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Alex só tem um braço e joga ténis contra quem tem dois

Alex Hunt é um neozelandês que foi o primeiro tenista a conseguir pontuar para o ranking ATP, sob uma condição - ele só tem um braço. Tem 23 anos, joga com uma prótese e esteve no torneio Futures de Torres Vedras. Perdeu à primeira e os medos, as dúvidas e as incertezas, por momentos, voltaram

Diogo Pombo

ROBERTO SCHMIDT

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A bola vem alta, desleixada na pouca força e despreocupada na direção. Rede. Outra chega cuidadosa na potência e atenta ao sítio onde bate no chão, perto das linhas. Resposta para fora. A pancada de direita é errática, não está para confianças. A esquerda parece estar febril, falta-lhe força para assustar, não dá mais. Ele é incapaz de aguentar um ponto em que a bola cruze a rede mais de oito vezes. As duplas faltas vão-se duplicando, o serviço não o safa. Vai-se afundando no jogo.

As coisas acontecem ao contrário do que ele quer.

- Why is this happening?!

O desespero fá-lo desabafar para o ar. Ele sua, muito, cada ponto escurece-lhe mais a t-shirt cinzenta. O boné na cabeça não lhe estanca as gotas que lhe escorrem pela cara. Tem a barba por fazer há dias. As meias e os calções são brancos, os ténis escuros, cada coisa vem de uma marca diferente. O jogo é-lhe tão negro como o céu é lá em cima, cerrado por nuvens e fechado a qualquer raio de sol.

A manhã vai a meio e não há mais do que cinco pessoas a ver o jogo, todos tenistas. Comentam, opinam, reagem com expressões faciais quando preferem o silêncio. “Calma, obriga-o a jogar”, diz um, em inglês, quando Alex Hunt se aproxima da vedação para resgatar uma bola do chão.

O piso é rápido e tem algumas fendas, como se um sismo o tivesse rachado e deixado cicatrizes. Há um juiz de cadeira, que tem um telemóvel na mão, para registar os pontos, mas não há apanha-bolas. Nem árbitros de linha. Ou miúdos a segurar toalhas ao fundo do court. Este torneio em Torres Vedras é parecido com muitos outros Futures, a base da cadeia alimentar do ténis profissional, uma terra humilde onde os luxos não existem.

ROBERTO SCHMIDT

E o ténis é curto, mal jogado e mau para Alex, que perdeu: 6-2 no primeiro set, 6-0 no segundo.

Caminha até à rede, cumprimenta o adversário, repete o aperto de mão com o juiz, e senta-se. Deixa cair a cabeça, aninha-a entre os joelhos. É rápido a trocar de t-shirt e a arrumar as raquetes no saco. Sai do court à pressa. Pára num banco, típico de jardim, mas preso a chão de tijolo. Espera que o tenista que, há minutos, o aconselhou, para ambos se irem embora e fugirem do clube de ténis. Alex está cabisbaixo, tem o olhar preso no caminhar. Acabou de ser “completamente destruído” e, mais do que chateado, sente-se triste.

Está a duvidar dele próprio, muito.

Podia ser mais um tenista amuado, derrotado por uma derrota e a perder a motivação. Mas não é só isso.

Alex Hunt só tem um braço. Nasceu assim.

E vêm-lhe à cabeça as mesmas incertezas que não sentia há anos. Se é bom o suficiente para estar ali. O que vão pensar os outros tenistas da prótese que tem no lugar do antebraço esquerdo. Se vale a pena continuar a insistir. Se algum dia vai “conseguir bater na bola como tipos como o Federer o fazem”. As dúvidas que sente enquanto foge do clube de ténis de Torres Vedras são as mesmas que sentiu quando chegou aos EUA, para estudar gestão e, sobretudo, jogar ténis no circuito universitário do país. Tinha 18 anos, agora está com 23.

- Ao início, no college, sentia-me inseguro. Não sabia o que iam pensar de mim por ter apenas um braço e estar a jogar ténis. Não sabia se era bom o suficiente para estar a jogar ali, o que as pessoas iriam pensar.

Demora quase uma hora a regressar. Continua equipado e de boné, com o saco às costas. Está mais descontraído, já acalmou as dúvidas, mas elas continuam a existir porque a história dele nunca vai mudar. Alex nasceu em Wakefield, uma vila na Nova Zelândia onde há pouco mais de duas mil pessoas. Cresceu no campo, a viver numa quinta com vários cães, muitas ovelhas e outros animais. Algures entre os seis meses e o ano de idade, os pais compraram-lhe uma prótese. “Era muito pequena e tinha uma pequena tenaz na ponta.”

Com três anos começou a tocar em bolas e a pegar em raquetes. Os pais jogavam ténis, os pais deles tinham jogado, os dois irmãos mais velhos já o jogavam. A memória de Alex não rebobina até ao momento em que jogou pela primeira vez. Sabe que tinha seis ou sete anos quando participou no primeiro torneio de ténis.

Era o menino que só tinha um braço no desporto que exige tudo dos braços.

As crianças, com essa idade, são ingénuas, genuínas e sem filtros, o que pode fazer delas crianças que dizem coisas que não devem. Miúdos a serem maus para outros miúdos. Mas Alex não se lembra de o serem para ele, por causa do braço que não tinha. “A minha família tratava-me exatamente da mesma maneira em que tratava os meus irmãos, e acho que isso passou para a vida que tinha na escola”, diz. Alex fazia o mesmo que os outros miúdos. Jogou futebol e críquete, competiu na equipa de natação da escola, experimentou coisas até constatar que não valia a pena. Tinha de ser o ténis.

- Não era muito diferente dos outros e acho que eles me viam como igual.

Percebeu que tinha de agarrar na raquete “à maneira” dele, adotar a mesma pega para as pancadas de direita e de esquerda. Não conseguia fazer “tantas flexões como os outros” ou imitá-lo dentro do ginásio. Cresceu a ser “um jogador assim-assim” no nível júnior, a ganhar tanto quanto perdia. Não era tão bom como o irmão o fora com a idade dele. Mas hoje, em Torres Vedras, regressado da fuga, sentado no mesmo banco onde se lamentara com a destruição, a derrota, apostaria um dólar nele próprio, em como lhe ganharia.

ROBERTO SCHMIDT

Porque Alex Hunt já ganhou muito.

Trocou a pequenez do conforto que tinha, em casa, pela grandiosidade de uma universidade americana. Ficou nervoso, sentiu-se ansioso. O que vão os outros pensar de mim, do braço que me falta, do ténis que jogo desta forma. Era o pior quando chegou, o sexto jogador a ser escolhido numa equipa de seis. Já era dos melhores quando se licenciou, em maio, e decidiu tentar a sorte. Os pais apoiaram-no com o que o ténis exige a quem o pratica - as raquetes, as viagens, os hotéis, a alimentação e as inscrições nos torneios. Com o dinheiro onde cabe tudo isto.

Em junho, Alex usou-o para ir a Guam, um país-ilha no meio do Pacífico.

Era o segunda vez que entrava no quadro principal de um torneio da Federação Internacional de Ténis no qual participava. Lá aconteceu-lhe o contrário do que em Torres Vedras. Falhou pouco, foi melhor e não perdeu um jogo contra Christopher Cajigan, um tenista das Ilhas Marianas do Norte. 6-0, 6-0. Foi o primeiro tenista sem um braço e com uma prótese a pontuar para o ranking ATP e agora está sentado neste banco de jardim, entre dois courts, em Torres Vedras, numa manhã de céu cinzento e que já foi cinzenta para ele.

- Agora, está tudo a acontecer outra vez, sabes? Acabei a universidade, fui entrando em torneios da ITF e voltei a sair da zona de conforto. Parece que estou a aprender a andar de bicicleta de novo.

Aqui, a maior parte dos tenistas parecem ser melhores do que Alex. Têm mais força, estão mais habituados a competir, a cabeça não pensa em tantas coisas, as dúvidas não os afligem.

E todos têm os dois braços.

ROBERTO SCHMIDT

Mas ele ri-se. Perdeu e foi destruído, como diz e relembra. Está feliz por estar sentado neste banco, num país que “nunca imaginou poder visitar”, como os sítios onde já esteve na Ásia. “Ter estas aventuras” enche-o e ver “outras culturas” e sítios onde “as pessoas vivem com mais dificuldades” fazem-no pensar em outra coisa. Alex vem de um país pequeno, de uma vila pequena e de uma quinta pequena, mas tem uma sorte grande por os pais lhe terem posto “comida na mesa” e por lhe porem dinheiro na conta.

Ele não sabe é até quando vai durar assim. A almofada dos pais chega-lhe para competir até ao final do ano. Para o resto, faltam os patrocinadores que não tem. O dinheiro para, talvez, ter um treinador a tempo inteiro, em vez do o treina apenas quando está na Nova Zelândia. O mesmo que o ajuda a “gerir os pedidos dos jornalistas” e decide as respostas e entrevistas que dá. “São duas ou três por semana”, resume.

Ainda lhe custa a exposição, não está habituado.

Mas Alex também sabe que é bom. Porque haverá uma coisa que coloca à frente dos Grand Slams e do “bastava um Qualifying” para ser feliz; do ranking; do Federer e da forma como ele gostava de bater a bola. Essa coisa é o exemplo, a “inspiração para os miúdos”, que lhes chegará quanto mais mediático Alex conseguir ser.

- O maior sonho é inspirar as pessoas e mostrar que aconteça o que acontecer na vida, por mais que enfrentes coisas difíceis, se lutares e tentares, nunca se sabe o que pode acontecer.

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    Entrevistas Tribuna

    Cresceu numa pequena vila da Nova Zelândia, numa quinta ainda mais pequena. Aos 18 anos foi para os EUA, estudar e jogar ténis. Decidiu continuar e, no final de maio, tornou-se no primeiro tenista com apenas um braço a pontuar para o ranking ATP. Alex Hunt gostava de chegar ao top-200 e jogar um Grand Slam, mas o que queria mesmo era “inspirar miúdos e mostrar que, aconteça o que acontecer na vida, por mais que enfrentes coisas difíceis, se lutares e tentares, nunca se sabe o que pode acontecer”