Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Nastase passou todas as marcas e deixou de ser bem-vindo em Wimbledon

Organização do torneio do Grand Slam londrino anunciou esta quarta-feira que o antigo tenista romeno é persona non grata na exclusiva Royal Box do All-England Club, onde era a cada ano uma das presenças mais coloridas. Os comentários racistas e sexistas que proferiu contra Serena Williams e a capitã da seleção britânica da Fed Cup deixaram o mundo do ténis estupefacto, em mais um capítulo na longa lista de polémicas made in Ilie Nastase

Lídia Paralta Gomes

Nastase a mostrar o seu uniforme militar na royal box do All England Clube este ano? Não vai acontecer

LEON NEAL/Getty

Partilhar

Wimbledon, 1977. Bjorn Borg, que dias depois se tornaria campeão do torneio, jogava os quartos-de-final frente a Ilie Nastase. O bad boy romeno estava num daqueles dias. E quando o árbitro Jeremy Shales a ele se dirigiu com um prosaico “Nastase” enquanto lhe pedia para se mover para o lado correto do court, Nastase não esteve com meias medidas: “A mim tratas-me por Mr. Nastase”.

O episódio marcou um antes e um depois no ténis. É verdade. A partir dali, o código de conduta dos árbitros mudou e ainda hoje os juízes são obrigados a usar ‘Mister’ ou ‘Miss’ cada vez que se dirigem diretamente a um jogador.

Tal formalidade nem parece coisa vinda da cabeça de Nastase, que na manhã desta quarta-feira viu ser-lhe negada a entrada na Royal Box do All-England Club, a bancada mais exclusiva do torneio de Wimbledon, reservada às famílias reais, membros do governo, das forças armadas, parceiros comerciais e, claro está, antigas estrelas do ténis.

Tudo por causa dos acontecimentos das últimas semanas, que colocaram o antigo tenista romeno de 70 anos numa espécie de vórtex de enxovalho público, depois de uma série de declarações e ações que pouco têm que ver com o mais protocolar dos quatro torneios do Grand Slam - ou com a convivência entre humanos, na verdade.

Há duas semanas, a eliminatória da Fed Cup entre Roménia (seleção da qual Nastase é capitão) e Grã-Bretanha começou mal e nunca se endireitou. No jantar oficial, Nastase perguntou a Anne Keothavong qual era o número do seu quarto, questão que repetiu durante o sorteio no dia seguinte. Horas depois, em plena conferência de imprensa e enquanto se falava da gravidez de Serena Williams, Nastase saiu-se com o seguinte comentário: “Vamos lá ver a cor do bebé. Chocolate com leite?”.

Nastase não se ficou por aí. Ainda se envolveria em acesas discussões com a imprensa britânica e, pièce de résistance, acabou expulso do court em pleno jogo entre Johanna Konta e Simona Halep, depois de insultar a tenista britânica e a sua capitã em termos que não podemos aqui replicar, por uma questão de decência.

Nastase com a capitã britânica Anne Keothavong

Nastase com a capitã britânica Anne Keothavong

Getty Images

Nada disto cabe no código da federação internacional de ténis (ITF), que suspendeu Nastase, e muito menos em Wimbledon, torneio em que há regras para os equipamentos dos jogadores (têm de ser completamente brancos, noblesse oblige), aplausos só com muita moderação e onde até 2003 os jogadores eram obrigados a fazer uma vénia à Royal Box, a mesma que está barrada a Nastase, que em anos anteriores ali se costumava apresentar com a sua excêntrica farda militar - Nastase é general do exército romeno.

Por agora, não haverá mais passagem de modelos para Nastase, o bon vivant Nastase, homem de muitos amores e ainda mais polémicas. Até porque não é só a Royal Box que o ex-tenista está impedido de visitar: a sanção da ITF não lhe permite sequer entrar nas instalações de Wimbledon.

Uma vida de controvérsias de “Nasty”

Nascido em Bucareste há 70 anos, Nastase é um dos cinco jogadores da história com mais de 100 torneios ATP no currículo (entre títulos de singulares e de pares) e, indiscutivelmente, um dos seres humanos mais talentosos a alguma vez pegar numa raquete de ténis. Mas não há Dr. Jekyll sem Mr. Hyde e a um virtuosismo capaz de levantar estádios Nastase juntava uma personalidade irascível e uma certa vontade de instalar o caos por onde passava, “qualidades” que, percebemos agora, se mantém intactas - por alguma razão, há quem continue a tratá-lo por “Nasty”.

Insultos aos adversários e para as bancadas eram o pão nosso de cada dia. Provocações, idem. Ao ponto de levar os rivais ao desespero. Se fosse vivo, Arthur Ashe poderia contar a história do dia em que foi desqualificado do torneio de Estocolmo, em 1975, depois de se fartar da atitude de Nastase, que deliberadamente demorava uma eternidade entre cada ponto, apenas por divertimento. Nastase seria também desqualificado da partida, naquela que ficaria para a história como a primeira desqualificação dupla do ténis moderno.

Apesar de irritar os colegas de profissão com as suas brincadeiras, que envolviam até longas sessões de mímica, Nastase era um símbolo de carisma e charme para os adeptos e não foi por acaso que em 1972 se tornou no primeiro atleta profissional a assinar um contrato de patrocínio com a Adidas. Fora dos courts, era um autêntico Casanova. Na sua biografia pode ler-se que dormiu com mais de 2500 mulheres. Nastase é mais modesto e garante que o autor da obra se entusiasmou: na verdade foram só 900.

Facto é que o estilo apalhaçado que foi cultivando mesmo depois de pendurar as raquetes escondia um lado negro que não teve o seu primeiro episódio há duas semanas: os comentários racistas e sexistas contra Serena Williams e a seleção britânica foram apenas mais um capítulo da sumarenta lista de controvérsias made in Nastase e ajudaram a que mais casos viessem a público.

A antiga tenista Pam Shriver, por exemplo, confessou que durante anos e anos Nastase a provocava, perguntando-lhe repetidamente e de forma trocista se ainda era virgem. Já em declarações ao “The Daily Telegraph”, a antiga tenista belga Dominique Monami, atual capitã da seleção do seu país, acusou o romeno de a insultar também durante um jogo da edição deste ano da Fed Cup: “Ele não tem qualquer respeito pelas mulheres e é cheio de si”.

Ion Tiriac, ídolo e mentor de Nastase, disse um dia sobre o pupilo: “Ele não tem um cérebro, tem um pássaro a voar à volta da cabeça”. Um pássaro que deixou de ser bem-vindo nos maiores palcos do ténis.

Partilhar