murray transforma-se com a raqueta na mão. Passa o jogo aos gritos e a praguejar. Com ele próprio, com o público e com os treinadores. A última, Amélie Mauresmo, não teve para o aturar e saiu de cena. Mas não é só isso.

Murray no regresso a casa com a mãe, que deu à luz outro número do ténis: Jamie, que chegou a número 1 m pares.

Murray no regresso a casa com a mãe, que deu à luz outro número do ténis: Jamie, que chegou a número 1 m pares.

Murray é como uma parede viva. Tem uma condição física excelente, vai a todas as bolas e devolve tudo. No início da carreira, em 2005, ainda tentava uns malabarismos, uns amorties, mas rapidamente evoluiu para o protótipo do jogador moderno, que não sobe à rede, não arrisca, não brilha. Deu para ganhar torneios, deu para ser o primeiro britânico a ganhar Wimbledon em 77 anos, mas não dava para ultrapassar Nadal ou Federer. “Já provei que consigo chorar como ele”, brincou, em lágrimas, depois de perder mais uma final de um torneio do Grand Slam contra o campeoníssimo suíço.

Nunca lhe ganhou uma final dos principais torneios, mas Federer foi chegando ao ocaso da carreira, Nadal enrolou-se num mar de lesões e ficou Djokovic. A nova Nemesis de Murray. No início do ano perdeu a final do Open da Austrália com ele. Em Roland Garros voltou a perder. Mas ganhou-lhe em Wimbledon, e foi a vez de Djokovic perder gás, jogos e motivação.

Depois de Roland Garros, o único torneio do Grand Slam que nunca tinha ganho, o sérvio pareceu ficar sem objetivos. E foi a vez de Murray alcançar o seu.