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Bem me quer, mal me quer, já há quem queira Sharapova

Entre o lado moral de fazer o que mais gente acha ser o correto e o lado das receitas e do marketing, Roland Garros optou pela primeira hipótese e deu uma nega a Maria Sharapova, em abril. Mas o US Open vai acolhê-la de braços abertos - após estar suspensa durante quase ano e meio, devido ao doping, a tenista russa recebeu um wildcard para, 18 meses depois, jogar um torneio do Grand Slam

Diogo Pombo

Lachlan Cunningham

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Meldonium é um medicamento que, à lupa farmacêutica, é prescrito a pessoas que tenham problemas cardíacos e, sobretudo, lendo em pesquisas rápidas pela internet, a quem sofra de isquémia, condição em que o sangue não é bombeado em quantidade suficiente para os órgãos do corpo. Durante cerca de uma década, Maria Sharapova tomou-a para, dizia, lidar com uma falta natural de magnésio e se precaver contra um historial de diabetes na família.

Neste medicamento, a principal substância ativa chama-se mildronato, que médicos e cientistas, com estudos e com o tempo, concluíram beneficiar a atividade desportiva, estimulando a capacidade do corpo em produzir a energia por via do consumo de hidratos de carbono. Devido ao cerne desta resumida lição farmacológica, a Agência Internacional de Anti-Doping resolveu incluir a substância na lista de coisas a não tomar por parte dos atletas. A proibição entrou em vigor a 1 de janeiro de 2016 e, antes, a entidade enviou uma série de e-mails aos atletas que sabia estarem a tomar a dita substância.

Maria Sharapova admitiu que olhou para a sua caixa de entrada e não abriu qualquer uma das cinco mensagens que recebeu, a avisá-la, a urgi-la para largar o que, em março desse ano, regressou para atormentá-la - a tenista revelou que acusara o uso de meldonium num controlo anti-doping durante Open da Austrália. Ficou suspensa durante 15 meses, quase ano e meio a assistir ao desvanecer da própria aura, do prestígio de uma vencedora de cinco Grand Slams e da imagem mais rentável do ténis feminino.

Serve esta breve lição de história e contexto para explicar o que significa o e-mail que a russa recebeu, e leu, na terça-feira, a enviado pela organização do US Open.

Clive Rose

Dentro vinha o convite para Sharapova jogar o torneio norte-americano, o último Grand Slam da temporada, “consistente com a prática passada de providenciar um wildcard a uma anterior campeã do US Open que precisasse de um para entrar no quadro principal”, justificou a organização. O problema para a russa, de 30 anos, tem sido o que o passado alberga e parece ocupar mais espaço do que a vitória no piso rápido de Nova Iorque, em 2006:

Voltamos ao meldonium, ao doping, aos 15 meses de suspensão, ao castigo já servido e cumprido.

A penitência de Sharapova terminou a 25 de abril, altura em que Roland Garros estava aí à porta. A hipótese de a organização atribuir um wildcard à tenista existiu, como rumor, durante muito pouco tempo. O assunto foi tão falado que os responsáveis do torneio francês, perante o alarido, foram forçados a tomar uma posição mais cedo, do que tarde. “Pode haver um wildcard para quem regressa de lesão. Não pode haver um para quem regressa de doping. Não podemos num dia aumentar os fundos para o combate ao doping e depois convidá-la”, explicou, então, Bernard Giudicelli, presidente da Federação Francesa de Ténis.

A russa tornou-se um tema a discutir, uma pergunta a ser feita a tudo quanto é tenista com peso no circuito, tanto masculino, como feminino.

Jo-Wilfried Tsonga comparou um wildcard para Sharapova a “dar um rebuçado a uma criança depois dela se portar mal”. Caroline Wozniacki argumentou que “quando uma jogadora é suspensa por doping deve começar do zero e lutar pelo seu regresso ao topo, porque é diferente de uma lesão, de alguém que está fora porque se aleijou”. O suíço que há em Roger Federer fê-lo dizer que entendia os críticos e os defensores. Venus Williams opinou que apenas queria o melhor para Sharapova.

O assunto, menos discutido à medida que o tempo foi passando, parece nunca ter sido esquecido, porque a russa continua a ser vítima dos 15 meses que passou fora dos courts. Sem competir, Sharapova foi caindo ranking abaixo e não tem conseguido escalar mais além do 148º lugar onde hoje está. Junte-se as lesões que, insistentemente, a têm afetado desde o regresso, e ficamos com uma excelente tenista (quando em forma) que não têm ranking para entrar diretamente no quadro principal dos maiores torneios de ténis. Onde devem, e se quer que estejam, as melhores tenistas.

A russa, portanto, tem sobrevivido à base de uma dieta feita de wildcards.

O convite que a o US Open lhe serviu é o décimo que Sharapova degusta este ano, embora o tempo de jogo da tenista não tem conseguido engordar. As lesões obrigaram-na a desistir dos torneios de Toronto e de Cincinnati, em agosto, e de Roma, de Wimbledon (onde ia participar no qualifying) e de Birmingham, em junho. Neste momento, a tenista está a recuperar de um problema no antebraço esquerdo, logo, não é certo que participe no US Open, que arranca a 28 de agosto.

Se o corpo a deixar, a russa voltará a jogar num Grand Slam quase 18 meses depois. Para já, não há quem critique a decisão da Associação de Ténis dos EUA, que rege o US Open, ou pelo menos quem a tenha vociferado. “A suspensão [de Sharapova], sob os termos do programa anti-doping, foi completada, portanto, esse não foi um dos fatores que pesou no processo de atribuição de wildcards”, explicou a organização.

Eles querem Sharapova e a tenista quis ir mais além e, pelos vistos, falar sobre o fulcral que é evitar substâncias proibidas no desporto: “Adicionalmente, voluntariou-se a falar a jovens tenista sobre a importância do programa anti-doping e a responsabilidade a que cada jogar deve obedecer”.

Agora é esperar para ver se as lesões deixam, e querem, que Maria Sharapova, a outrora dopada e agora desacreditada e alvo de desconfiança, volte a jogar um torneio do Grand Slam. Porque, como a russa disse no "The Point", documentário que narra sobre o seu regresso à competição, a curiosidade está lá: "Mesmo que me amem, odeiem, me respeitem ou não me respeitem, as pessoas estão curiosas. E eu também".

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