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Há um bode entre estes dois

O Open dos EUA começa segunda-feira e resume-se a Federer vs. Nadal

Mariana Cabral

São arquirrivais, amigos e lendas: Roger Federer e Rafael NadalSão arquirrivais, amigos e lendas: Roger Federer e Rafael Nadal

FOTO SAEED KHAN/AFP/Getty Images

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Se fosse graficamente possível, este texto começaria com o emoji de um bode. Explicando: em inglês, “goat” é um animal. Traduzindo para português, tanto pode ser “bode” como “cabra” (consoante o sexo do animal, bem entendido). Mas, em língua inglesa, a palavra também quer dizer outra coisa bem diferente — e não é por acaso que, nas redes sociais, os nomes de Roger Federer e Rafael Nadal (ou de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, por exemplo) por vezes aparecem antecedidos de um emoji — lá está — de um bode. Ao contrário do que se possa pensar, ninguém está a insultar os rapazes. Bem pelo contrário: é que “goat”, em inglês, é o acrónimo de “greatest of all time”, ou seja, “o melhor de todos os tempos”. E, a partir de segunda-feira, em Nova Iorque, é precisamente isso que vamos ter: dois arquirrivais, amigos e lendas do ténis a lutar pelo emoji de um bode.

De um lado, no topo dos cabeças de série do torneio, estará Rafael Nadal, que esta semana terminou uma longa travessia de três anos longe do lugar cimeiro do ranking. Aos 31 anos, depois de incontáveis lesões e crises de confiança, quando parecia acabado e enterrado, o tenista espanhol é novamente nº 1 mundial, ainda que — em abono da verdade — tenha beneficiado das lesões dos últimos donos do lugar, Novak Djokovic, que já anunciou que em 2017 não voltará aos courts, e Andy Murray, que regressa ao ativo nos EUA, onde será o segundo cabeça de série.

O terceiro cabeça de série do último Grand Slam do ano será outro tenista que esteve acabado e enterrado... mas em 2017, com 36 anos, ressurgiu com tal ligeireza que deixou todos de boca aberta, incluindo Rafael Nadal: “Tem o talento de fazer parecer fácil o que é difícil.” E, este ano, quase tudo tem parecido fácil para Roger Federer, que conquistou, no início do ano, o Grand Slam da Austrália, depois de ter estado parado durante seis meses. E, de seguida, venceu Wimbledon, totalizando 19 Grand Slams (Nadal tem 15) — ele que não ganhava um desde... 2012.

(O final de) um belo 
conto de fadas

Se, em janeiro de 2016, quando Federer escorregou na casa de banho a preparar o banho dos filhos e acabou por ter de ser operado ao menisco, alguém dissesse que ele seria o grande favorito a conquistar este último Grand Slam da época, esse alguém seria visto como um lunático. Mas o reaparecimento de Federer tem sido um verdadeiro conto de fadas, que nem tem sido beliscado por aquele confronto que habitualmente o deixava sempre mal visto. Isto é, uma das grandes constantes da carreira de Federer tem sido a superioridade de Nadal nos duelos diretos entre ambos — 14 vitórias para o suíço, 23 para o espanhol. Mas nos últimos quatro confrontos houve quatro vitórias para Federer.

“Estou a passar por um belo período”, garante ele, que, curiosamente, nunca defrontou Nadal no Open dos EUA. Será este ano? É provável, mas, ganhe ou perca, Federer não quer ouvir falar de fadas. “Não quero saber dessa conversa. Parece que toda a gente quer contos de fadas, especialmente a imprensa, e se não ganhares é: ‘Ó, meu deus! O conto de fadas não aconteceu!?” Esqueçam as fadas. Fiquemos com o bode.