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Mais uma vez, os ingleses não têm ninguém com quem Kontar

Há quarenta anos que os ingleses não veem uma tenista inglesa a vencer Wimbledon. E vão ter que esperar mais um ano - Johanna Konta foi atropelada por Venus Williams (vai jogar a final contra Garbi Muguruza), nas meias-finais, e mostrou como a relação entre os ingleses, os/as tenistas ingleses/as, e Wimbledon, está cada vez mais complicada

Diogo Pombo

Pool

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Há uma relação peculiar entre os ingleses e o torneio que, deduzo, amam mais do que tudo.

Eles invadem o All England Club, em Londres, onde se joga Wimbledon, por causa do que há de especial no torneio. O verde da relva, aparada até ao pormenor de um raso tapete; o branco quase integral, cheio de regras e limitações, imposto à indumentária dos tenistas; as framboesas com chantilly, iguaria que a tradição fez um must have, cuja subida de preço seria motivo de ultraje e manchetes nos jornais (uma taça, já agora, custa à volta de 2,80 euros); o facto de ser o torneio mais antigo da história entre o ser humano, uma bola e uma raquete.

Eles não se podem queixar. Têm um torneio de Grand Slam, o mais tradicional de todos, talvez o mais bonito de se ver, o mais carismático, com maior prestígio, para o qual as pessoas se vestem como estivessem no casamento do melhor amigo. Os ingleses, em suma, têm sorte, porque Wimbledon é um espetáculo, é quase a casa a que o ténis regressa uma vez por ano.

Só há um problema - os ingleses não têm um inglês, ou uma inglesa, em quem contar, há muitos e muitos anos.

Aqui entra Johanna Konta e para perceber como a derrota que sofreu contra Venus Williams (6-4, 6-2), esta quinta-feira, nas meias-finais de Wimbledon, é muito mais do que isso, há que ir até ao contexto.

Johanna nasceu em Collaroy, há 26 anos. Os pais, que são húngaros, fixaram-se lá por ser um sítio agradável e simpático, perto do mar, rodeado por muito verde, natureza, um estilo de vida pacato e coisas atrás de coisas para fazer. Johanna, em miúda, gostava de nadar, até uma infeção nos ouvidos a chatear e obrigar gostar de outra forma de praticar desporto. Johanna, na escola, olhou para o outro lado da rua e viu um clube de ténis. Começou a visitá-lo, aos poucos.

Para o court levou a mesma atitude que tinha com os livros, na escola. Introvertida, mas compenetrada, ao máximo, nas tarefas, o bicho do mato foi evoluindo. Quase metódica demais para a idade, saiu da escola aos 12 anos, quando os pais decidiram educá-la, e ensiná-la, em casa, por conta deles, escreve o The Guardian.

A filha ficou com mais tempo para o ténis e a sua natureza fez com que o aproveitasse. “A Johanna passava horas e horas a bater bolas contra a parede, para mudar a sua técnica e forma de pegar na raquete. Durante anos, depois de se ir embora, a parede era conhecida como a parede da Johanna”, contou Peter McGraw, o diretor da divisão feminina da Federação Australiana de Ténis.

GLYN KIRK

Sim, australiana.

Encurtando uma longa história, Collaroy é nos subúrbios de Sdyney, onde Johanna nasceu e, aos 12 anos, foi selecionada para um programa de desenvolvimento de jovens tenistas, apesar de ser a 338ª melhor tenista do seu escalão.

Melhorou o suficiente para, quando os pais decidiram emigrar, outra vez, chegasse a Inglaterra com ténis de sobra para continuar atrás do sonho de ser profissional. A família fixou-se em Eastbourne, no sul do país, a segunda casa do ténis inglês, a seguir a Wimbledon, e as coisas evoluíram até Johanna Konta adquirir a cidadania britânica, em 2012.

O que coincidiu com o ano em que Andy Murray vence o ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, na relva de Wimbledon. Uma coincidência que interessa, mas cada coisa a seu tempo.

E hoje cá estamos, a ver como o court central de Wimbledon ficou à pinha de gente, com as palmas da mão engatilhadas, prontas a aplaudir qualquer gesto, ponto ou pancada do lado de Johanna Konta, enquanto Venus Williams, 11 anos mais velha e por cinco vezes vencedora do torneio, se desembaraçava de quase todos os problemas que a tenista lhe tentasse causar. Eram aplausos que disfarçavam as críticas e o menosprezo que Konta, por vezes, recebe durante o resto do ano, por ser uma australiana emigrada a quem o Reino Unido, pela legalidade dos anos passados em Inglaterra, reconheceu a cidadania.

Porque, ao mesmo tempo que os ingleses sabem que Johanna Konta não é tão inglesa como eles, não se esquecem que já foi em 1977 que Virginia Wade ganhou em Wimbledon. Foi a última tenista inglesa a fazê-lo, e vão 40 anos.

Como não esqueceram que fora em 1936 que Fred Perry ganhara o último dos seus três torneios de Wimbledon para se tornarem na claque de Andy Murray e com ele rejubilarem em 2013, quando o tenista foi o melhor no Grand Slam da relva. Isto apesar de Murray ser um escocês de todas as costelas, que em 2014 causou polémica por apoiar, fervorosamente, o “sim” no referendo à independência da Escócia. Dois anos antes, voltando atrás, ficara com a medalha de ouro pendurada ao pescoço, jogando pela equipa do Reino Unido.

Nos últimos dois anos, Johanna Konta passou de um talento esforçado, a lutar para não sair do top-40 do ranking, para a sétima melhor tenista do mundo, que já chega a meias-finais de Grand Slams. Andy Murray continuou a viver na mesma dimensão de Federer, Nadal e Djokovic, chegou a número um do ténis masculino e voltou a vencer em Wimbledon, o ano passado.

Mas os ingleses continuam ser um verdadeiro inglês em quem contar. Mais uma vez.