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Como é possível ganhar um Grand Slam aos 35 anos? Fred Gil explica

Roger Federer conquistou o Open da Austrália batendo Rafa Nadal. São ambos trintões e ainda têm algo para dar à modalidade que os consagrou

Alexandra Simões de Abreu

Michael Dodge/Getty

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Roger Federer nasceu naquele que viria a ser instituído como dia mundial do gato (8 de agosto). E que outra efeméride podia ser mais apropriada para o tenista suíço que, com 35 anos, e após seis meses parado devido a lesão no joelho, venceu o Open da Austrália, provando que tem mais do que uma vida para gastar?

Se são sete como os felinos, a história encarregar-se-á de mostrar, mas para já Federer voltou a reforçar a sua condição do tenista com maior número de Grand Slams conquistados (18), depois de impor uma derrota em cinco sets ( 6-4, 3-6, 6-1, 3-6 e 6-3) ao eterno rival e amigo Rafael Nadal.

O que fez deste Open da Austrália um torneio tão especial, não foi só o reencontro destes dois monstros do ténis mundial, mas sobretudo o facto de ambas as finais, masculina e feminina, terem sido disputadas por atletas que já passaram a barreira dos 30 anos.

As irmãs Williams, Venus de 36 anos e Serena de 35, discutiram a nona final entre ambas, ao fim de 14 anos. E se nas “meias” Venus teve de bater-se com uma compatriota 11 anos mais nova (CoCo Vandeweghe, 25 anos), já Serena defrontou uma atleta, Mirjana Lucic-Baroni, com apenas menos um ano que ela. Nas "meias" masculinas, o cenário repetiu-se. Federer encontrou um compatriota, Stanislas Wawrinka, com mais de 30 anos, enquanto Nadal bateu o búlgaro Grigor Dimitrov, de 25 anos. Acrescente-se que Roger tornou-se no mais velho jogador a conquistar um torneio do Grand Slam na Era Open desde o australiano Ken Rosewall, que tinha 37 anos quando venceu, este mesmo torneio, em 1972. Mais. Federer começou o ano fora do top 10 do ranking mundial pela primeira vez desde 2002 - ocupava até ontem o 17º posto -, sendo o segundo mais velho do top20, apenas atrás de Ivo Karlovic (37 anos). E a última vez que tinha ganho um Grand Slam foi há cinco anos, em Wimbledon. Na Austrália não triunfava desde 2010.

Como se explica então tamanha capacidade de regeneração física e longevidade ao mais alto nível?

Fred Gil, o tenista português de 32 anos que está de volta ao ténis, depois de ter atravessado um período difícil na sua vida que o manteve afastado algum tempo dos courts, não tem dúvidas de que a idade “é um mito”. Ele próprio sente que tem “a mesma força ou até mais do que tinha aos 20 anos”, o que “associado a uma maior experiência”, pode trazer bons resultados.

Mas mais importante “é o maior conhecimento que existe atualmente ao nível do treino, da alimentação, da recuperação, dos suplementos e que permite aos atletas ter maior longevidade”. Fred não tem dúvidas de que hoje “os atletas têm mais cinco a oito anos de vida do que há 10 anos”, devido a essa evolução do conhecimento a todos os níveis, incluindo o psicológico.

“Hoje eu sei que há dietas específicas para ter mais energia e maior resistência, por exemplo”. Fred diz que já não treina tantas horas como antes “em quantidade”. Passou a treinar “com mais qualidade”. “Se se tiver a estrutura familiar e de apoio técnico, e o dinheiro, que o Federer tem, que permita juntar mais tempo de treino a essa qualidade, fica-se em melhor forma”, garante.

Quanto à final propriamente dita, o tenista português confessa que esperava uma vitória de Nadal, mas considera o suíço um justo vencedor porque “procurou mais ganhar” do que o espanhol. “Nadal joga sempre no erro do adversário, é mais fisico e Federer a determinada altura foi para cima dele, foi à procura dos pontos, jogou mais para ganhar, o que para mim faz dele mais campeão. Arriscou mais”, conclui.