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Rafael Nadal, a besta

Rafael Nadal superou Kevin Anderson em três sets (6-3, 6-3, 6-4) na final do US Open. Assim, o espanhol que caiu empurrado por lesões, tirou um tempo e reapareceu, o senhor top spin, o incansável que devolve a bola sempre mais difícil do que como lhe chega, venceu o 16º torneio do Grand Slam da carreira - e engrandeceu um pouco mais a sua lenda

Diogo Pombo

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Não é suposto que um humano esteja tão perto, na aparência figurativa, de uma girafa. E que, do alto de uns 2,03m em altura, tenha uma raquete na mão. É morfologicamente ainda mais estranho se tiver que acertar com uma pequena bola, seis centímetros e tal de diâmetro e nem 70 gramas de peso, nos limites de um court de ténis. O mais encostado às linhas que lhe seja possível. E lá está o gigante, sul-africano, forte, musculado e pesado Kevin Anderson, a contrariar tudo quando são leis para chegar à final do US Open.

Ele está contra a natureza, a física, a lógica, as probabilidades.

É um gigante que aceitou o que a genética lhe deu e que joga de acordo. Um serviço brutamontes, com ângulos e velocidades incríveis, uma direita canhão, uma força em tudo para acabar cedo com os pontos ou avançar para a rede caso eles tardem a acabar. O problema do homem mais alto a aparece na final de um Grand Slam e com menos ranking (32º) na decisão do US Open não é outro homem, quem ele obriga a esperar pelos seus serviços quase três metros atrás da linha de fundo do court.

Rafael Nadal é um monstro.

A pior resposta que um tenista como Anderson pode ter é um tenista responder-lhe às bolas-míssil que lança com bolas ainda mais difíceis, o que é o ofício do espanhol. Nadal, o espanhol que parece não se cansar, dono do pulso mais maleável e fabricador de um top-spin que apenas ele doma, sofre, sim. Mas consegue arranjar forma de lidar com as bolas que, servidas pelo sul-africano, chegam velocidades que nem muitos carros atingem.

O matulão big server só consegue fechar os seus jogos de serviço nas vantagens. É incapaz de encurtar os pontos. Faz Nadal correr de um lado para o outro, vê-o a chegar a todas as bolas. E o espanhol, vencedor de 15 torneios majors em 22 finais jogadas, a quem talvez o único defeito apontado em 31 anos fosse o serviço, irregular e potente q.b., a fechar jogos em que não acerta um primeiro serviço. Nadal entra dentro da cabeça de Kevin Anderson com os challenges que pede a torto e a direito.

DON EMMERT

Anderson precipita-se, hesita numa bola que acredita ir fora e cai dentro, vai à rede sem ímpeto, falha no volley em que, apesar da sua altura, não é especialista. Após quase 50 minutos, o espanhol quebra-lhe o serviço (4-3) que ele só deixara ser quebrado cinco vezes até à final. Esse break é entendido por Rafael Nadal como um sinal para accionar um modo, ligar-se a um estado que só ele, o pior adversário que alguém pode ter, sabe estar.

Ele, Nadal, fica uma besta.

Começam os winners de esquerda e direita, as respostas do outro mundo, os passing shots fazem da presença de Anderson na rede uma simples burocracia. O espanhol fecha o primeiro set (6-3) com outra quebra de serviço e arranca, depois, com um jogo em branco.

Não é que Anderson jogue mal, porque o sul-africano comporta-se bem, bate a bola com força, consegue bons ângulos de pancada, obriga Nadal a correr. Só que o espanhol corre, sempre alcança a bola e, mesmo que lhe chegue à rasca, devolve-a mais difícil do que lhe chegou. Anderson até consegue diminuir o número de pontos que por cada jogo de serviço seu - são quase o dobro dos jogos de Nadal, no primeiro set -, mas é impotente quando é o espanhol a servir. Quem diria, o senhor dos tiques, da mão a ir ao calção, às duas orelhas e ao nariz pelo meio, mecânica repetida obsessivamente antes de cada serviço, a variar com efeitos e slice as bolas que serve.

Nadal, aos poucos, distribui a coleção de pancadas alinhadas com os sítios mais improváveis do court e castiga Anderson por qualquer bola menos puxada, menos potente, mais duvidosa. Cada vez que o espanhol vai à rede, ganha o ponto, literalmente. O sul-africano, viciado crónica em servir à grande e subir à rede de seguida, perde metade dos pontos em que o faz.

O segundo set volta a ser de Rafa (6-3) com dois breaks e uma naturalidade ainda mais aparente. Os mesmos parciais, um vale cada vez mais cavado entre os dois tenistas (58 minutos de duração no primeiro set, 39 no segundo).

Al Bello

As palmas de um estádio obeso de gente vão-se ouvindo menos, ficando mais tímidas, à medida que a consciência coletiva percebe que a final será curta. Não épica, mas um atropelo. Não uma batalha, antes um desequilíbrio.

Nadal não é benevolente e volta a quebrar o serviço a Anderson logo ao primeiro jogo do terceiro set. O que tem de ser parece, mesmo, ter muita força, e o tenista que é muito melhor que o outro, no papel, acentua essa distância no court. Vai servindo como quem está certo que é capaz de ser o que nunca foi - um servidor de excelência - enquanto, do público, chegam gritos de incentivo a Anderson. Toda a gente sabe que não haverá cinco partidas com Nadal a jogar assim.

Parece tão inevitável, um quase nada a fazer, de encolher os ombros e pensar em desfrutar, que o sul-africano solta-se, com os minutos. Não é tão duro com ele próprio quando erra, arrisca mais, começam-lhe a sair as direitas e esquerdas paralelas e encostadas às linhas. Tem o melhor jogo de serviço, em branco, quando reduz a desvantagem (2-3) e faz Nadal parecer um bocadinho mais dócil. O encontro já vive há mais de duas horas. Anderson encaminha-se para o seu fim, jogando melhor, mas incapaz de a dois pontos ganhos impecavelmente fazer suceder outros pontos semelhantes.

Numa palavra - é inconsistente.

O contrário de Nadal, que à consistência estável junta a intensidade, o jogo de pés de uma bailarina, a esquerda cirúrgica e potente, as idas à rede vitoriosas, a concentração impenetrável, e tudo mais. Kevin Anderson joga contra um dos melhores de sempre: um competidor para quem competir é tudo na vida e existe num nível de ténis do qual teria de tropeçar, e o sul-africano ascender, por obra e graça divina, para ser derrotado nesta final.

O ténis, a mais individual das modalidades, há anos que vive do que Nadal, Federer, Djokovic e, a espaços, Murray, fazem. E esses quatro tinham ganhado 45 dos últimos 50 torneios do Grand Slam, uma série na qual apenas três tipos (Del Potro, Cilic e Wawrinka) se intrometeram, tenistas melhores, que tremem menos, com mais mãos, mais técnica e hábito a estas coisas do que Kevin Anderson.

Nadal vai à rede buscar o 16º major da carreira, com um volley e, depois, os braços erguidos e face voltada para o céu. Não se deita e espreguiça no court, alegre e exausto, aliviado e extasiante como é costume, pois esta final não foi costumeira e ganhou-a em três sets (6-3, 6-3, 6-4) não muito complicados, ao contrário de 2013, última vez que conquistara o US Open.

Ele, que teve um ano anterior a empurrá-lo para baixo, cheio de lesões e respetivas desmotivações e piorias de jogo, tirou um tempo, recuperou-se e está a ter um 2017 como o Rafael Nadal de sempre. A besta competidora, um exemplo, com uma intensidade e físicos anormais para alguém que conta tanta técnica nas mãos e pulsos para lidar com qualquer bola que atirem para o seu lado.

Como se viu esta noite.

Elsa