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Gilles Muller, o homem a quem uma lesão foi o melhor que lhe aconteceu na vida (depois de Nadal, claro)

Luxemburguês que bateu Rafael Nadal na segunda-feira, em Wimbledon, era um dos mais promissores juniores no início do século, mas as lesões nunca lhe permitiram confirmar todo o potencial. A última delas fez o esquerdino descer às catacumbas do ranking mundial, mas foi como um reset: começou de novo, por baixo, e no início desde ano venceu o primeiro título ATP da carreira, aos 33 anos

Lídia Paralta Gomes

GLYN KIRK/Getty

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Quando em agosto de 2016, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, Andy Murray surgiu de Union Jack em riste em pleno Maracanã, atrás de si tinha um batalhão de 365 outros atletas britânicos.

Gilles Muller tinha 9 compatriotas.

A história do Luxemburgo nos Jogos Olímpicos é ainda mais diminuta que a sua delegação. Desde 1896 que o pequeno grão-ducado encaixado entre a Bélgica, a Alemanha e a França e com pouco mais de 500 mil habitantes ganhou apenas duas medalhas, a última das quais há 65 anos, nos Jogos de 52.

No Rio, o currículo do porta-estandarte Muller não impressionava: aos 33 anos, tinha zero títulos ATP.

Quase doze meses passaram e o cenário deu uma cambalhota. Uma volta surpreendente quando estamos a falar de um atleta de 34 anos, vindo do Luxemburgo e com um jogo baseado no serviço-vólei, coisa tão atual no ténis moderno como as raquetes de madeira.

Pois então, estamos em 2017 e dezasseis anos depois de se tornar profissional, Muller ganhou o seu primeiro título ATP logo a abrir o ano, em Sydney. Quatro meses depois perderia a final do Estoril Open frente a Pablo Carreño Busta, para no mês passado chegar ao 2.º título do palmarés, em Rosmalen, na Holanda.

Isto por si só já seria uma história, mas ontem, não contente, Muller escandalizou Wimbledon ao bater Rafael Nadal, n.º 2 mundial, em cinco sets e 4h47 horas de encontro.

Há assim qualquer coisa de especial a passar-se com Gilles Muller, rapaz nascido há 34 anos em Schifflange, uma cidadezita com 10 mil habitantes no sudoeste do Luxemburgo. Mas o que muita gente provavelmente não saberia até esta segunda-feira, uma Manic Monday que às tantas se tornou numa Surprise Surprise Monday, é que naquele dia em agosto de 2016, quando levou a bandeira do Luxemburgo no Maracanã, já Gilles Muller estava em pleno renascimento de uma carreira marcada por lesões, que nunca permitiram ao esquerdino confirmar as expectativas criadas pela vitória no US Open de juniores em 2001.

Foram elas que o travaram, mas também foram elas que permitiram que este trintão, pai de dois filhos, de repente abatesse o touro Nadal em quase cinco horas em plena catedral da relva.

Como assim?

Em 2013, a seguir a Roland Garros, Muller pousou a raquete sem ter a certeza se conseguiria voltar a pegar nela. Voltou ao ténis no início de 2014, mas aí teve de começar de novo. Atirado para as catacumbas do ranking mundial, Muller foi que nem um puto em início de carreira jogar para o circuito Challenger. Ganhou quatro títulos, foi melhorando e subiu do 368.º para o 47.º posto da hierarquia.

Muller e mais nove luxemburgueses na cerimónia de abertura dos Jogos do Rio

Muller e mais nove luxemburgueses na cerimónia de abertura dos Jogos do Rio

PEDRO UGARTE/Getty

A partir daí, foi sempre a subir até este ano chegar ao primeiro título, ao melhor lugar de sempre no ranking (26.º) e à vitória frente a Nadal, algo que, verdade seja dita, nem é inédito: em 2005, o luxemburguês bateu o espanhol em Wimbledon, mas nessa altura Nadal ainda não era o Nadal que três anos depois haveria de cumprir a façanha de bater Roger Federer na final do mais importante torneio de relva do Mundo.

“A última lesão que tive foi provavelmente a melhor coisa que me aconteceu. Tinha problemas no cotovelo, não conseguia sequer pegar numa raquete. Mas consegui preparar-me fisicamente e chegar à minha melhor forma. Desde que voltei, em 2014, consigo jogar temporadas completas e tenho muito mais confiança no meu corpo”, revelou Muller no final da maratona de quase 5 horas no All England Club.

Do ano de 2013, o tal em que Muller ponderou se voltaria ou não a jogar, até à maior vitória da carreira, passaram quatro anos, algum sofrimento e, agora, a recompensa. Que pode ser ainda maior. Nos quartos-de-final, segue-se outro jogador que sabe o que é vencer um torneio do Grand Slam, Marin Cilic, mas confiança é coisa que não falta a Muller, apesar das mazelas normais de quem esteve cinco horas a bater bolas com um dos mais intensos jogadores da história do ténis.

“Certamente não me vou sentir tão bem amanhã [esta terça-feira], mas estou bastante confiante de que estarei em boa forma na quarta-feira. Tenho tido o meu fisioterapeuta comigo durante as últimas semanas, o que é uma grande vantagem. Vou ter muito tempo para fazer um bom tratamento”.