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Mais e mais amor para (o problema mental de) Djokovic

Em julho ficámos a saber que o vencedor de 12 torneios do Grand Slam não joga mais ténis este ano. Uma lesão no cotovelo parou Novak Djokovic, embora a cabeça do sérvio já estivesse a parar e a mudar, há algum tempo. Ele tornou-se alguém que “se aceita, se respeita e tem amor para partilhar com os demais”, diz Pepe Imaz, espécie de guru de auto-ajuda que o acompanha

Diogo Pombo

OSCAR DEL POZO

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A vida recente de Novak Djokovic, e por recente escrevo este último ano em que ele palmilhou a Terra, tem sido diferente, conturbada, inusitada.

O sérvio frio e cínico nos ataques e respostas, calculado e controlado, bem-disposto por natureza, poliglota e com cavalheirismo de bom perdedor, foi ganhando durante muito tempo até chegar aos 12 torneios do Grand Slam. O carisma de sempre estar composto nunca lhe chegou para ser o preferido dos aplausos e apoios em qualquer court, porque divide uma era com Federer e Nadal. Por muito que sua natureza incansável, mecânica e atlética ao ponto de se esticar em espargatas para alcançar bolas impossíveis o deixasse 223 semanas como o melhor tenista do planeta, com aura de imbatível, algo, às tantas, mudou.

O momento em que Djokovic, por fim, levou o melhor do pó de tijolo para casa e reinou em Roland Garros, em 2016, empurrou-o para baixo. Os resultados começaram a piorar, as lesões e problemas físicos e queixas durante os jogos a sucederem-se, o outrora dono de uma perfeição quase robótica ia sendo falível. A fragilidade crescente traíram-no à terceira ronda de Wimbledon, na final do US Open e à segunda eliminatória do Open da Austrália, até não passar dos quartos-de-final nos major da relva e da terra batida, já este ano.

Deixou de ser o número um e, pelo meio, em entrevistas e confissões, dizia-nos que o ténis é o objetivo de vida, mas já não a prioridade desde 2014, quando nasceu o primeiro filho. Que adora isto de ter uma raquete para bater numa bola, paixão e talento que, contudo, já não governavam na sua cabeça, incapaz de “dividir o eu como tenista profissional” do “eu como pai, marido, filho, irmão e amigo”.

Separou-se do treinador, preparador físico e fisioterapeuta de uma década, com quem ascendeu, contratou outras pessoas e deu-nos a entender que o problema dele, mais do que o físico e o cotovelo que, em julho, o pararam até 2018, é mental.

Pepe Imaz, à esquerda, ao lado de Marko Djokovic, irmão mais novo de Novak.

Pepe Imaz, à esquerda, ao lado de Marko Djokovic, irmão mais novo de Novak.

MIGUEL MEDINA

E esse é o lado em que Pepe Imaz tenta mexer.

É um ex-tenista espanhol, deixado de o ser aos 23 anos, quando a sua cabeça, afetada por um divórcio precoce dos progenitores e um pai falecido tinha ele 7 anos, o atormentava. Ele era bom, chegou ao top-200 do ranking, mas jogava apenas para se sentir querido e adorado, batia bolas para os elogios e o calor dos bem dizeres. Quando os resultados não correspondiam ao que outros esperavam dele, ficava triste, depressivo, tão em baixo que começou a ser bulímico. “Enchia o vazio com comida e vomitava-a logo. Não me respeitava e, com livros de auto-ajuda, percebi que precisava de me amar”, confessou, em entrevista ao diário “As”.

O peso da cabeça fê-lo cair e o controlo que aprendeu a ter sobre a mente levantou-o. Isso, com o tempo, levou-o até Novak porque, no meio, conheceu Marko, o irmão. Há sete anos, ele encontrou-se com outro tenista espanhol num torneio Futures, na Grécia, que lhe falou de Pepe Imaz por o ver tão deprimido e desalentado. Marko Djokovic viajou até Marbella, onde já exista a Amor e Paz, a escola criada por Imaz para dar a meditação, os abraços e “acompanhamento emocional, sem ensinar nada”, a tenistas.

O irmão gostou, ‘curou-se” e apresentou Imaz ao Djokovic mais velho e talentoso e melhor tenista da família.

O espanhol faz parte da equipa que segue o sérvio para todo o lado, de novembro a dezembro, companhia que o deixa numa posição privilegiada para falar no mais desaparecido grande tenista de hoje em dia. “Está muito bem, porque é consciente do que lhe acontece. Passou-se e já está. É uma pessoa muito objetivo, muito desperta, muito aberta a aprender, sem obsessão. Tem as coisas muito claras”, resumiu, sobre o estado anímico de quem deverá ficar três meses sem competir e, desde julho, nem tem tocado em raquetes.

GLYN KIRK

A espécie de guru de auto-ajuda que não gosta, nem entende, tal definição - “não sou maestro de nada, não ensino nem o quero fazer” - retrata Djokovic como uma pessoa “nada altiva”, que respeita os outros, generoso, e que hoje sente um bem-estar maior por ter mais respeito e aceitação.

Há rumores, porém, que culpam as meditações, os abraços e a paz e o amor de Imaz por Djokovic ter começado a passar menos tempo a treinar de raquete na mão. Foi o que se disse quando, em 2016, o tenista se separou de Boris Becker, seu treinador desde 2013, que se terá fartado de tanta espiritualidade a misturar-se com ténis.

Djokovic está agora num estado de “faça o que fizer, sente-se bem consigo mesmo” e Pepe Imaz diz que o sérvio já assim estava quando venceu Roland Garros, o ano passado. “Muita gente pensaria ‘tanto amor e [agora] perde’, mas já leva este caminho há anos, quando ganhava, agora aceita as situações, aprende com elas e entende-as”, explicou.

É uma argumentação quase etérea, uma forma existencial e algo filosófica de explicar coisas sobre o campeão do ténis que hoje parece ser muito mais mental, do que físico. Até ao Open da Austrália, o primeiro Grand Slam da próxima temporada, que se jogará em janeiro, a ideia é recuperar a cabeça de Novak Djokovic e que então o resto se volte a alinhar.

Pepe Imaz, vestido de camisola rosa, feita de linho, e um colar com um coração de ouro ao pescoço, acredita que o sérvio lá chegará. Porque “quando um se aceita, se respeita e tem amor, pode compartilhá-lo com os demais em qualquer situação”.

Mais e mais amor em, e de, Djokovic é o que se quer, portanto.