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“Isto é história, pá”. Ou porque o Federer não me deixou jogar ténis

Rui Gustavo, editor de Sociedade do Expresso e tenista deplorável, escreve sobre o jogo do século entre dois tipos que toda a gente considerava acabados

Rui Gustavo

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Arranjei o saco de véspera, não pus o despertador porque sabia que não precisava e acordei um bocadinho antes para ter tempo de fazer o café. “Isto é história, pá”, dizia-me o adversário com quem tinha jogo marcado no último domingo e que se preparava para ver, como eu, o regresso da final mais enjoativa dos anos 2000. Nadal – Federer.

Porquê este interesse agora? Só porque nenhum deles ganhava um torneio há mais de dois anos? Porque ambos já passaram dos trinta? E depois? A minha vontade era jogar. Dar pancada na bola e berrar. Vemos estes gajos depois. Mas o meu adversário insistia. “Isto é história, pá”.

Há qualquer coisa nos regressos dos ídolos caídos que entusiasma as pessoas no geral e os adeptos do desporto em particular. Muhamad Ali foi campeão do mundo de boxe depois de um castigo de dois anos por se ter recusado a ir para a guerra; Michael Jordan voltou a ganhar um anel de campeão na NBA depois de uma passagem ridícula pelo basebol; Fernando Chalana quase que conseguiu voltar ao que era depois das lesões e da Anabela em França.

No ténis os “regressos” são mais raros. Lembro-me do Björn Borg, que deixou o ténis aos vinte e poucos anos tentar voltar a jogar quando as raquetas já eram de fibra – e foi patético. O Andre Agassi conseguiu voltar ao topo depois de perder a mulher num divórcio e o cabelo, mas ninguém poderia prever uma final entre dois semi-acabados.

Mas, pronto, agora já ali estavam. O 35º jogo entre ambos, a mesma idade do mais velho, Roger Federer, que não jogava há seis meses e caiu para um impensável 17º lugar do ATP.

Do outro lado da rede, Rafael Nadal, 30 anos, mas ainda mais acabado pelas lesões e pela falta de potência física que é a base do seu jogo. Como é que estes dois chegaram à final? É verdade que beneficiaram dois suicídios de Novak Djokovic (eliminado pelo 117 do mundo) e de Andy Murray (perdeu com o 55, Micha Zverev), mas fizeram grandes jogos e tal como Federer explicaria no fim: “Pudemos finalmente treinar e jogar e não ser só treinar e tratar lesões, treinar e combater o fogo”.

Começa o jogo. Mas é mais um combate. De um lado o homem da classe pura, o Mozart das raquetas, parece que não corre, que faz uma espécie de ballet. Do outro, o touro, força e potência, o John Bonham dos courts. Força e talento. Passa-me a impaciência para ir jogar.

São mesmo um bocadinho mais do que outros. As três horas e meia passam no instante. Costumo estar pelo underdog, mas aqui são os dois os menos favoritos. No público, o cartaz de uma rapariga resume a minha confusão: “Fedal, não consigo decidir”. E lembrei-me outra vez do Agassi que ganhou ao adolescente Federer e predisse: “Está ali o futuro número 1 do mundo”.

Quinto set. Federer perde logo no serviço e vê a derrota a chegar. É ele o underdog, há mais de dez anos que não ganha uma final do Grand Slam , é ele que está mais perto do fim da carreira. Mas não desiste.

Saca daquelas esquerdas fabulosas que quem tenta jogar ténis sabe do que estou a falar. Devolve o break e ganha no serviço do adversário. Embala e ganha. Quase que chora. E eu também. E não fui jogar ténis.

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