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Ele não carregou troncos nem foi correr para o meio da floresta. Mas acabou de vulgarizar Djokovic

Ele garante que nunca pensa no ranking, já ganhou torneios nas três superfícies e acabou de eliminar Novak Djokovic nos quartos-de-final de Roland Garros - em três sets e com o último set em branco para o sérvio. Caso não estivesse atento, diga olá a Dominic Thiem, um dos novos guardiões da esquerda a uma mão

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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Vou contar uma mentira.

Sepp Resnik, um austríaco, vivido para lá dos 60, um dia recebeu um telefonema de Gunter Bresnik. Ele falou-lhe de um tenista que estava a treinar, um miúdo carregado de talento no corpo, decidido, empenhado e forte, mas não o suficiente. Como Resnik era conhecido no país como um maluco dos bons, que vão a tudo o que é Ironman, ultra maratonas e façanhas para as quais o corpo humano não foi feito, o treinador pediu-lhe ajuda. Resnik gostou da ideia, mas tinha que ver o tal miúdo a mexer-se primeiro.

Viu-o a jogar ténis e, dez minutos volvidos, partilhou o veredito com o treinador - ele é bom, tem muita força da cintura para cima e faz o que quer com essa metade do corpo; o problema é para baixo. Falta-lhe força e explosão.

A análise parecia bater certo, porque Dominic Thiem, um puto que, na altura, ainda oxigenava o cabelo e o mantinha curto, na moda, ia-se abaixo durante muitos jogos e não fazia o físico acompanhar a técnica na raquete. Sepp Resnik, portanto, começou a treiná-lo.

Durante uns tempos, impôs-lhe coisas como acordar de madrugada para fazer abdominais ou flexões; despertava-o às duas da manhã para, juntos, correrem 15 quilómetros pelo meio de um bosque, não muito longe de Viena; obrigava-o a carregar troncos de 25 quilos às costas e não o deixava desistir.

A história que Sepp Resnik contou, numa entrevista, baseava-se nisto: “Fazia-o correr por um trilho durante duas horas, e a cada 5 minutos punha-lhe um tronco de 25 quilos nos ombros, e alternávamos entre nós. Também o obrigava a fazer agachamentos durante 45 minutos. Quando ele gritava ‘não aguento mais’, dizia-lhe para não voltar a repetir o que disse. Se eu com 60 anos consigo fazer, tu com 20 devias conseguir o triplo”.

As corridas, os agachamentos, os troncos, a floresta e os quilómetros corridos calharam bem, já que Dominic Thiem, esta quarta-feira, correu com Novak Djokovic de Roland Garros em três sets. Até fechou o jogo com um 6-0 limpo frente ao sérvio que, mesmo sendo um fantasma dele próprio, não deixa de ser o campeão dos campeões dos últimos dois anos - e o campeão em título no paraíso da terra batida.

E esta história toda seria bonita e inspiradora, por estar vestida com a beleza dos sacrifícios que há por trás de qualquer desportista vitorioso.

Mas é mentira. E Dominic Thiem está farto dela.

As sessões de treino hercúleas que Sepp Resnik descreveu à Fleisch, uma revista austríaca, não existiram, esclareceu o tenista, já por várias vezes. “Não é verdade. Alguns jornais inventaram-no e agora perguntam-me por isso quase todas as semanas. Sim, estou um bocado cansado disso”, desabafou, há semanas, após ser eliminado por Djokovic do Masters de Roma.

ERIC FEFERBERG

A verdade é que Dominic Thiem tem 22 anos, já venceu torneios nas três superfícies e, pelo segundo ano consecutivo, está nas meias-finais de Roland Garros. Foi a primeira vitória do austríaco contra um top-10 num torneio do Grand Slam, e logo no seu preferido. E o futuro nunca pareceu ser tão risonho.

Educado por pais tenistas, Thiem nem teve de pedir para entrar num court. O jeito era-lhe quase inato e, ainda em criança, começou a ser treinador por Gunter Bresnik, que já treinara tipos como Boris Becker ou Patrick McEnroe, irmão mais novo de John. O gosto que nutrem um pelo outro é mais do que mútuo e só o poderia ser quando o treinador convence o tenista a mudar a forma como bate a pancada de esquerda.

De duas mãos, Dominic passou a uma e, hoje, isso dá-lhe frutos. Tem mais alcance, chega a mais bolas, o ângulo de pancada é mais largo e, claro, é mais bonito de se ver. “Foi difícil durante os primeiros anos, agora acho que foi uma boa decisão. A minha esquerda a duas mãos não era boa e, no ténis moderno, há, sobretudo, esquerdas a duas mãos. Isso é uma vantagem para nós, porque temos maior variedade e menor esforço”, explicou, convicto quando defendeu ao La Vanguardia que “se alegra por cada vez mais jovens se atreverem a bater a esquerda a uma mão, porque é a pancada mais bonita do ténis”.

Foi com uma esquerda paralela, forte, precisa e quase mecânica, que levou o último ponto do encontro frente a Novak Djokovic. No final, o sérvio, que esperava o austríaco junto à rede para um aperto de mão, encolheu o lábio, elevou o queixo e fez aquele ar de aprovação. De quem estava surpreendido com o quão bom tinha sido a avalanche que Dominic Thiem lhe atirara para cima.

E a verdade é mesmo esta - aos 22 anos, que serão 23 em setembro, ele está no sétimo lugar do ranking e parece ser uma questão de tempo até ser o líder.

Primeiro, contudo, está Rafael Nadal, o imperador da terra batida que tenta alargar o império para os dez títulos em Roland Garros e, pelos vistos está imparável. Até já conseguiu um novo recorde: nunca tinha concedido tão poucos jogos aos adversários (22) em cinco encontros jogados no torneio.