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Uma janela para entendermos o que há dentro da cabeça de Kyrgios

Ele é o tenista de quem muito se espera, um talento inato, conquistador em potência de Grand Slams, que não tem recordes negativos contra Federer, Nadal ou Djokovic. Mas que refila, protesta, diz que não gosta assim tanto de ténis e, aos 22 anos, vai desperdiçando o talento devido à cabeça que (não) tem. Mas Nick Kyrgios escreveu um texto para percebermos o porquê de o australiano ser como tem sido

Diogo Pombo

Ben Hoskins

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Dentro do desporto cabem muitos desportos, uns que nada têm a ver com os outros, mas há um molde de história que é mais ou menos igual em todo o lado. Um humano nasce, percebe cedo que tem muito jeito para algo - um fascínio, também serve -, e começa a trabalhá-lo cedo; joga, treina, tenta, falha, vai tentando e falhando melhor, já dizia Samuel Beckett, e passa horas incontáveis a fazer o que gosta, trabalhando no duro, sacrificando tempo com família, amigos, lazer e outros prazeres da vida, para ficar bom e sempre ir melhorando no que escolheu fazer.

É daqui que vêm Michael Jordan, Ayrton Senna, Nadia Comaneci, Michael Phelps, Usain Bolt ou Mohammed Ali, exemplos de atletas que tudo deram para nós darmos tudo para os vermos.

Todos eles tinham um jeito e aptidão inatos, ou pelo menos especiais, aos quais juntaram uma mentalidade devoradora de competição, uma fome de ganhar, de serem os melhores, de se elevarem ao ponto de, num dia bom, ninguém ser capaz sequer de lhes beliscar.

E é assim que chegamos a Nick Kyrgios.

Ben Hoskins

É um tenista australiano, dono de pancadas de direita e de esquerda fortíssimas, capaz de bater bolas de qualquer sítio de um court de ténis para um qualquer ponto do outro lado da rede, sem que o adversário lhe chegue. É atlético, forte, ágil, rápido, com muita técnica, poucos pontos fracos e um jeito anormal. E só tem 22 anos.

Durante tão escassa existência, consegue não ter um recorde negativo, em jogos, com Roger Federer (2-2) ou Rafael Nadal (2-2) e ainda estar imune (2-0) a Novak Djokovic, três tenistas que, juntos, têm 47 torneios do Grand Slam e que são dos melhores de sempre nestas coisas da raquete. As tais grandes coisas que cedo se esperou que Kyrgios estivesse destinado a inventar, não fosse um dos poucos pontos fracos do australiano ser enorme e, porventura, insustentável - a cabeça.

Uma pessoa que não trabalha, que não é regrada nem metódica como deveria; que não investe tempo deixar de desaproveitar as dádivas que a vida lhe deu para o ténis; que amua durante os jogos, deixa de disputar pontos, é multado, refila com os árbitros, vira-se contra os fãs do ténis, e diz que não gosta de ténis e outras coisas como “ninguém vos obriga a comprar bilhete para me virem ver”.

Kyrgios, no fundo, é um bad boy, um miúdo cheio de talento que se importa menos do que nós quanto ao que pode fazer com ele. Ou era, porque não conhecíamos o que ele escreveu, esta quinta-feira, no Players’ Voice, um site para desportistas australianos desabafarem e revelarem o que pensam.

Richard Heathcote

A única linha em que não nos dá uma novidade é a primeira, na qual admite que não tem sido “o profissional que o ténis precisa que seja”.

O Nick Kyrgios que o australiano nos mostra ser é um rapaz que preza os tempos em que não está no court, para estar em casa, com a família, jogar consolas com os amigos, viver em Camberra, na Austrália, e desfrutar da de uma “vida normal” com quem mais gosta. Isso fá-lo feliz e “não seria a pessoa mais feliz do mundo” se ganhasse um Grand Slam, porque trata o ténis como aquilo que é:

“Apenas um jogo” e algo “não muito importante no quadro geral das coisas”.

Ele pensa assim desde que a avó faleceu, há dois anos. Fora uma mãe para ele em criança, durante os muitos mais anos em que a mãe se dividia em aviões entre Camberra, Sydney e Melbourne por causa do trabalho. Levava-o a jogar ténis num “carro hippie” pintado por eles, cuidava dele, por vezes dormia na mesma cama que ele, até os amigos de Nick a viam como uma mãe. Kyrgios não passou o tempo que quis com a avó por culpa do ténis, lamenta-o, sofre por causa disso.

É um facto que “[o] atormenta” nos últimos dois anos.

O que mais gosta é de estar em casa e “ser normal”, ter o dinheiro suficiente para viver nessa normalidade, sem desejar “dinheiro em excesso”. Sempre gostou, mas, antes de perder a avó e de realizar o que realizou, Kyrgios adorava o circuito. “Era inacreditável, que vida tão boa, desfrutava-a mesmo”.

O australiano adora ganhar, vinca-o no texto, abomina perder e chateia-se quando tal acontece. Se estiver “com o quadro mental certo”, com a “motivação lá em cima”, defende ser “imbatível”.

Como este ano, em que ganhou dois encontros seguidos a Novak Djokovic num estado que, diz ele, coloca todos os jogos “na [sua] raquete e o resultado a depender dele”.

O problema é a motivação e o que mais a afeta é a imprensa. O que se diz, escreve e relata sobre ele: as lesões que sofre; as dúvidas sobre as vezes em que estas o obrigam a desistir; a tinta cor-de-rosa sobre a sua ida a uma discoteca, pós-Wimbledon, "como se fosse um crime"; a câmara oculta que o filmou a atirar uns cestos, durante cinco minutos, com os amigos, às 3h da madrugada, em Camberra (adora basquetebol, já o confessou antes).

“Sou uma pessoa muito privada, não gosto que as pessoas saibam coisas sobre mim. Odeio, por completo, ter uma vida pública. Não gosto mesmo nada”, escreveu.

Richard Heathcote

É daí, e de tudo o que tem sentido no último par de anos, que vem a batalha que leva dentro. “Há um conflito constante entre o competidor que há em mim, que quer ganhar, ganhar e ganhar, e o humano que só quer viver uma vida normal com a família, longe do brilho público”.

É por isso, quando não está em torneios, a competir, que não treina, ou bate bolas, ou vai ao ginásio ou tenta melhorar como deveria.

“Não evoluo da maneira que devo porque não o quero o suficiente.”

O texto acaba com o australiano a garantir que pretende começar o próximo ano como arrancou este, a vencer, motivado, a ser melhor que grande parte dos adversários. Garante que está a centrar o foco nisso.

Se, entretanto, deixar de o fazer, continuará a ser Nick Kyrgios: o número 20 do mundo, um conquistador de Grand Slams em potência, o diamante em com técnica e um tenista por demais sortudo por ter tantos genes bons para o ténis que acha que “isto é só um jogo”.

Que tipos como ele “apenas atiram a bola sobre uma rede”.

  • Nunca pensámos escrever isto: Kyrgios, o good boy

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    Nick Kyrgios é um tenista que tem tanto talento como polémica. O australiano, de 21 anos e 16.º do ranking ATP, já criticou árbitros, refilou com adeptos, desistiu de pontos a meio de jogos e até confessou que não adora ténis e que prefere basquetebol. É capaz de já ter sido assobiado tantas vezes quantas as que foi aplaudido, mas, agora, provou que também tem fair-play - e até quis ver se o momento ia “aparecer nas redes sociais”

  • Depois da multa, a suspensão. Atina, Kyrgios

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    Nick Kyrgios já tinha sido multado em €15 mil por ter perdido pontos de propósito em Xangai, mas agora a ATP foi mais longe: suspendeu o tenista australiano até janeiro. Mas há uma maneira de Kyrgios voltar antes aos courts