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O príncipe Nadal a falar sobre a vida

Rafael Nadal concedeu uma entrevista ao "El Español" que não foi uma entrevista normal a um desportista: foi uma conversa sobre o homem por trás da lenda, a vida que esse homem leva e o que esse homem, que é um um dos melhores tenistas de sempre, pensa e acha dos mais variados temas

Diogo Pombo

Clive Brunskill/Getty

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Aqui na redação da Tribuna Expresso costumamos fazer uma coisa que, provavelmente, não deveria estar a contar (perdoa-me, Lídia Paralta Gomes).

Chamamos “príncipe” ao melhor tenista de sempre, porque o é, mesmo que não conheçamos, ou tenhamos visto, todos os que já jogaram ténis. Mas este tenista já ganhou 19 torneios do Grand Slam, ganha a toda a gente e qualquer pessoa ganha ao vê-lo jogar. Aos 36 anos, ele não tem pontos fracos no seu jogo, é elegante a jogar, ninguém o vence no estilo, é educado para toda a gente, nunca foi polémico, sempre é simpático e sabe comportar-se - o sorriso, a roupa, a postura, as palavras - em qualquer ocasião em que o põe. Essa tenista é Roger Federer, o Príncipe Federer.

Nós, por aqui, não costumamos chamar príncipe a mais alguém. Nem a Rafael Nadal, a contraparte espanhola de tudo o que o suíço é, um tenista educado, composto, que mantém a postura onde, e como seja, que reúne tudo o que se exige a um senhor. Ele tem 16 torneios do Grand Slam conquistados e um mano-a-mano com o príncipe que o favorece, desde sempre (23-14, em vitórias). E é um azarado como Federer nunca o foi na mesma medida, porque os joelhos, os pulsos e as costas o atormentaram ao ponto de lhe gabarmos a capacidade de, aos 31 anos, ter voltado a vencer majors e retornado à liderança do ranking.

Mesmo assim, não lhe chamamos príncipe.

Mas, talvez, devêssemos. Porque, lendo a entrevista que Rafael Nadal deu ao "El Español" e ao jornalista Rafael Plaza, a forma como a deu - eloquente, culta, honesta, descontraída, direta - é uma amostra de como o homem por trás de um dos melhores tenistas de sempre é capaz de ser bem melhor do que a pessoa que segura a raquete no court. Aqui ficam algumas das coisas que Nadal disse sobre muitas coisas fora do ténis. O Príncipe Nadal.

MICHAL CIZEK

Ele é quem é e isso nunca lhe subiu à cabeça

“Não sei como explicá-lo muito bem. Está um pouco relacionado com o lugar de onde vens, com a educação que recebeste e com as pessoas que tens ao lado. Cresci num ambiente muito normal e continuo a viver da mesma forma. Se isso não me aconteceu com 19 anos, quando tudo apareceu de repente e corria o risco de isso me superar, com 31 anos, muito menos. Depois de tudo o que vivi não creio que chegue um momento em que isso possa ocorrer. Sempre encarei as coisas com tranquilidade, quando era um adolescente e agora, que já não o sou.”

E ele, sendo quem é, não se sente um modelo para muita gente

"Sou uma pessoa normal e corrente, não sou modelo de nada. Sou uma pessoa que joga bem ténis. Cometo erros, como toda a gente. Não fui um modelo em criança e parti pratos como toda a gente. Claro que fiz coisas que a minha mãe não terá gostado e continuo a fazer coisas das quais a minha mãe não gosta. Vou partindo pratos, mas sou uma pessoa normal, igual a todas as outras.”

Vá, a sério? É que nem o jornalista do El Español acreditou

“Sou consciente de que a minha fama não é por ser o Rafa Nadal, é pelo que o Rafa Nadal fez no ténis. Sei tudo tem um prazo de caducidade. Tento não acreditar que isto é o normal, ou que vai ser algo para a vida. O melhor é não levantar voo porque as pessoas querem estar perto de ti, mas não pelo que és, nem pelo que dizes. É, simplesmente, por o que o meu trabalho me levou a fazer, pelo que consegui dentro de um court de ténis.”

A preocupação que sente em não passar uma imagem de arrogância

“Não tenho medo que as pessoas pensem que sou arrogante, teria medo se as pessoas que me rodeiam o pensassem. No final, as pessoas que está fora [do teu círculo] foram uma imagem a partir do que podem ver, mas, realmente, não nos conhecem. Claro que, a nível mediático, é infinitamente melhor ter uma boa imagem. Gostava de ser recordado como uma boa e educada pessoa. O mais importante é que os meus, os que têm uma convivência diária comigo, falem bem de mim.”

O que pensa Nadal da falsa humildade

“As pessoas que têm falsa humildade… há um determinado momento em que se descobre. É algo que não se pode esconder a vida toda. Há momentos de tensão em que saem coisas, a verdadeira forma de ser ou de atuar. Mas também te digo uma coisa: as pessoas com falsa humildade têm algo de positivo, porque sabem perfeitamente o que é o correto. Apesar de não o sentirem, ao menos são capazes de reconhecer o que está bem e o que está mal. Isso já é um passo.”

Os milhões que se gastam nas compras do futebol

“Suponho que sim, tudo é uma loucura, mas também há algo que é certo. Onde está a loucura e onde deixa de haver loucura? Onde está o bem e onde está o mal? O que é eticamente correto e o que não é? São linhas que nós traçamos e seguramente que a tua linha não é igual à minha. Não está claro onde está o correto e o incorreto. Nós marcamos essas linhas e depois falamos, mas sem sabermos se temos, ou não, razão.”

A ténue fronteira entre o fanatismo e o radicalismo

“Há sempre que ter a mente aberta para analisar as coisas e saber que quando há um problema, ele não vem só de um lado. Acontece o mesmo quando há problemas no mundo do futebol com os adeptos que cometem autênticos desastres. Para mim, pode-se viver com o máximo de emoção sem chegar ao radicalismo. Eles existem muito próximos em todos os âmbitos da vida. Não se pode separar o que acontece no futebol com o jihadismo e a Catalunha. Tudo tem um denominador comum: o radicalismo. O radicalismo cria problemas em todos os âmbitos da vida.”

  • Rafael Nadal, a besta

    Ténis

    Rafael Nadal superou Kevin Anderson em três sets (6-3, 6-3, 6-4) na final do US Open. Assim, o espanhol que caiu empurrado por lesões, tirou um tempo e reapareceu, o senhor top spin, o incansável que devolve a bola sempre mais difícil do que como lhe chega, venceu o 16º torneio do Grand Slam da carreira - e engrandeceu um pouco mais a sua lenda