Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Que Federer continue a sair de casa feliz

Antes de sair para cada torneio, Roger Federer pergunta-se, sempre, se quer mesmo fazer aquilo. Ele está velho, se por velhice entendermos o tenista que, aos 35 anos e ao fim de seis meses sem competir, voltou para ganhar um Grand Slam. Agora, o velho génio dos 18 majors vai tentar vencer Wimbledon, o seu torneio preferido (que começa na segunda-feira), pela oitava vez. O que será um recorde, pois claro

Diogo Pombo

Pool

Partilhar

Vai até ao quarto e escancara as portas dos armários. Abre as malas, ou mochilas, e coloca-as em cima da cama. São calções, meias, t-shirts e camisolas para dobrar. Ténis, raquetes, cordas para acondicionar. Arruma e fecha tudo, está pronto. Pega em algumas pelas mãos, pendura outras nos ombros. Abre a porta de casa, sai, caminha até ao carro, descansa as malas no porta-bagagens. Tem a chave na mão, pronto para sair e sabe que está prestes a bater no momento com que sempre choca, de frente.

Roger Federer, de pé, parado à porta de casa em Valbella, uma de muitas pequenas aldeias nos Alpes suíços, vira-se para trás.

Olha para a fachada. Pergunta a si próprio se está feliz com o que vai fazer - entrar no carro, ir até ao aeroporto, entrar no avião e voar até à terra onde joga o próximo torneio. Se tem mais vontade de ser levado pela raquete ou de voltar para dentro. De ficar mais tempo com Mirka, a mulher. De não ir para longe de Myla e Charlenne e de Leo e Lenny, os quatro filhos que nasceram aos pares de gémeos. Demora o tempo que for preciso até ouvir da consciência a mesma resposta de sempre. Apetece-lhe fazer isto.

Ele vai-se embora.

Parte para o carro e o aeroporto e o avião e a aterragem no próximo court. Os treinos rodeados de gente, os tantos autógrafos quantos forem os passos que der em público, a precisão de cada bola que bate numa raquete segurada por ele. A elegância de uma esquerda, seja cortada, ao longo, paralela, de dentro para fora ou em top spin. Os ângulos a que abre o corpo e o braço para devolver sempre mais difícil a bola que bateram para o seu lado do campo. E o quão mais bonito, mágico e, sobretudo, rápido, é se Roger Federer fizer estas coisas sobre um tapete verde.

Julian Finney

Em relva e vestido de branco, dos pés à cabeça, respeitoso do protocolo de Wimbledon, o torneio que já deve ter mais respeito pelo tenista suíço, do que o contrário. Porque já houve sete anos em que Roger Federer saiu de casa, contente com a resposta da consciência, e foi até Londres para ganhar o Grand Slam mais tradicional que há no ténis. Ele foi feliz em 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2009 e 2012 onde, mesmo assim, Pete Sampras conseguiu ser tão felizardo como ele. O americano, no seu tempo, ganhou sete torneios de Wimbledon, uma coincidência que dá ainda mais importância ao momento em que Federer decidiu sair de casa.

Porque, e não há floreados que o safem, ele está velho.

Mas dentro da sua velhice coube-lhe ser o mais velho tenista, em quase meio século, a vencer um torneio do Grand Slam. Em janeiro, já com os seus 35 anos, venceu o Open da Austrália, depois de 14 meses sem ganhar uma competição e de meio ano sem responder, a ele próprio, à porta de casa, com as coisas no carro, se devia ir ou ficar. “Tenho um torneio e pergunto-me sempre se estou feliz por ir para longe de casa. Estou contente neste momento? Ou queria que pudesse ficar mais tempo? Porque seria tão bom se ficasse. Em todas as vezes, até hoje, a resposta tem sido: estou feliz por ir. Ainda estou a fazer a coisa certa”, descreveu, em março, à GQ, o momento que sempre tem com ele próprio, antes de partir para um torneio.

Federer descreveu-se assim, no seu momento, por as perguntas que lhe fazem, cada vez mais, serem as mesmas. Ninguém, nem o suíço, sabe até quando ele durará. Generalizar é errado e sintoma de preguiça, mas toda a gente que tem um fraquinho por ténis gostaria que ele durasse para sempre. Ele não definha, não quebra a forma, não se mostra incapaz e continua capaz de pancadas e bolas que boquiabrem as pessoas. Vê-lo assim, elegante, brilhante, ágil e ainda com magia na raquete, faz com que cada vitória que ainda consegue seja, no fundo, um pouco dolorosa.

Porque ficamos uma vitória mais perto do fim, de o ver partir, do dia em que não teremos Roger Federer a jogar ténis em relva.

LEON NEAL

O torneio de Wimbledon começa na segunda-feira e o que se passou em janeiro, na Austrália, e depois disso, dá todas as razões para se acreditar que o suíço pode voltar a ser feliz. Quando venceu na terra dos cangurus, Federer vinha de uma paragem de seis meses, parado por uma lesão no joelho, sofrida enquanto dava banho às filhas, em casa. O suíço não vencia um Grand Slam há cinco anos, não conquistava um torneio há 14 meses, não estava em forma e com ritmo de jogo, supostamente.

Também se pode escrever, agora, que ele não vence Wimbledon desde 2012, e que já perdeu duas finais lá (2012 e 2015), entretanto. Ou que, por não lhe apetecer ter trabalho e ter vontade de descansar, saltou a época de terra batida, uma decisão que o poderia enferrujar.

Não fosse Federer inoxidável, ao ponto de voltar à relva e vencer, pela nona vez, o torneio de Halle, na Alemanha, sem perder um set pelo caminho. “Nunca mais iremos ver alguém como Roger Federer, o seu jogo é de outro mundo. Vai ser favorito a ganhar Wimbledon. Ele é sempre fantástico e mostra respeito por toda a gente”, disse Alexander Zverev, o germânico e uma espécie de novo menino prodígio, após perder com o suíço, na final.

Numa altura em que Novak Djokovic e Andy Murray parecem estar com afrontamentos nas suas carreiras - eles ganharam cinco das últimas seis edições do Grand Slam da relva, mas, esta época, o suíço ainda não os defrontou -, e Rafael Nadal, mesmo ressuscitado, não ser o maior dos fãs da relva, Federer pode ir bem disposto para o torneio inglês. Sendo ele quem é, e vendo o ténis que está a jogar, tem razões para o fazer. Ou, vendo bem as coisas, teria sempre.

Federer é assim, um dos humanos que mais se superiorizou aos outros no desporto. Será para sempre vizinho de tipos como Michael Jordan ou Michael Phelps, paredes meias com eles, no nosso imaginário. É imune a qualquer tique, laivo ou mais pequeno rasgo do protótipo de atleta que tem de competir no campo da arrogância para ser o melhor competidor. Ele é simpático, educado, de sorriso fácil, falador, cortês e já ganhou, por 12 vezes, o prémio de desportivismo que os tenistas do circuito atribuem anualmente.

É o campeão dos campeões, o cavalheiro que parece, genuinamente, ter perdido o chip de maldizer quando saiu da fábrica. Até após vencer o maior rival que tem, no Open da Austrália, disse isto: “Este é um desporto duro, não há empates, mas, se houvesse, ficaria contente por dividi-lo com o Rafa”. Disse-o sobre o espanhol com quem ainda perde, por muito, no confronto direto - Rafael Nadal tem um saldo de 23-12 em vitórias com Federer, 6-3 em finais de Grand Slams.

Ele não tem os tiques nervosos e com um quê de obsessivo-compulsivo de Nadal. Não refila, furiosamente, com ele próprio, a cada borrada que faz, como Murray. Não é emotivo nas reações para com os árbitros e nas emoções que a desgastar-se em corridas, como Djokovic.

Federer é Federer, o mais terreno dos deuses do ténis, dono de tantas virtudes que lhe são reconhecidas, que até o próprio dá pelas diferenças que lhe distinguem. “A minha dureza mental sempre foi abafada pelo meu virtuosismo, as minhas pancadas, a minha técnica, a minha graciosidade. É por isso que, quando perco, dizem ‘Ó, ele não jogou tão bem’. E quando ganho, parece tão fácil. Eu tento sempre tudo o que posso. Só porque não suo como um maluco, não grito ou não ponha uma cara de quem parece estar a sofrer quando bato uma bola, não quer dizer que não esteja a tentar tudo”, desabafou, em março, à revista "Time".

Mas ele é feliz assim, só pode.

Porque esteve ao lado do carro, com as malas no porta-bagagens, olhou para casa e foi-se embora. Wimbledon is calling.

Clive Brunskill

Partilhar