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É assim que se entra na galhofa durante um jogo a sério

Este fim de semana foi de Taça Davis e, no sábado, a França venceu três encontros seguidos contra a Inglaterra. A passagem às meias-finais estava garantida, mas ainda havia dois jogos por jogar no domingo. Como não contavam para nada, um deles acabou por ter brincadeira de sobra - e até Yannick Noah, o antigo tenista e hoje capitão francês, pegou na raquete e entrou em campo para fazer um três contra um

Diogo Pombo

Dois jogadores e um capitão de equipa, de raquete na mão, a festejarem um ponto? É estranho e só podia ser a brincar. Mas foi num jogo oficial.

Clive Brunskill

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Tinha-se chegado ao ponto em que não valia a pena disputar mais pontos. No fundo, era isto. Este fim de semana que passou era reservado à Taça Davis, competição de seleções no ténis, a França ganhava à Inglaterra por 3-0 e já só restavam dois jogos por fazer. Os gauleses estavam apurados para as meias-finais. Portanto, eles e os ingleses tinham de fazer o frete de, no domingo, competir, literalmente, para nada.

É nestas alturas que o prestígio, a honra, o orgulho e coisas como estas entram em jogo, para puxar por quem, na prática, nada tem a ganhar.

No primeiro jogo de domingo, Daniel Evans jogou contra Julien Benneteau. O inglês que tem um jogo de rede, de esquerdas em slice e de amortis e que odeia terra batida (não jogava neste piso desde maio de 2014), estava a defender as tais coisas contra o francês lento, apático e a mexer-se como quem tinha acabado de acordar de uma noite de farra.

Benneteau perdia pontos rápidos, acumulava erros não forçados e foi ultrapassado no primeiro set, por 6-1, em pouco mais de 20 minutos.

Escrever que a partida estava desequilibrada seria um eufemismo.

Bem no início do segundo set, como as coisas até pioraram, Yannick Noah decidiu intervir. Ele é o capitão de equipa francesa e um tipo excêntrico - um ex-vencedor de Roland Garros nos seus tempos de jogador (1983), tornado cantor, de sorriso e brincadeira fácil. Às tantas, tirou uma raquete do saco de Benneteau e passou-a a Nicolas Mahut, seu companheiro de pares, que estava no banco.

E lá foi ele, de fato de treino, juntar-se a Benneteau e fazer um dois contra um, para equilibrar as coisas. Toda a gente - Noah, os franceses, os ingleses, Benneteau, Evans, o público e até a juíza de cadeira, riram-se com a brincadeira. E deixaram-se ir.

Os três disputaram uns quantos pontos, mas nem assim os gauleses levaram a melhor a Evans. Por isso, Yannick Noah pegou em outra raquete e os números desequilibraram-se o suficiente para os franceses, por fim, ganharem um ponto a Daniel Evans. Celebraram-no como se fosse o match point da vida deles.

A cena durou mais de cinco minutos. Os pontos não contaram e a juíza de cadeira deixou a brincadeira prosseguir. Danie Evans, às tantas e para equilibrar as coisas, tentou passar a raquete a Jamie MacDonald, um inglês que estava na bancada, responsável por organizar as viagens de grupos de adeptos ingleses, em jogos da Taça Davis. Mas um árbitro achou que isso já seria abusar e não o permitiu. “Deviam tê-lo deixado, não é como se tivesse escolhido alguém ao acaso”, criticou Evans, citado pelo Daily Telegraph, no final, já depois de as coisas retomarem a sua ordem natural e de vencer, por 6-2, o segundo set.

Antes e depois de tudo parecer mais um jogo de exibição, o ambiente já estava animado e descontraído.

As pessoas que lotavam o recinto juntaram-se em algumas claques e iam entoando cânticos, mais próprios do futebol e não do ténis; quandos os jogadores se preparavam para servir, ouviu-se, muitas vezes, alguém a dizer algo e a provocar risos (nessas alturas, é regra haver silêncio); num ponto mais longo, Benneteau começou a “gemer” a cada pancada e, aos poucos, o público foi replicando o som a cada bola batida pelos tenistas.

Toda a gente parecia estar a gostar, até Leon Smith, o capitão inglês que se ia rindo, sentado no banco, e defendeu que este tipo de abordagem, quando já nada resta por decidir, ajuda toda a gente. “Haverá sempre uma tonelada de situações em que isto não será divertido para ninguém. Mas acho que eles [Federação Internacional de Ténis] estão a analisar váras ideias. Talvez possas chamar um jogador junior, ou sub-21, para jogar, quando o encontro já não contar. Penso que é uma boa decisão”, explicou, no final.

Ou isso, ou poder-se-á sempre manter estes momentos de galhofa.