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Perder em Wimbledon é como levar uma reguada nos dedos - Rafa Nadal, por Toni Nadal

Toni Nadal, tio de Rafa e treinador do vencedor de 15 torneios do Grand Slam, escreveu um artigo para o El País sobre a derrota do sobrinho nos oitavos de final de Wimbledon. E comparou-a ao tempo em que os professores lhe batiam com uma régua nos dedos, em miúdo

Diogo Pombo

David Ramos

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Toni Nadal tem 53 anos, uma idade que o fez crescer no meio de outros costumes.

No tempo dele, os miúdos para quem a sala de aula era mais um recreio, mas com teto e paredes, não recebiam ordens para se calarem a cada silêncio que interrompiam. Os tagarelas, os irrequietos ou os desatentos eram punidos por professores que tinham uma paciência com validade de um pavio de vela. Um dia, o professor mandou que o pequeno Antonio, falador nato, juntasse os dedos de uma mão.

Sobre eles colocou uma régua, que estava presa à vontade do braço do professor. Nesse momento, ele perguntava, com sarcasmo, sempre o mesmo: “Vou-te bater quando menos o esperares. Estás à espera, agora?”. Toni aprendeu a responder que sim, fechando os olhos e encolhendo-se, sabendo que a ira do stôr transportada pela régua não o ia atingir nesse segundo, mas dali em breve.

É deste momento que Toni se recordou quando, ao longo de quatro horas e quarenta e sete morosos minutos, viu o sobrinho tentar responder às bolas que Gilles Müller lhe atira.

Toni Nadal treina quem mais tornou conhecido o apelido Nadal. É treinador do sobrinho, o tenista que vai com 15 torneios do Grand Slam conquistados, um reinado imortal na terra batida - dez vitórias em Roland Garros - e que, aos 31 anos, sacudiu os joelhos, os pulsos e as costas que o tinham emperrado nas duas últimas épocas e levaram as pessoas que a dizerem que ele já não era o que tinha sido.

Rafa ressurgiu este ano, venceu o major francês e chegou à relva de Wimbledon como uma flor renascida no canteiro da idade. Toni, que o treina desde Manacor, em Maiorca, onde tudo começou, vai deixar de estar na sombra do sobrinho no final desta época, e talvez por isso tenha aceitado ir escrevendo umas coisas para o El País.

David Ramos

Quem era tagarela nas aulas, só podia ser ávido com um teclado à frente.

Dois dias após o sobrinho cair nos oitavos-de-final e dar outra surpresa ao torneio (Stanislas Wawrinka, número dois do ranking, já perdera na primeira ronda), Toni escreveu um texto. E foi buscar os momentos em que temia as reguadas do professor para explicar o que sentiu, à beira do court, ao ver Gilles Müller atacar o sobrinho. Cirúrgico, com força, inesperado.

A palavra é inesperado:

“O serviço de Müller é difícil de ler, como poucos. Esconde a pancada até à última milésima de segundo, com isso, a surpresa está assegurada. Mas a combinação que o torna letal são os ângulos que consegue e o muito que corta a bola. Isto faz com que saia disparada ao tocar na relva e que não lhe chegues. Quando consegues pôr a bola em movimento, as coisas também não melhoram muito. O seu golpe do fundo do court é realmente incómodo, com uma devolução nada fácil e com o impedimento de não poderes impor o ritmo.”

Rafa Nadal jogou “não conseguiu jogar cómodo”. Custou-lhe, sofreu com as pancadas de quem pouco se esperava que fosse causador de sofrimento. Perdeu os dois primeiros sets, venceu os dois seguintes, percebeu que, dando uns passos atrás e esperando pela bola mais ao fundo do court, tornar-se-ia mais competitivo, como explicou o tio.

Mas perdeu com o tenista que, antes da partida, Toni antecipava “poder causar-lhe pouco dano”. O tio já o receava, um pouco, quando o viu a aquecer, a meio da manhã, durante meia hora. “Não foi nada bom. A tensão era patente e eu sabia porquê: o Gilles Müller é um jogador que te pode complicar muito a vida, num torneio já de si complicado”.

Causou mesmo, e muito.

E o tio só espera que, para o ano, os sobrinho "mantenha as faculdades físicas" que recuperou, este ano. Porque, do resto, recupera-se, e o resto é como ele escreve - “Perder em Wimbledon é um pequeno duelo. A desilusão dói, a sensação de oportunidade perdida é amarga”.