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Entre dois que baixaram o nível, ganhou quem sempre terá mais nível

João Sousa perdeu na segunda ronda de Roland Garros contra Novak Djokovic, vencedor de 12 torneios do Grand Slam que tem atravessado umas semanas difíceis, tal e qual o português. O número dois do ranking ganhou em três sets (6-1, 6-4 e 6-3), mas ainda atirou a raquete ao chão, literalmente, por culpa de quem estava do outro lado da rede

Diogo Pombo

Julian Finney

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João tinha noção de como ele, e o outro, chegavam ali.

O português do boné para trás e olho azul, pele bronzeada pelas horas de treino queimadas ao sol, vinha de uma má série de semanas. Os últimos seis jogos, perdera-os e antes de ali chegar não ganhava um jogo desde o início de abril, quando estava entre os ricos e a ostentação e o ténis ao lado do mar do Masters de Monte Carlo. Voltara a ganhar dois dias antes, ali, em Roland Garros, a terra das terras onde se joga em terra batida.

A moral da história recente de João Sousa era a de um tenista que foi, e é, o melhor de sempre do país de onde vem. O vimaranense que foi miúdo para fora e se fez graúdo em Barcelona, e que chegou a um nível do qual tem vindo a cair. A baixar dos degraus entre os 30 ou 40 melhores do mundo para, agora, estar entre a classe dos 60.

Mas lá conseguiu vencer na primeira ronda de Roland Garros. Sorriu, colheu uma pitada de confiança, foi melhor que alguém num dos melhores torneios que há. Jogar e vencer num Grand Slam faz maravilhas. Só que a vitória marcou-lhe encontro, na segunda ronda, com alguém que, mesmo aparentando sintomas da mesma síndrome, terá sempre mais nível que o português.

Julian Finney

O jogo era contra Novak Djokovic. O esguio, alto, de músculos definidos no corpo feito para ténis e sem espaço para gordura. O sorriso fácil dos 12 torneios do Grand Slam conquistados que, à espera de ser pai pela segunda vez, deixou de ter o ténis como prioridade, despediu os treinadores que o acompanhavam há dez anos, e está a tentar a sorte com Andre Agassi, uma lenda para quem treinar era coisa de fugir.

Se havia altura em que João Sousa podia nivelar um duelo que nasceu, e morrerá, desnivelado, era agora. Djokovic vencera apenas um dos últimos dez torneios, uma realidade que, para ele, parece mentira – mas demorou apenas 32 minutos a manter o português no seu sítio, com um 6-1, no primeiro set. João falhava pancadas de direita, de esquerda, via-se à rasca para responder a serviços, fosse o primeiro ou o segundo que o sérvio batesse. Mais desigual era difícil.

A tareia no court e no marcador mexeu com o português. Entrou-lhe na mente. Ele não era aquilo, um jogador errático e de erros não forçados, a não conseguir esticar os pontos contra quem está habituado a jogar contra tenistas que o fazem. João Sousa pareceu ficar picado - e começou a jogar melhor. O segundo set foi até aos 44 minutos e a um 6-4 desfavorável ao português, mas com trocas de bola mais longas, mais winners de João Sousa, maior competitividade no jogo.

Tornou-o mais renhido. Causou dificuldades a Djokovic, o monstro que come títulos com uma raquete. Uma perda que, em momentos como estes, em que o adversário dá luta, o obriga a mexer-se e a defender de pontos de quebra de serviço, o faz tremer como não tremia.

Julian Finney

O sérvio atira a raquete contra o chão com um 4-4 no terceiro set. Vocifera coisas na língua dele. Estava descontente com o facto de já estar a suar e de ter de limpar o suor da testa. João Sousa estica mais as pancadas, atira as bolas para mais perto das linhas, quer testar se Djokovic ainda é uma espécie de robô que tem sensores que o fazem chegar a qualquer bola, por mais puxada que seja. E mesmo que não a devolva como quer.

Ele é mesmo assim.

Mas comete mais erros não forçados, devolve bolas sem genica, até comete duplas faltas, de vez em quando. A mente do sérvio já não é de ferro e não o segura tanto nos momentos em que os jogos o chocalham e querem desequilibrar.

Hoje, contudo, quem o tentava abanar era João Sousa, tenista a quem ganhou por três sets (o último, por 6-3), embora o tenha obrigado a estar em court durante pouco mais de duas horas. O nível do português nasceu e vai morrer como inferior ao do sérvio, um tipo que ficará na história do ténis, independentemente do que a vida depois dos 30 - celebrados na semana passada - lhe venha a dar.

Porque o nível de João Sousa, que não vive os seus melhores dias, não chega ao que Djokovic. E o ténis é um jogo de desníveis.