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João Zilhão: "O Kyrgios é um tipo realmente especial, mas tem-se mostrado inexcedível"

A quatro semanas do arranque do Millennium Estoril Open (entre 29 de abril e 7 de maio), o diretor do torneio explica-nos quão difícil é trazer a Portugal jogadores como Del Potro e revela que foi preciso um esforço adicional para assegurar a terceira presença consecutiva de um dos jogadores mais controversos (e ao mesmo tempo mediáticos) da atualidade: o australiano Nick Kyrgios

Lídia Paralta Gomes

João Zilhão, diretor do Estoril Open

Fernando Correia/Millennium Estoril Open

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O elenco do Estoril Open de 2017 é o melhor de sempre, mas ainda há o desejo de trazer mais alguém?
Neste momento, com o quadro que temos, estamos extremamente contentes. Todos os dias vamos ter jogos excecionais. Vamos ter os melhores portugueses, depois num outro dia temos o Kyrgios, depois o Del Potro, o Gasquet, dois ex-campeões. Portanto, há muita variedade de estilos, de nacionalidades, há grandes campeões e também a nova geração. Todos os dias vamos ter três, quatro jogos extraordinários. Mas há pedidos fortes para wild cards: um já foi dado ao Gastão Elias e temos mais dois convites que vão ser escolhidos a dedo. Pode ser para um jogador muito forte.

Para um top 10?
Temos um pedido de um top 10. Obviamente que um top 10 não quererá apenas um wild card, quer sempre mais qualquer coisa. Agora é uma questão de negociação que nós temos de fazer: até onde conseguimos ir, até onde ele está disposto a aceitar.

Imagino que vai estar muito atento ao ATP 500 de Barcelona [torneio que se realiza na semana anterior].
O torneio de Barcelona, e até o de Monte Carlo [duas semanas antes] são muito importantes porque pode haver um jogador de renome que perca cedo e que à última hora possa querer introduzir mais um torneio no calendário, para chegar melhor aos torneios seguintes.

Portanto, era excelente para o Estoril Open que uma estrela perdesse cedo nessas semanas.
Ou este jogador que está em cima da mesa agora, que é um jogador que já está interessado em jogar nessa semana. As negociações estão a acontecer e nós estamos a analisar aquilo que é possível fazer.

Esse jogador será uma novidade, ou seja, é um jogador que nunca jogou no Estoril?
Sim, é uma novidade.

O Nick Kyrgios esteve para não jogar na semana do Estoril Open. O que foi preciso fazer para o convencer a voltar?
É, não estava previsto ele jogar esta semana. Foi preciso voltar à carga com as negociações e melhorar um bocadinho as condições que estavam em cima da mesa e depois adicionar também umas coisinhas que são importantes para ele e que são segredo - o segredo é a alma do negócio. Conseguimos introduzir na nossa proposta algo que o fez reconsiderar, voltar atrás e colocar o Millennium Estoril Open no seu calendário, o que nos deixou muito contentes.

Kyrgios volta ao Estoril pelo terceiro ano consecutivo

Kyrgios volta ao Estoril pelo terceiro ano consecutivo

KAZUHIRO NOGI/GETTY

Portugal que parece ter o condão de tornar o bad boy Kyrgios quase num gentleman, não é?
O Nick tem-se portado sempre muito bem com todos os sponsors, com as crianças e todo o público e não só com as exibições que tem feito no court - chegou a uma final e a uma meia-final. Tem sido inexcedível em tudo aquilo que lhe tem sido pedido e eu tenho tido imenso gosto em conhecê-lo enquanto pessoa. É um tipo realmente especial, mas tem-se mostrado sempre disponível. Do nosso lado, também temos feito um grande esforço para lhe agradar: ele fez anos durante o torneio em 2015 e 2016 e preparámos muitas surpresas para ele. Ainda no ano passado fizemos um bolo especial com motivos de basquetebol, que é uma grande paixão dele, preparámos também um vídeo com todos os familiares e namorada. Ele fica sensibilizado com este tipo de atenções.

E para convencer Juan Martín del Potro? Foi complicado?
A maior dificuldade para trazer o Juan Martín del Potro é termos de negociar com o agente do Federer, o Tony Godsick, que tem uns parâmetros financeiros assim um bocadinho… diferentes. Está habituado a gerir um jogador que vale mais de 1,5 milhões de euros. Foi difícil por essa razão e também porque ele se valorizou imenso no último ano, com aquela final dos Jogos Olímpicos, além de que ganhou a Taça Davis, ganhou torneios e ganhou praticamente a todos os top 10 entre julho e novembro.

Trazer o Del Potro também é trazer uma história de superação e um jogador muito carismático.
Sem dúvida. É um jogador que tem mostrado que é um lutador nato. Como se sabe, ele teve muito problemas de saúde, foi operado ao pulso e esteve fora muito tempo e nós gostamos destas histórias de superação e de alguém que consegue voltar ao seu melhor. O Juan Martín subiu quase 1000 lugares no ranking no ano passado, o que mostra que ele está a voltar ao seu nível. Eu vejo-o a voltar ao top 10 muito rapidamente.

Uma final entre um destes dois nomes e João Sousa era o ideal para o torneio?
É um sonho. Ter o melhor português de todos os tempos, a jogar em Portugal uma final contra uma destas estrelas, não podíamos esperar melhor figurino. Mas não nos podemos esquecer da final do último ano [Nicolás Almagro-Pablo Carreño Busta], que no papel não era a melhor, e que acabou por ser uma das melhores finais que já assistimos, pela qualidade de jogo, pela entrega.

Primeiro ano de arranque, segundo de afirmação. Este terceiro é o ano da consolidação do novo Estoril Open?
Sem dúvida. É um ano de grande consolidação, que mostra a sustentabilidade que este projeto tem. Temos uma família de mais de 90 sponsors, o que reflete que o torneio tem saúde. As grandes marcas nacionais e internacionais estão a apostar no projeto, porque vêem nele uma grande mais-valia. O Estoril Open não é só um torneio de ténis: é um grande evento para as marcas e também um evento social. Não podemos esquecer que há muita gente que vem ao Estoril Open porque gosta de todo o glamour que está associado a um torneio desta dimensão. Portanto, olhando para o cartaz que temos, não só de jogadores como de sponsors, que este é um evento muito consolidado.

Quando há três anos começou esta aventura, pegando na marca Estoril Open, acreditou que por esta altura o projeto já seria forte?
Foi uma aposta ganha. Houve o investimento e o desafio grande de juntar três empresas, a Polaris, a Van Veggel e a U.com, empresa alemã que eu represento, para formar uma. Juntar estas três entidades muito fortes permitiu criar uma fortíssima, chamada 3Love, que deu a tal garantia ao mercado que o projeto ia ter força e sucesso. Temos conseguido comprovar isso. Conseguimos criar um torneio que já é consagrado lá fora.

Como é que a imagem do Estoril Open chega lá fora?
O ATP tem cá uma equipa de vários elementos durante toda a semana, a analisar, a fazer relatórios e tem também cá sponsors. E os jogadores também dão o seu feedback dentro de todo este ramo. Quando o feedback do ATP, dos jogadores e dos sponsors é muito positivo, todo este zumzum faz com que as pessoas olhem para o nosso projeto como um projeto ganhador e de muito sucesso.