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Del Potro: a torre que nunca vai abaixo, o homem que nos tirou o docinho (mas nós não nos importamos)

Ultrapassar a febre, Thiem e agora Federer. Juan Martín del Potro, o homem das sete vidas, está nas meias-finais do US Open depois de afastar o suíço e a possibilidade de um primeiro duelo entre Federer e Nadal em Nova Iorque

Lídia Paralta Gomes

DON EMMERT/Getty

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Vamos lá a contas. Quantas vezes Roger Federer e Rafael Nadal jogaram um contra o outro ao longo dos últimos 13 anos? A resposta certa é 37. Dessas, quatro foram no Open da Austrália, quatro na final de Roland Garros e três na final de Wimbledon. E no US Open? Nem um encontro para amostra, zero, nicles batatóides.

Num US Open particularmente estranho no que ao quadro masculino diz respeito, não só pela ausência de Novak Djokovic, Stan Wawrinka, Andy Murray, Kei Nishikori ou Milos Raonic (uff, tantos), mas também, causa-consequência, por uma das partes do quadro ser bem mais forte que a outra, muita gente roía as unhas à espera que 2017 fosse o ano do primeiro 'Fedal' (o duelo é tão importante que até já se arranjou uma palavra composta para dele falar) em Nova Iorque.

Até porque o público de Flushing Meadows já tinha estado perto de ver um 'Fedal' por cinco vezes: em 2008, 2009, 2010, 2011 e 2013. O duelo ficou sempre a uma derrota de um dos dois de acontecer. Aliás, em 2010 e 2011 esteve a dois match points de Federer de acontecer.

É desta, pensámos todos. Mas não. Porque há uma torre que nunca vai abaixo.

Depois de ter estado quase a desistir no 2.º set do encontro da 4.ª ronda com Dominic Thiem, vermelho e suado de tanta febre que tinha, de ter cerrado os dentes e vencido o austríaco em cinco sets, Juan Martín del Potro bateu Roger Federer na madrugada de quinta-feira, com parciais de 7-5, 3-6, 7-6(8) e 6-4. A Torre de Tandil, como é conhecido o argentino - culpa do seu 1,98m -, roubou um lugar ao suíço nas meias-finais, roubou o primeiro 'Fedal' nova-iorquino, mas tudo por mérito próprio.

Tal como na final de 2009, o ténis poderoso de Del Potro, de 28 anos, ganhou o braço de ferro ao talento puro de Federer e fez pulsar ainda mais o caso de amor entre o argentino e Nova Iorque, onde venceu o seu único torneio do Grand Slam da carreira. O único porque Juan Martin del Potro já teve de ultrapassar bem mais do que um episódio de febre para aqui chegar.

Delpo, o bem-amado

Federer, pelo que joga, pelo que já ganhou e ganha, por ser um gentleman no court e fora dele, tem em qualquer estádio o público a seu favor. Só há um tenista que rivaliza com o suíço. E esse tenista é Juan Martín del Potro.

Aquele abraço a Federer, que volta assim a falhar um encontro com Nadal no US Open

Aquele abraço a Federer, que volta assim a falhar um encontro com Nadal no US Open

Abbie Parr/Getty

“Acho que toda a gente aprecia o esforço que fiz para voltar a jogar ténis, depois de todos os problemas que tive no pulso. O público gosta de alguém que não se dá por vencido”, respondeu o argentino quando lhe perguntaram o porquê do público estar sempre do seu lado.

Assim é: não há nada que um humano goste mais do que uma boa e bem sucedida história de superação.

Entre 2014 e 2016, Del Potro mal conseguia pegar numa raquete. As dores no pulso esquerdo não deixavam e cada tentativa de regressar à competição era um calvário. Foi operado pela primeira vez em fevereiro de 2014. Não resultou e voltou à sala de operações em junho do ano seguinte. Por essa altura chegou a pensar que nunca mais conseguiria recuperar.

Começou 2016 no lugar 1045 do ranking mundial. E depois de uma primeira parte da temporada a ganhar ritmo, os últimos meses foram de sonho. Em junho bateu Stan Wawrinka em Wimbledon, na altura 4.º cabeça-de-série. Em agosto, nos Jogos Olímpicos do Rio, foi medalha de prata: bateu o número 1 do mundo Novak Djokovic na 1.ª ronda e Rafael Nadal nas meias-finais. Mesmo no Brasil, onde os argentinos não são propriamente amados, era o favorito do público na final, que perdeu para Andy Murray.

No mês seguinte chegaria aos quartos-de-final dos US Open, para em outubro conquistar o primeiro título desde o regresso à competição, no ATP de Estocolmo.

A última competição da época traria o melhor momento do ano, o triunfo na final da Taça Davis, o primeiro para a Argentina e no qual Del Potro foi essencial: a perder por 2 sets a 0 frente a Marin Cilic e com a Croácia em vantagem por 2-1, a Torre de Tandil deu a volta, venceu o encontro em cinco sets e empatou a final, que a Argentina acabaria por ganhar por 3-2.

Del Potro com o presidente da Argentina, Mauricio Macri e o troféu da Taça Davis

Del Potro com o presidente da Argentina, Mauricio Macri e o troféu da Taça Davis

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O ano de 2017 havia sido mais modesto em termos de grandes feitos. Até chegarmos ao US Open, onde Del Potro parece sempre ter uma mudança a mais, uma réstia de força quando tudo parece estar prestes a desmoronar. É no Arthur Ashe Stadium que Del Potro se sente um gato com sete vidas.

Após a vitória épica frente a Dominic Thiem, o argentino admitiu que pensou abandonar “antes e durante” a partida. “Continuei a jogar porque era este torneio. Mas não estava bem, não conseguia respirar ou mover-me bem”, admitiu.

Numa altura em que o futebol não dá grandes alegrias aos apaixonados argentinos, é Del Potro que levanta a moral do país de Maradona. “Dois ou três com o coração de Delpo na seleção e não teríamos muitos problemas”, escreveu o antigo avançado Mario Kempes no Twitter após a vitória do compatriota na última madrugada frente a Federer. Uma vitória que lhe vale a primeira meia-final em torneios de Grand Slam desde que deixou para trás o calvário das lesões, a vitória que lhe vale um encontro com Rafael Nadal.

E só ele, Del Potro, a torre que nunca vai abaixo, nos faria ficar felizes porque não termos um Federer-Nadal sob as luzes de Nova Iorque.