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Murray. Bom e chato

O tenista escocês conseguiu chegar ao fim do ano como número 1 do mundo. Aproveitou o ecplise de Nadal e Federer e a baixa de forma do Novak Djokovic para mostrar que é mais do que uma espécie de Ringo Star, o Beatle sem talento

Rui Gustavo

Paul Childs / Reuters

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"Novak Djokovic será sempre um tipo mau porque destronou os dois reis do ténis: Roger Federer e Rafael Nadal." A frase é de Pat Cash, o campeão australiano que jogava com uma fita aos quadrados na cabeça e ganhou o torneio de Wimbledon em 1987 (contra Lendl, o atual treinador de Murray).

"Novak é o melhor do mundo", continuava Pat, numa antevisão pouco acertada do que seria a final do Masters ATP entre Djokovic e Andy Murray, o escocês que podia entrar para a história como um dos números 1 mais breves de sempre: pouco mais de uma semana. O jogo era uma espécie de final do universo: o sérvio dominou a primeira parte da época, ganhou o Open da Austrália, conquistou o Grand Slam de carreira em Roland Garros (o único torneio que lhe faltava), mas a partir daí caiu.

Murray começou mal, a perder outra vez com Djokovic nas grandes finais, mas foi o dominador dos últimos meses da época. Ganhou Wimbledon, conseguiu a medalha de ouro nos jogos olímpicos pela segunda vez consecutiva e não perde há 24 jogos. Sim, 24 jogos. E ganhou os últimos cinco torneios em que participou. A final que se disputou domingo à noite em Londres era o tira-teimas final. Quem vencesse seria o número 1. É a primeira vez desde 2000, em Lisboa, que o vencedor do torneio final da época acabaria o ano como número 1.

E contra a vontade da maioria dos adeptos do ténis (Cash incluído) foi Murray a ganhar sem dar grandes hipóteses: 6-3 e 6-4 ao fim de pouco mais de uma hora de jogo. Jogou em casa, foi aplaudido, mas sabe que não é amado. É que vê-lo jogar é como um filme de Terence Malick. É bom, mas é chato.

A meio do jogo a realidade demonstrava-o: Novak tinha ganho 8 pontos na rede em 13 tentativas e Murray zero em zero. Não subiu uma vez. Não arrisca nada. Fica atrás a bater bolas com uma precisão infernal, vai a todas, não se importa de mandar "air balls" e, tal como o Benfica de Toni ou de Trappatoni, ganha no fim.

É verdade que Novak não é o mesmo jogador do início da época. Tentou tudo, teve algumas notas artísticas, mas falha mais, parece com pouco moral. Chegou a vez de ser destronado. O que dirá Pat Cash do tipo que destronou o tipo que destronou os reis? Murray não é um predestinado que nasceu para ser número 1, e teve de esperar até aos 29 anos para chegar ao topo. E mais uma semana para mostrar que, agora, é ele o melhor. Novak Djokovic tem até ao início do ano para renascer e mostrar que pode jogar ao nível estratoférico que já mostrou. E para o ano haverá Nadal e Federer?