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Todos querem Sharapova. Menos os colegas

Suspensão de 15 meses por doping acaba em abril e já chovem convites de torneios. Há quem defenda que a russa já pagou pelo seu erro, mas outros tenistas sublinham que Sharapova deve trabalhar e lutar desde o zero para voltar ao topo e que esse caminho não deve ser feito à base de wildcards. "É como dar um doce a uma criança que se portou mal", diz Jo-Wilfried Tsonga, n.º 1 francês

Lídia Paralta Gomes

Michael Dodge/Getty

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Tic-tac, tic-tac. A cada movimento do relógio fica mais próximo o regresso de Maria Sharapova aos courts. O dia 25 de abril será o dia da liberdade para a tenista russa, que recebeu uma suspensão de 15 meses depois de assumir o uso de meldonium, substância que passou a ser proibida no início de 2016. Logo no dia seguinte, Sharapova competirá no torneio de Estugarda, que ofereceu um wildcard à antiga n.º 1 mundial.

E é exatamente nos wildcards que começam os problemas de Maria Sharapova. Com o inevitável tombo no ranking, entrar nos grandes torneios só será possível através de convite. Convites esses que têm chovido, confiando nas palavras do seu empresário, Max Eisenbud. “Todos os torneios WTA me ligaram para lhe ofereceu um wildcard. Todos”. Até aqui tudo bem. Para Sharapova.

Porque para muitos dos seus colegas nem por isso. No circuito, há quem não concorde que a russa de 29 anos reentre pela porta grande depois de cumprir uma suspensão por doping. Além do torneio de Estugarda, Sharapova já recebeu wildcards para dois dos mais importantes torneios da temporada, Madrid e Roma. Convites para Roland Garros e Wimbledon estão em equação. Afinal de contas estamos provavelmente a falar da tenista mais mediática do Mundo e uma das que mais mais fatura em publicidade - em 2016, apesar de suspensa, amealhou 18,6 milhões de euros só dos patrocinadores.

“Quando uma jogadora é suspensa por doping deve começar do zero e lutar pelo seu regresso ao topo. Porque é diferente de uma lesão, de alguém que está fora porque se aleijou”, atirou Caroline Wozniacki, uma das vozes críticas no circuito feminino. Angelique Kerber, alemã e n.º 2 mundial, censurou a opção do torneio de Estugarda, que é patrocinado pela Porsche, curiosamente ou não, um dos sponsors principais da russa. Para Kerber, chamar Sharapova significa deixar uma tenista alemã de fora dos quatro wildcards: “É um torneio alemão e nós temos tantas jogadoras alemãs de qualidade. Para mim é uma opção estranha”.

Como antiga vencedora de Roland Garros, em 2010, Francesca Schiavone vai esperando que o telefone toque. Aos 36 anos e na última temporada da carreira, a italiana tem visto o seu 157.º lugar no ranking ser um entrave à entrada nos melhores torneios. E com Maria Sharapova a ‘colecionar’ convites, a veterana deixou a sua ‘facadinha’: “Como sabem, há outra pessoa que aceitou wildcards para Madrid, Roma e, provavelmente, Roland Garros. Assim fica muito difícil, até porque eu não tenho o poder da equipa de marketing dela”.

Em março do ano passado, Sharapova convocou uma conferência de imprensa onde admitiu um controlo positivo a meldonium

Em março do ano passado, Sharapova convocou uma conferência de imprensa onde admitiu um controlo positivo a meldonium

ROBYN BECK/Getty

A possibilidade de Maria Sharapova receber um convite para jogar Roland Garros não é vista com bons olhos por muitos tenistas e a própria organização do segundo torneio do Grand Slam do ano está num dilema: por um lado há a questão moral, por outro estamos a falar de Maria Sharapova, uma atleta com mais de 15 milhões de fãs no Facebook e que venceu o torneio em duas ocasiões (2012 e 2014).

Para já, os responsáveis pelo major francês parecem inclinados a não convidarem Sharapova para o quadro principal. “A integridade é um dos nossos pontos mais fortes. Não podemos num dia aumentar os fundos para o combate ao doping e depois convidá-la”, sublinhou o presidente da federação francesa de ténis Bernard Giudicelli, em declarações à AFP. Jo-Wilfried Tsonga, o melhor francês do ranking ATP, diz que dar um wildcard a Sharapova para Roland Garros é como “dar um doce a uma criança que se portou mal”.

Murray contra, Federer nem por isso

Depois de Roland Garros há Wimbledon e Andy Murray, uma das vozes mais ativas do circuito masculino na luta anti-doping, acredita que os organizadores do “seu” torneio vão pensar “muito bem” antes de convidar a Sharapova. Mas a sua opinião parece clara: “Acho que deves trabalhar para regressar. Mas a maior parte dos torneios vai fazer o que acha melhor para o evento. E se eles acham que ter grandes nomes significa vender mais bilhetes, vão fazê-lo”.

Se o líder do ranking mundial torce o nariz, Roger Federer é, como sempre, diplomático. “Ela pagou o preço pelo que fez. É tudo o que se pode dizer sobre isso”, afirmou o suíço em Indian Wells: “Percebo o argumento dos jogadores e de quem fica chateado por causa dos wildcards, mas também dos outros que acham que ela cumpriu o que tinha a cumprir”.

Federer é dos que defende que Sharapova já pagou "o preço pelo que fez"

Federer é dos que defende que Sharapova já pagou "o preço pelo que fez"

Chris Hyde/Getty

No mesmo comprimento de onda de Federer está a mais velha das manas Williams, Venus, que prefere abrir os braços à russa em vez de criticar quem lhe oferece wildcards: “Ela deve ter direito a regressar e a continua a sua carreira. Se as pessoas lhe querem dar convites, acho que é uma decisão dos torneios. Vai ser bom tê-la de regresso à competição”.

Mudança de regras? Talvez

Os regulamentos são claros: enquanto antiga n.º 1 mundial e vencedora de torneios do Grand Slam, Sharapova pode aceitar os wildcards que bem entender. A WTA não concorda com a alteração das regras relativas à atribuição de wildcards, nem que se limite o acesso a jogadores que tenham cumprido sanções após controlos positivos. Contudo, está disposta a ouvir propostas.

“Todas as regras são analisadas e revistas e tenho a certeza que esta é uma delas. Se os membros quiserem que analisemos a regra, assim o faremos”, frisou Steve Simon, CEO da WTA. O responsável do organismo que regula o ténis feminino relembra que Sharapova “cumpriu uma suspensão de 15 meses, não teve qualquer tipo de salário, perdeu o ranking bem como os ganhos do Open da Austrália de 2016”. Ou seja, já foi “penalizada o suficiente pelas suas ações” e “não deve acabar assim com uma carreira cheia de trabalho”.