Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Rafa Nadal: quem é que está de joelhos agora? Nós, rendidos a esta ressureição

Rafael Nadal conquistou ontem o seu décimo Roland Garros e engordou a lenda do rei da terra batida. O espanhol superou as lesões, manteve-se fiel aos hábitos e às superstições, e levantou-se do chão

Sónia Santos Costa

Julian Finney

Partilhar

Quando nasceu - em Palma de Maiorca, há 31 anos - chamaram-lhe Rafael, em honra do avô paterno. Mas esta escolha tinha um quê de premonição. É que o nome significa “aquele que tem o defeito de querer ser o melhor em tudo”. Defeito? Ou será a virtude que lhe rendeu o décimo triunfo no Roland Garros?

A paixão pelo desporto começou cedo, mas chegou a dividir-se entre os relvados e a terra batida. Com 3 anos - ainda antes de distinguir a esquerda da direita e de saber atar os atacadores - começou a ser treinado pelo tio, Toni Nadal. Aos 12, não quis mais nada com o futebol por já só ter olhos para o ténis. E o interesse era mútuo: com 16 anos, foi o mais novo de sempre a integrar o ranking dos 50 primeiros da ATP.

Partida molhada, partida abençoada

ERIC FEFERBERG

Nunca largou a mania de tomar um banho gelado antes de enfrentar um oponente. Diz que serve para acordar todos os sentidos e melhorar as suas capacidades de reação. Esta é uma das várias superstições que o espanhol mantém e que partilhou na sua autobiografia, “Rafa”, editada em 2011.

É conhecido pelas milésimas vezes que ajeita a camisola e o cabelo (e depois a camisola outra vez, e depois o cabelo, e depois de novo a camisola, e depois os calções, e o tempo a passar e o árbitro a enfurecer-se e ele que nunca mais se decide...), pelos saltinhos durante o aquecimento, pela mania de nunca pisar as linhas com o pé esquerdo, e pelo perfeccionismo com que trata as suas garrafas de água. Se é graças a toda esta coreografia que chegou ao nível que chegou, não sabemos. (Mas também não arriscamos pedir-lhe para parar.)

É que este trintão é multifacetado e nem só os patrocínios desportivos lhe tentam deitar a mão. A Armani ofereceu-lhe roupa interior - e um bom cachet - para que fosse cara (e corpo) da campanha de Outono/Inverno 2011. Shakira já tinha tido a mesma ideia, quando lhe chamou “gipsy” e lhe pediu para contracenar com ela no videoclip sensual da sua música com o mesmo nome. Essa peripécia e os beijos lá pelo meio (mesmo que técnicos) valeram-lhe um Piqué chateado que a proibiu de fazer mais este tipo de parcerias.

Subir, cair, coxear, subir ao pé coxinho e a pulso lesionado

Quando pensamos no maior inimigo de Nadal, ocorrem-nos tipos como Roger Federer a Novak Djokovic ou Andy Murray. Mas há um vilão ainda pior a assombrar os pesadelos do moreno: as suas constantes lesões, especialmente nos joelhos, que parecem envoltas numa neblina de mistério e azar.

É verdade: a ficha clínica do tenista é tão longa que faz os mais céticos acreditarem nos enguiços. Maleitas nos joelhos e nos pulsos são inimigas inseparáveis de quem faz da terra batida segunda casa, mas a frequência com que estas o visitam parecem convencer-nos de que a sorte não está do seu lado...

Se Messi aprendeu a superar os enjôos, Rafael também não aceitou viver para sempre numa sexta-feira 13 em loop. Fez o que estava ao seu alcance para melhorar - e, se a solução passava por uma pausa, aceitou esse tempo afastado das competições. Esteve longe do seu reino, mas voltou para mostrar que, se caiu 7 meses, estava pronto para se levantar por muitos mais do que 8.

As dificuldades obrigaram-no a tornar-se mestre em gestão de esforços. Em 2014, parou outra vez 2 meses para descansar (desta vez, foi o pulso que lhe tirou o sono), mas vol...

Ok, não voltou, porque apareceu uma apendicite no caminho; tirou-se o apêndice, resolvido, e então lá voltou.

Em 2016, de novo lesionado, viu a final do Open francês pela televisão. A maldição parecia não ter fim à vista - mas a sua força de vontade para recuperar também não.

Dá cá mais cinco - duas vezes

CHRISTOPHE SIMON

Corria 2005 quando o jovem Nadal teve a sua melhor prenda de aniversário até então. Acabadinho de completar 19 anos, competiu no Roland Garros pela primeira vez e levantou a taça com que sonhava desde criança, quando treinava com o tio Toni nos courts da ilha que o viu nascer.

Um Nadal adolescente - de cabelo comprido, camisola verde sem mangas e corsários à pirata, sorridente, preenchido e ainda sem barba à espreita - estava longe de imaginar que, doze anos depois, iam ser precisos todos os dedos das mãos para contar as suas vitórias nesta competição.

Este domingo fez história no Grand Slam francês, que já é considerado o seu reino. O troféu estava a fazer-se difícil e não era seu desde 2014, mas Nadal não quebrou a corrente de ganhar todas as finais que disputou nesta competição e ontem levantou, pela décima vez, a Taça dos Mosqueteiros (depois de arrasar Wawrinka - que descarregou a raiva na raquete - pelos parciais de 6-2, 6-1 e 6-1).

E lá havia forma melhor de mostrar que o seu reinado ainda não acabou? Ergueu-se do chão, onde deixou as lesões físicas e psicológicas, e subiu a escadaria com um estômago a dar horas depois de um jejum de três anos.

Quando olha para o topo ainda lá está Murray - mas, do alto do seu segundo lugar recém-conquistado no ranking, já olha de cima para Stan Wawrinka, Djokovic e Federer.

É ouro olímpico, é o rei da terra batida, é o “touro miúra”... E, para engordar esta lista, também é decacampeão. Quem é que está de joelhos no chão agora?

Somos nós, rendidos a esta ressurreição.

THOMAS SAMSON