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Carlos Ramos: o árbitro português com quem Nadal e Djokovic andam a discutir

Carlos Ramos, juiz de cadeira português, de 46 anos, está a arbitrar em Roland Garros e advertiu dois dos maiores candidatos à vitória no torneio - que não gostaram. Rafael Nadal disse que “é o árbitro que tem maior fixação” por ele e garantiu-lhe que não o volta a apitar. E Novak Djokovic perguntou-lhe o que tinha na cabeça e o porquê de estar “com aquela atitude”

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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Bate com a raquete em cada um dos ténis, caso esteja a pisar terra batida. Puxa os calções um pouco para baixo. Com a mesma mão, a direita, prende o cabelo atrás da orelha, limpa o suor do nariz e vai prender o cabelo atrás da outra orelha. Depois, repete a sequência, de frente para trás. De vez em quando, pode acrescentar o puxar a t-shirt para cima, junto aos ombros. Cada um tem as suas manias e, em 99% das vezes, são estas que Rafael Nadal tem antes de bater um serviço, no ténis.

Estas coisas, que podem ser tiques, superstições, hábitos ou algo parecido com um transtorno obsessivo-compulsivo, demoram o seu tempo a acontecerem. E, por culpa delas, o espanhol sempre foi um dos tenistas que mais tempo gasta entre pontos, quando tem um jogo de serviço - o normal é demorar qualquer coisa entre os 20 e os 40 segundos. Um tempo que “não é fixe”, como, há uns anos, Roger Federer chegou a opinar, após uma final em Wimbledon.

Desde há muito mais tempo, contudo, que a ATP estabeleceu como regra que, em Grand Slams, os tenistas não podem demorar mais do que 20 segundos entre cada ponto. Mas, este ano, a entidade parece querer forçar esse limite ao máximo, tendo instruído os árbitros a respeitarem este tempo e a fazerem com que os tenistas o respeitem.

Assim chegamos a Carlos Ramos.

Ele é português, tem 46 anos, é juiz de cadeira, que é como se chamam os árbitros principais no ténis, e já esteve nas finais dos quatros Grand Slams. Até arbitrou a final do torneio de ténis dos Jogos Olímpicos, em Londres, em 2012. Mais experiente do que Carlos Ramos é difícil. E, no domingo, quando Rafael Nadal ia a meio do seu atropelamento (6-0, 6-1, 6-0) a Nikoloz Basilashvili e se preparava para mais um serviço, o português pronunciou esta palavra - “Warning”.

CHRISTOPHE SIMON

O espanhol não gostou do aviso e, ao sentar-se ao lado da cadeira do árbitro, quis demonstrá-lo. “Contigo não se pode ir buscar a toalha. Com os outros sim, mas contigo não. Terminei um ponto longo, fiz um volley [logo, junto à rede], peço a toalha e dás-me um warning. Então, faço o quê? Vou a correr?”, perguntou Nadal a Carlos Ramos, falando em espanhol. E prosseguiu: “Vais ter que me dar muitos mais warnings durante o jogo. Apita-os, porque não me vais arbitrar mais”.

O árbitro dá um warning e, a partir daí, um tenista começa a perder pontos por cada advertência que vá acumulando. Pode recebê-las caso demore demasiado tempo entre os pontos, como Rafael Nadal. Ou, por exemplo, quando abusa do tempo e, por cima disso, ainda responde ao árbitro com o lado mau da língua, como aconteceu com Novak Djokovic.

E com Carlos Ramos.

Na sexta-feira, a meio do quarto dos cinco sets (5-7, 6-3, 3-6, 6-1 e 6-1) que precisou para ganhar ao argentino Diego Schwartzman, o sérvio não gostou de uma decisão de um árbitro de linha - aprovada, claro, pelo juiz de cadeira português. Findo o ponto, que até lhe foi favorável, Djokovic vociferou algo em sérvio e fez um gesto de quem ameaça bater a bola na direção do árbitro.

Segundos depois, quando já se estava a preparar para servir, abanando a cabeça e continuando a desaprovar em silêncio, Carlos Ramos falou para o microfone - “Warning por conduta anti-desportiva para o senhor Djokovic”.

O número dois do ranking, dono e senhor de 12 títulos do Grand Slam, perdeu a cabeça e demorou a encontrá-la. Foi o tempo de se aproximar da cadeira de Carlos Ramos e de não ser nada simpático a interpelá-lo, em inglês, sobre a advertência. “O que se passa contigo? O que disse? Entendes sérvio ou quê? Porque me deste um warning?”, perguntou o sérvio, de olhos esbugalhados e com a cara coberta de espanto.

O português, nos intervalos das perguntas, dizia-lhe que o problema não estava no que disse, mas no que fez. “Bati a bola na tua direção? Bati? Então porque me deste um warning? Mas qual atitude, man?”, respondeu Djokovic, antes de virar as costas e retomar o jogo.

Por momentos, Novak foi o que era antes de ser o tenista dominador, incansável, o robô perfeito que parecia não ter travão na missão de conquistar Grand Slams - no início de carreira, há muitos, muitos anos, o sérvio era conhecido por ser refilão, mal comportado e discutir as decisões dos árbitros. Djokovic tinha deixado de ser assim. Nadal continua a ter as suas manias.

E, no meio deles, desta vez, esteve Carlos Ramos.