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Isto de viver do ténis vai mudar para muita gente

A International Tennis Federation anunciou que, a partir de 2019, vai começar a mudar muita coisa na estrutura de competição do ténis. Haverá uma “redução radical” no número de profissionais e será criado uma Transition Tour, que servirá de ponte para o circuito ATP. A ideia é que passem a haver apenas 1.500 tenistas profissionais no mundo - 750 homens e 750 mulheres

Diogo Pombo

Nada mudará para Roger Federer, mas o suíço, com os prémios de jogo, os patrocínios e os contratos de publicidade que tem, vive do ténis como só outros dois ou três jogadores conseguem viver

Matthew Stockman

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Esqueçam, por momentos, a vida de quem vive no cume do do ténis.

Os tipos que vivem na escala do Grand Slam são uma estirpe à parte. Não vale a pena olhar para Federer, Djokovic e Nadal ou até Murray, o escocês que não tem os números do suíço, do sérvio e do espanhol, mas é quem mais frente lhes faz no campo e no dinheiro. Estes quatro, pelo que jogam e correm e suam e mostram de raquete na mão, têm uma vida em que ganham mais vezes do que perdem. Não lhes custa viver do ténis, mas, para quase todos os outros, a vida de tenista tem custos para os quais não há lucros suficientes.

Não é preciso ir descer muito além do/a 30.º ou 40.º melhor tenista do mundo para sabermos que o ténis, como profissão, apenas compensa para quem anda bem lá em cima. As épocas são longas, os torneios estão espalhados pelos cinco continentes, os prémios de jogo são pequenos e há milhares a irem ao mesmo – fazer pela vida no circuito mundial de ténis.

Estamos a falar de uma terra onde a lei é ganhar jogos, avançar nos torneios e amealhar pontos. Que, quantos mais forem, mais provável é que a vida como tenista nos leve a torneios maiores, com jogos melhores, mais exposição e mais dinheiro a receber como prémio.

É a vida que João Sousa leva há muitos anos. Os suficientes para, em dezembro de 2015, resumir ao Expresso que eram entre 150 e 200 mil os euros que gastava por época. Despesas que perdiam para os ganhos que tinha e o faziam sentir como “um beneficiado”, alguém que conseguia “usufruir de uma boa vida, sobretudo comparado com o que se passa em Portugal”.

Basicamente, ele estava, e ainda deve estar, no lado bom do que a gíria dos negócios chama de break-even, o ponto de equilíbrio onde não há perdas ou lucros. Um ponto, lamentou a International Tennis Federation (ITF), a que “muito poucos jogadores estão a chegar”. Esta é apenas uma das bolas que o problema das paredes devolveu no estudo que entidade fez à modalidade.

Há mais, e não são poucas: existem “demasiados jogadores a competirem no circuito profissional”, que são à volta de 14 mil; cerca de metade não recebe quaisquer prémios de jogo pelos torneios em que participam; a idade média dos tenistas está a aumentar; e eles cada vez demoram mais tempo a atingirem “um nível de topo” no ténis.

A ITF não especificou que nível é esse, mas não será o de Federer, Djokovic, Nadal ou Murray, um quarteto que vive num mundo só deles, feito de títulos e lucros suficientes para terem um treinador, um fisioterapeuta e um parceiro de treino atrás durante a época.

A vida destes quatro tem isto, mais o que a vida dá a todos os outros tenistas – despesas com deslocações de avião, com alojamento em hotéis e com refeições. Michael Russell, um razoável tenista americano, que parou de jogar em 2015 e o melhor que conseguiu foi trepar até ao 60.º do ranking, resumiu um pouco do resto à revista Forbes, em 2013: “Se és um tenista, és também um consultor de um pequeno negócio. Trabalhas por conta própria, viajas muito, pagas impostos onde quer que jogues. Tens sempre muitas despesas que tens de pagar, independentemente dos resultados que fizeres em torneios”.

Menos profissionais, mais dinheiro

É um pouco por tudo isto que a ITF quer alterar muitas coisas a partir de 2019 – embora vá mexer apenas no que pode. A entidade, apesar de ser a reguladora do ténis, apenas é diretamente responsável pela organização dos quatro Grand Slams (Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open) e pelos Futures, torneios que estão na base da cadeia alimentar do ténis.

Será criado o ITF Transition Tour, um novo circuito para que tenistas juniores e jovens façam a transição para o circuito mundial ATP (Association of Tennis Professionals, outra entidade, portanto). A ideia é que os várias provas desse circuito se concentrem numa área do planeta mais restrita, de modo a reduzir os custos de deslocação, para os tenistas, e os de organização, para quem toma conta dos torneios.

Os pontos que os jogadores conquistem não reverterão para o circuito ATP, mas para serão acumulados, para que os melhores tenistas ganhem o direito a participarem nos Futures e em outros torneios da ITF.

Anthony Au-Yeung

As medidas pretendem “reduzir radicalmente o número de profissionais a competir por pontos nos rankings ATP e WTA”. A recomendação da ITF é que passem “não mais” do que 750 homens e 750 mulheres profissionais de ténis. “O ano passado, mais de 14 mil jogadores competiram a nível profissional. São, simplesmente, demasiados. São necessárias mudanças radicais para abordar os problemas na transição entre o nível júnior e o profissional, o custo de ser jogador e os custos [da organização] de torneios”, defendeu David Haggerty, presidente da ITF.

Neste momento, existem mais de 2.000 tenistas a competirem tanto no ranking ATP, como no WTA. São muitos homens e muitas mulheres a perseguirem a mesma vida que nem uma mão cheia, em cada lado da rede do género, consegue viver. Neste cume estão o tal suíço, espanhol, sérvio e escocês, mais uma americana chamada Venus Williams que já venceu mais torneios do Grand Slam (21) do que qualquer um deles.

A ideia da ITF não é criar condições para mais Federers, Nadals ou Djokovics. É criar torneios e condições que “garantam que mais jogadores consigam fazer vida do ténis profissional”.

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