Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

O que se passa com Novak Djokovic?

Esta segunda-feira cantam-se os 30º parabéns a você a Novak Djokovic. No dia anterior, contudo, o sérvio anunciou que Andre Agassi vai treiná-lo durante o torneio de Roland Garros, que arranca já no próximo fim de semana. Mas algo se passa com Djokovic - ele só venceu um dos últimos 10 torneios que jogou; despediu, no início do mês, três técnicos que o acompanhavam há mais de uma década; e diz que o ténis já não é a prioridade na sua vida

Diogo Pombo

Clive Brunskill

Partilhar

Andre está na sala, aborrecido. O sofá ampara-lhe o corpo, pesado pelo tédio, farto de olhar para as paredes. Tem um amigo em casa, a influência que se lembra que a companhia que dão um ao outro podia ser acompanhada de algo mais. Vai ao bolso, tira um pouco de metanfetamina, pergunta-lhe se quer recrear-se também.

Andre demora a responder, a cabeça matuta. O amigo estende o pó sobre a mesa, cheira-o, droga-se, infeta o corpo. Andre vê-o a cheira, a drogar-se e a ser infetado e pensa: “Sabes que mais? Sim. Vamos ficar pedrados”.

Ele cai no poço da tristeza e do que-diabos-estou-eu-a-fazer, sensações que o engolem nos segundos que a droga demora a invadi-lo. É aí que o arrependimento e a tristeza trocam com “uma onda gigante de euforia que varre qualquer pensamento negativo” da cabeça.

Levado por essa maré, Andre nunca se sentira “tão vivo, tão esperançoso e com tanta energia”. A adrenalina a tomar conta do corpo deu-lhe para embarcar num frenesim de limpeza. Limpou a casa toda com a missão de a deixar imaculada até ao último miligrama de pó.

A droga libertara-o do stress, da preocupação com uma recente quebra de forma e da ansiedade com o iminente casamento com uma atriz. Andre arrependeu-se, muito, e a história interessa por ter acontecido com Andre Agassi e por ter sido o próprio a contá-la na sua autobiografia. Porque ele é o americano que ganhou oito torneios do Grand Slam em ténis e passou 101 semanas a liderar o ranking mundial, no seu tempo, que durou até 2006.

E, sobretudo, por Agassi ser alguém que “passou por tudo” o que Novak Djokovic está a passar.

Julian Finney

A chave não está no episódio da metanfetamina e da droga e do fundo no qual o antigo tenista bateu, nesse momento. Mas poderá estar no facto de Agassi ter odiado o ténis durante grande parte do tempo em que o jogou - e deixado a cabeça trabalhar ao ponto de se desmotivar e encarar o desporto que o catapultou para a vida como um peso e uma obrigação.

No fundo, ele passou pelo que o sérvio parece estar a passar, embora ninguém saiba bem do que se trata. As suspeitas apontam para que seja esse caso.

No domingo, pouco depois de perder a final do Masters 1000 de Roma (6-3, 6-4) e, no pó de tijolo, não ter aderência para suster os ataques de Alexander Zverev, o sérvio anunciou que o ex-tenista americano vai ajudá-lo durante o torneio de Roland Garros. Mas sem quaisquer planos para que a relação seja muito duradoura. “Falei com o Andre nas últimas duas semanas e decidimos juntar-nos em Paris. Não temos um compromisso para o longo prazo, é para nos conhecermos melhor. Ele não ficará para o torneio todo. Vai ficar um certo tempo e depois veremos o que acontece”, explicou Djokovic, atual número dois do ranking.

Este acrescento à equipa que o segue parece normal. Nos últimos tempos, vários tenistas de topo têm-se virado para antigos tenistas que também por lá andaram para os treinarem: Rafael Nadal está com Carlos Moyà e Andy Murray com Ivan Lendl, por exemplo. Mas não é.

Porque algo se está a passar com Novak.

OSCAR DEL POZO

Há quase um ano, o sérvio ganhou em Roland Garros e tornou-se no quarto humano a deter os quatro Grand Slams de uma vez. Ele era um sobre-humano quase incansável, vendedor caro de cada ponto que disputava num court, com um físico que tocava e esticava os limites mais do que toda a gente.

Acumulava centenas de semanas à frente do ranking, era o mais nato dos competidores em todas as superfícies e um senhor de palavras simpáticas nas muito raras vezes em que alguém lhe ganhava um jogo.

Nole, como é alcunhado, era o Nole que nos habituámos a ver.

A partir daí parece que a vida lhe começou lentamente a sair do ténis. Foi eliminado à terceira ronda de Wimbledon, perdeu a final do US Open e, já este ano, saiu do Open da Austrália na segunda ronda.

Pelo meio, Andy Murray roubar-lhe-ia a liderança do ranking. Djokovic apenas venceu um dos últimos 10 torneios nos quais participou (em Doha, no Qatar) e parece já não ser o mesmo. Em parte, porque o ténis parece já não significar o mesmo para ele.

No início deste mês, Djokovic, do nada, revelou que ia deixar de trabalhar com Mariam Vajda, Gebhad Phil Gritsch e Miljan Amanovic. Respetivamente o treinador, preparador físico e fisioterapeuta que o acompanhavam há mais de 10 anos, desde que conquistara o primeiro título ATP, na Holanda. “Acho que é a hora de experimentar algo novo. Não foi uma decisão fácil, mas achámos que todos precisávamos de um novo rumo”, argumentou, na altura.

No final do 2016, Boris Becker, ex-tenista alemão que o acompanhou durante três anos, também se separou do sérvio. Na altura, o grande e loiro germânico deixou escapar que a vontade do sérvio para o ténis já não era a mesma.

TIZIANA FABI

A meio caminho entre o divórcio com Becker e o entroncamento com os treinadores em que Novak optou, sozinho, por uma saída, o sérvio confirmou isso mesmo. Com o seu quê de existencialista, tentou explicar que não pode “dividir o eu como tenista profissional” do “eu como pai, marido, filho, irmão e amigo”.

Djokovic confessou que voltar a ser número um é um objetivo, mas “deixou de ser uma prioridade” na vida que já não vive em forma de raquete. “O ténis deixou de ser a minha prioridade número um no momento em que nasceu o meu filho Stefan. Desde então, tudo mudou”, admitiu.

O mais júnior dos Djokovic chegou a este mundo em outubro de 2014. O que explicará parte do problema, já que a forma do sérvio começou a cair a pique apenas na segunda metade de 2016. A outra parte, portanto, pode estar na barriga da mulher, porque o segundo filho está a caminho e Novak já não quererá viver para o ténis como vivia.

Ele, melhor que ninguém, sabe que está no desporto que consome a vida e a espreme como uma laranja a quem mais sucesso tenha nele. Ser bom, ganhar mais do que se perde e devorar títulos equivale a ter mais de 30 semanas num ano ocupadas. A relação entre jogos ganhos e tempo livre será sempre desproporcional.

Mais do que conciliar a vida pessoal com a profissional, Novak Djokovic parece não estar a deixar que o tenista seja maior que o pai, o marido e homem de família.

Mike Ehrmann

É aqui que voltamos a Andre Agassi e ao que ele passou, que Djokovic reconheceu como parecido ao que o sérvio está a passar.

Nada tem a ver com drogas ou o tal episódio. Mas sim com o tempo em que o americano, tão embrulhado nos títulos, nas vitórias, nos torneios e no ténis se deixou consumir. E, algures pelo caminho, perdeu o encanto que tinha pelo desporto. “A tragédia do meu declínio aconteceu durante o meu sucesso - senti que desliguei do jogo. Apesar de ser bom, fiquei com um profundo ressentimento com o ténis, e até com um ódio. Esse desligar após ser número um foi ainda pior, porque acreditas que o vazio será preenchido por seres o melhor. Mas não senti nada”, revelou, na sua autobiografia, publicada em 2009.

Chegou a um ponto, em suma, em que o ténis deixou de lhe dizer o que fosse. Desde que deixou as raquetes, em 2006, Agassi tem estado pacato, longe da modalidade e dedicado ao lar de Las Vegas, aos filhos e à mulher, Steffi Graf, a alemã que acabou a carreira com 22 títulos do Grand Slam.

Em março, numa entrevista ao The Guardian, quando foi questionado sobre o aparente declínio de Djokovic, o americano respondeu assim: “Tem de ser devido a algo emocional, mental, atrás da cortina que apenas ele e a sua equipa conhecem. Mas ele é bom demais para não arranjar uma solução”.

Pelo menos em Roland Garros, que arranca já no próximo fim de semana, Andre Agassi vai descobrir o que esconde essa cortina.