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Nunca pensámos escrever isto: Kyrgios, o good boy

Nick Kyrgios é um tenista que tem tanto talento como polémica. O australiano, de 21 anos e 16.º do ranking ATP, já criticou árbitros, refilou com adeptos, desistiu de pontos a meio de jogos e até confessou que não adora ténis e que prefere basquetebol. É capaz de já ter sido assobiado tantas vezes quantas as que foi aplaudido, mas, agora, provou que também tem fair-play - e até quis ver se o momento ia “aparecer nas redes sociais”

Diogo Pombo

Julian Finney

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Esta é mais uma história sobre um rapaz especial. Tem um talento dos grandes. Não lhe podemos chamar precoce, porque está com 21 anos, prestes a serem 22, e até já leva algum tempo a dar-lhe uso. Ele joga ténis e fá-lo bem – é filho de pai grego, mãe malaia, nascido na Austrália e crescido até aos 1,93m de altura. A genética foi amiga e fez dele um tipo alto, com membros grandes e com um corpo invulgarmente ágil e rápido para o tamanho que tem. Aliás, uma genética muito amiga, se considerarmos que ele, em adolescente, era rechonchudo e tinha uma cintura que o denunciava.

Logo aí, é especial.

Ele sempre teve queda para o desporto, mas, por volta dos 14 anos, decidiu, ou decidiram por ele, que a raquete, o court, a rede, os serviços, os lobs e os amortis eram o que casava melhor com os seus genes. Começou no ténis, impressionou no ténis, foi uma espécie de mini-fenómeno no ténis e, hoje, já construiu uma reputação que o persegue no ténis.

O senso comum de quem segue a modalidade diz que Nick Kyrgios é um bad boy.

Há algum tempo que o australiano faz e diz coisas que levam o mundo a olhá-lo como sendo um adulto que faz bullying à criança que tem dentro dele. Kyrgios já disse, numa entrevista, que “não adora ténis”, preferia jogar basquetebol e que, às vezes, tenta afastar-te da internet e dos vídeos da modalidade da tabela e do cesto, para não se distrair.

Kyrgios já refilou com árbitros, criticou adeptos – “Queres vir para aqui jogar? Senta-te e cala-te, e vê o jogo”, disse a um, em 2016, no torneio de Xangai – e foi multado e suspenso por o fazer. Kyrgios até já se aborreceu a jogar e deixou de disputar pontos, oferecendo-os ao adversário com pancadas às quais deu a força de uma avózinha.

Kyrgios já pediu a um árbitro para acabar o jogo, porque queria “ir para casa”. Ele já foi assobiado, criticado, multado, suspenso e até aceitou o conselho da ATP para ir, durante uns tempos, a um psicólogo. A última vez que tínhamos ouvido falar dele foi por causa de Gastão Elias. O português portou-se mal em campo no Masters de Miami e bateu uma bola, irritado, contra a bancada. Foi apupado pelo público e chamado à razão pelo árbitro.

Mas ainda foi criticado por alguém que talvez desconheça o que são telhados feitos de vidro. “Ele tem de ser multado. Não podemos ter este comportamento no circuito”, escreveu Kyrgios, no Twitter, levando com a resposta do português, nos mesmo dia – “Deixa as pessoas que mandam decidirem. Não me parece que sejas a pessoa certa para o fazer”.

Julian Finney

Não o é, mas o australiano provou que tem descaramento.

O mesmo que o fez ser quota-parte do espetátulo que deu, na madrugrada desta sexta-feira, a meias com Alexander Zverev. O australiano e o alemão defrontaram-se nos quartos-de-final do torneio de Miami. Houve momentos em que o jogo mais parecia ser um de exibição – as pancadas bonitas, arriscadas, por debaixo das pernas, arrojadas foram muitas.

Kyrgios e Zverev, que são amigos e são dois jovens que já foram elogiados pelos monstros do circuito a quem se espera que ele sucedam, lutaram até o australiano, ao fim de duas horas e meia, vencer (6-4, 6-7, 6-3) a partida.

Durante esse tempo todo, Kyrgios berrou com ele próprio e teve gestos pouco ortodoxos numa modalidade que vive do cavalheirismo, do pouco barulho e da postura dos jogadores. Até refilou com o árbitro e os juízes de linha, mas, desta vez, fê-lo apenas depois de Zverev bater uma bola para o seu lado do campo que um juiz de linha assinalou como sendo fora. “Call it”, disse o australiano, pedindo ao alemão que contestasse o ponto e pedisse o vídeo-árbitro. A tecnologia provou que a bola caíra dentro do campo e o ponto foi para Zverev.

Ele agradeceu-lhe, o público aplaudiu e, uns segundos volvidos, ouviu-se Kyrgios dizer: “Quero ver isto nas redes sociais”.

Houve risos na bancada, um sorriso do australiano e mais uma amostra de como, dentro de Kyrgios, o talento é vizinho do insólito. Agora vai defrontar Roger Federer nas meias-finais, semanas após desistir do torneio de Indian Wells, pouco antes de defrontar o suíço depois de uma intoxicação alimentar e de uma noite passada em branco.

As últimas impressões deixadas por Kyrgios contra Zverev, porém, foram outras. Ele protestou muito com ele próprio e, ao fechar o encontro, fez cara de chateado e abanou a cabeça para os lados, enquanto se dirigia à rede para dar um abraço ao alemão. Não parecia contente – nem quando, no banco, se baixava para trocar de ténis, mostrar as pequenas tatuagens que tem nos dedos e pulsos, e chegar com o penteado e a barba recortados. É o visual dele que contrasta com toda a norma que o ténis gosta de manter.

Nick Kyrgios é assim. E desta vez foi um good boy.

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