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Nadal pode voltar a ser o melhor - em parte, por causa das lesões

Quando 2016 terminou, Rafael Nadal, o então senhor de 14 torneios do Grand Slam, era tema de conversa por já não ser o campeão de outrora devido às incontáveis lesões que o afetavam. Acabou o ano fora do top 8. Agora, quando 2017 vai a meio, o espanhol está a três vitórias de voltar a ser número um do ranking e tudo por culpa das lesões - mas dos outros

Diogo Pombo

Michael Steele

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Ele nunca mais será o mesmo.

O ano trata-o mal, não tem a mínima piedade. No torneio que se joga na superfície do pó que lhe corre nas veias, o pulso esquerdo obriga-o a desistir. Não pode com as dores, joga com infiltrações, mas não serve de nada. Em lágrimas, Rafael Nadal retira-se de Roland Garros, cai na terceira ronda do Grand Slam que, então, já vencera por nove vezes, o sítio onde é rei e não há quem se revolte contra o seu reinado. Ele não faz ideia de quando recuperará, é uma incógnita, e acaba 2016 com dois títulos menores conquistados, 30 anos feitos e dúvidas a rodeá-lo. E a suspeita: “Ele nunca mais será o mesmo”.

Percebe-se por ele ser quem é, o espanhol do top spin incontrolável, o mais físico dos tenistas, conquistador de 14 títulos do Grand Slam e de 141 semanas passadas como líder de uma raça. Rafael Nadal é um dos melhores tenistas de sempre, provavelmente pior que ninguém na terra batida, mas 2016 termina com esta frase na cabeça de quem o vê, porque as lesões são mais dele do que de outra pessoa. E o problema não é de agora:

2003: o cotovelo esquerdo não o deixa jogar o seu primeiro Roland Garros.

2004: sofre uma fissura do escafóide no pé esquerdo, a jogar no Estoril Open, e falha Roland Garros, Wimbledon e os Jogos Olímpicos de Atenas.

2005: inflamação no pé esquerdo e uma tendinite nos joelhos afetam-lhe o rendimento.

2006: outra inflamação, no mesmo pé, tiram-no do Open da Austrália.

2007: retira-se do torneio de Cincinatti com cãibras no ombro.

2008: abandona um jogo contra Davidenko, em Paris-Bercy, devido a uma tendinite no quadríceps.

2009: tendinites em ambos os joelhos dão-lhe a primeira derrota em Roland Garros, contra Robin Soderling, e não o deixam jogar em Wimbledon.

2010: ganha três Grand Slams, mas retira-se do Open da Austrália com uma lesão no joelho.

2011: passa o ano com dores no tendão fibular do pé esquerdo. Vence três títulos, mas é o pior ano da carreira.

2012: fica sete meses sem jogar devido à lesão crónica no joelho esquerdo. Perde à segunda ronda, em Wimbledon.

2013: tem um ano livre de problemas físicas e recupera o número um do ranking.

2014: um problema nas costas contribuiu para a derrota frente a Stan Wawrinka, na Austrália, e uma lesão no pulso direito tira-o da temporada de piso rápido. Submete-se a um tratamento celular para tentar curar o problema nas costas.

2015: Nadal nega-o, mas passa o ano com problemas musculares na perna direita e num dos pulsos. Não vence qualquer torneio importante.

2016: retira-se de Roland Garros devido a nova lesão do pulso, na terceira ronda, e fica meses sem jogar.

Tanta lesão, chata e recorrente, não convida a que se façam bons augúrios quanto ao 2017 que o espanhol possa vir a ter. Arranca o ano na Austrália e está fresco, forte, rápido, bom de pernas, joelhos e pulsos, é bruto no ténis poderoso que o caracteriza e chega à final do Open da Austrália. Aguenta cinco longos e duros sets até perder contra Roger Federer, o rival que seu amigo é.

David Ramos

Quando chega a temporada de terra batida, Nadal volta a ser o monstro que reconhecemos - ganha em Montecarlo, Madrid e Barcelona, antes de conquistar Roland Garros pela décima vez.

Ele voltou a ser o mesmo.

A frase muda, suspeitas trocam-se por certezas, e Nadal já olha para o lado e vê frenesim. Os joelhos, que espera ter saudáveis e fortes, não o traem em Wimbledon, embora a relva o trate de forma inesperada e o faça perder, nos oitavos-de-final, contra um luxemburguês que obriga a pesquisas no Google. É uma gota de tristeza no mar de felicidade do espanhol, que é feliz a ser saudável e por sentir o corpo a deixá-lo em paz, imune a lesões. Pelos vistos, elas arranjaram novos alvos.

Ano e meio de dores no cotovelo para Novak Djokovic culminaram na relva de Wimbledon, onde o sérvio desistiu, nos quartos-de-final. Apenas conseguia jogar meia hora com dor suportável. Às dúvidas na cabeça, à bulha com problemas de motivação, acrescentou estar a ponderar tirar meio ano para recuperar. Uma semana depois, em julho, escreve no Facebook que não volta a entrar num court até ao final do ano. No mês seguinte, Stan Wawrinka revela que um dos joelhos o vai deitar numa mesa de operações. O suíço também não joga mais em 2017.

Mais importante que estes dois é o quadril de Andy Murray, que impede o escocês de participar no Masters 1000 de Montreal. O que, além de o líder do ranking com menor número de pontos da história, faz dele o número um mundial em vias de extinção, porque com ele e as lesões voltamos a Rafael Nadal.

Basta o espanhol vencer três encontros no Canadá e chegar às meias-finais para voltar ao topo da hierarquia dos tenistas, uma ascensão que não logra desde outubro de 2013. Nadal largou o trono em julho de 2014 e agora, saudável e fresco como uma alface, pode regressar ao topo, apesar de não parecer estar muito preocupado com isso: “Não estou a pensar ser número um agora. Penso em tentar jogar tão bem como o fiz na primeira metade da temporada”. O primeiro jogo em Montreal é na madrugada desta quinta-feira, por volta das 2h, contra Bernard Tomic.

E quem diria que, em parte, estaria nesta situação por as lesões o largaram e resolveram chatear os tenistas que mais o chateiam no court e no ranking.

Ele está a três vitórias de voltar a ser o melhor.