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Os trintões tomaram de assalto o Open da Austrália (e a culpa é do treino físico)

Roger Federer tem 35 anos, Venus tem 36 e Serena Williams 35. Mas não são os únicos: dos oito semi-finalistas do primeiro torneio do Grand Slam da temporada, apenas dois têm menos de 30 anos. Os tenistas Gastão Elias e Frederico Silva e o técnico Pedro Cordeiro sublinham que a evolução do treino físico explica a cada vez maior longevidade dos tenistas

Lídia Paralta Gomes

Aos 35 anos, Roger Federer está perto de mais uma final de um major

Scott Barbour/Getty

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Há precisamente 20 anos (e quando dizemos precisamente estamos mesmo a falar de 25 de janeiro de 1997), Martina Hingis tornava-se na mais jovem vencedora de um torneio do Grand Slam desde a viragem do século. A suíça era uma adolescente de 16 anos e três meses quando bateu Mary Pierce na final do Open da Austrália. No ano anterior havia ganho Wimbledon em pares, com apenas 15 anos.

Vinte anos passaram e em 2017 o cenário é o seguinte: dos oito semifinalistas do Open da Austrália, quatro do quadro masculino e quatro do feminino, apenas dois têm menos de 30 anos. No ténis, o tempo deixou de ser dos jovens prodígios.

No torneio masculino, a primeira meia-final vai opor os suíços Roger Federer, a passear o seu melhor ténis aos 35 anos, e Stan Wawrinka, de 31. A segunda vaga na final será disputada entre outro renascido na Austrália, Rafael Nadal, de 30 anos, e o único sub-30 do grupo, o búlgaro Grigor Dimitrov, de 25 anos.

Já no torneio feminino, não será uma surpresa ver Serena Williams, de 35 anos, entre as quatro semi-finalistas. Afinal de contas, a mais nova das manas Williams está quase sempre nas decisões. Há duas décadas. Motivo de admiração maior será reparar que Venus, de 36, está de novo nas meias-finais do Open da Austrália, algo que não acontecia desde 2003. E mais incrível ainda é a história de Mirjana Lucic-Baroni, cuja última meia-final de um torneio do Grand Slam data de… 1999, em Wimbledon.

Vítima de violência às mãos de um pai abusador, a croata desapareceu na primeira década do século XXI e depois de lutar contra o stress pós-traumático e problemas financeiros, volta a brilhar aos 34 anos. A ‘outsider’ é Coco Vandeweghe, norte-americana de 25 anos, que vai disputar um lugar na final com a mais velha das irmãs Williams. Já Lucic-Baroni e Serena voltam a encontrar-se… 19 anos depois do último duelo (em 1998, no torneio de Wimbledon).

Pedro Cordeiro, capitão da seleção nacional na Taça Davis de 2005 a 2013, explica que hoje em dia “a maturidade tenistica dos atletas verifica-se mais tarde”, ou seja, grande parte chega ao pico de forma numa fase mais tardia da carreira. E a explicação está essencialmente na evolução do treino físico. “A longevidade dos atletas tem muito a ver com o querer, com a vontade de continuar no circuito, porque muitos deles, com o dinheiro que já ganharam, já se podiam ter aposentado. Mas é essencialmente pelo fator do treino físico, que é um aspeto que se desenvolveu muito nos últimos anos e que proporciona melhores condições físicas para os atletas e, ao mesmo tempo, melhor descanso".

Gastão Elias, número 77 ATP e o 2.º melhor português do ranking, destaca as inovações dos treinos e fisioterapia. "Os atletas prestam cada vez mais atenção a recuperação, prevenção e reforço muscular. Acredito que cada vez mais isso vai ser um fator importante na carreira de qualquer atleta", diz-nos Elias, seguro que vamos ver "cada vez mais veteranos a jogar ao mais alto nível".

Desde 2003 que Venus Williams não chegava às meias-finais do Open da Austrália. Volta agora, aos 36 anos

Desde 2003 que Venus Williams não chegava às meias-finais do Open da Austrália. Volta agora, aos 36 anos

Cameron Spencer/Getty

Aos 21 anos, Frederico Silva é o n.º 4 português e sublinha também a importância do trabalho físico. “Cada vez conseguimos aguentar mais tempo no circuito, mantendo os níveis de competitividade. É visível que de há uns tempos para cá, os jogadores retiram-se cada vez mais tarde e isso tem que ver com o avanço da fisioterapia, dos tratamentos e muito também pela prevenção de lesões”, conta o tenista, que frisa que para jogadores como Rafael Nadal ou Roger Federer, já com muita experiência no circuito, “manterem-se bem fisicamente é quase tão importante quanto ter um bom treinador”.

Veteranos mandam no ranking

As meias-finais do Open da Austrália são apenas um reflexo do top 10 dos rankings mundiais masculino e feminino. Ambos os líderes mundiais, Andy Murray e Angelique Kerber, estão à beira dos 30 anos (têm 29) e as médias de idade estão nos 28,4 nos homens e 26,7 nas mulheres. No ranking masculino, é preciso ir ao número 13 para encontrar o primeiro atleta com 21 anos ou menos, neste caso o australiano Nick Kyrgios. E não é por o nível dos jovens ter baixado, é mesmo porque os mais velhos estão cada vez mais frescos.

“Há jovens que vão aparecendo no top 100, como agora o caso do Alexander Zverev, de 19 anos, mas em muito menor número do que há uns anos. Têm mais dificuldade porque os mais experientes têm melhores condições de treino físico e recuperação. Muitos deles viajam com a própria equipa de fisioterapeutas, o que faz com que se mantenham em excelentes condições físicas até mais tarde”, explica Pedro Cordeiro que, por tudo isto, acredita que “muito dificilmente aparecerá outra Martina Hingis nos próximos anos”.