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Um ténis mais “rápido, atrativo e vanguardista”. Ou como as regras estão a ficar de pernas para o ar

O Next Gen Finals é o torneio de final de ano que reúne os oito melhores jogadores com menos de 21 anos, ocasião que a ATP escolheu para testar regras novas no ténis, muitas regras novas: sets passam a ser até aos quatro jogos, deixa de haver let ou vantagens na igualdade de pontos, o uso de olho de falcão é automático e retira-se os juízes de linha do campo

Diogo Pombo

Emilio Andreoli

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Denis Shapovalov e Jared Donaldson são dois tenistas, um canadiano e um americano. Como se dão bem, combinaram treinar juntos, em Milão, onde se está a jogar o NextGen ATP Finals, um torneio para fechar a época com os oito melhores jogadores nascidos a partir de 1996. Foram bater umas bolas, apurar a forma, conversar e coisas que tal, alegremente, até o treinador de Shapovalov, de repente, os interromper quando Donaldson foi buscar uma bola para repetir o serviço que tocara, ao de leve, na rede.

- Denis, acabaste de ganhar o ponto, mas nem tu, nem o Jared, se aperceberam. Têm que se habituar a isto, não se esqueçam.

As palavras terão sido mais ou menos estas, mas o que importa aqui é o facto de ambos os tenistas, criaturas de hábitos, se terem esquecido de que, no torneio para o qual estavam a treinar, já não ouviriam um “let”, palavra que o juiz de cadeira sempre diz para mandar repetir um serviço quando a bola toca na tela antes de bater na quadra. “Houve várias vezes em que não nos lembrámos do let. Acho que esta semana vai ser muito divertida”, confirmou, e prognosticou, o canadiano.

Shapovalov parecia entusiasmado, curioso até, para experimentar jogar ténis com o conjunto de novas regras que a ATP, entidade que manda no ténis, decidiu testar nele e nos restantes melhores novatos. Entusiasmo e curiosidade a que teve de juntar a boa memória, porque as mudanças são muitas e, em alguns casos, drásticas, como o facto de se deixar de jogar vantagens quando um jogo de serviço chega aos 40-40 - quem conquistar o primeiro ponto seguinte, ganha.

Eis algumas das outras, as que maior impacto têm no jogo jogado:

1. Um set é ganho por quem chegar primeiro aos quatro jogos e o tie-break realiza-se num 3-3;
2. Cada encontro é à melhor de cinco sets;
3. Há um relógio no court para cronometrar o tempo entre pontos, que não pode exceder os 25 segundos;
4. Deixa de existir o let, o ponto prossegue se, num serviço, a bola tocar na rede e cair dentro da quadra;
5. O olho de falcão passa a ser automática, os jogadores não o têm de requerer, e são eliminados os juízes de linha;
6. É permitido o coaching (treinar falar com o jogador) após cada set, através de um intercomunicador que os tenistas têm no banco.

São alterações esquisitas, algo drásticas, que tocam em coisas que o ténis tinha como garantidas há muito tempo, mas que a ATP justificou como meios para atingir um fim, que é o de tornar a modalidade “mais rápida, vanguardista e atrativa para a televisão”. Um último ponto que não cai no goto de toda a gente.

MIGUEL MEDINA

Porque quem enche os estádios dos torneios do Grand Slam, quem vibra com os tenistas e os faz vibrarem e reagirem a cada ponto, incendiados pelo ambiente, são as pessoas que não estão à frente da televisão. “Já se falava disto há algum tempo, de o foco passar a estar no tema da televisão. Pensa-se muito na televisão porque, afinal, quem paga? De onde sai o dinheiro para os anúncios e os patrocínios?”, lamentou Conchita Martínez, ex-tenista espanhola, ao "El País", embora, no fundo, entenda esta espécie de viragem de prioridades em que a ATP está a apalpar terreno.

Não esconde que está a alisar esse terreno numa estrada que torne a viagem mais agradável para quem gosta de ténis, mas prefere vê-lo a partir de casa, sem as coisas que, em parte, fazem dele um tipo de desporto tradicional, com as suas manias e maneirismos típicos - o aquecimento, as pausas entre pontos, os jogadores a acharem que a bola é fora quando foi dentro e a arriscarem no palpite.

Tudo o que a ATP quer reduzir, ao máximo: os jogadores passam a ter apenas cinco minutos para acordarem os músculos, os 25 segundos entre pontos são contados à vista de todos e não há direito a desafiar uma decisão do árbitro, porque as bolas fora e dentro são chamadas por uma voz accionada pelo olho de falcão.

Mas os jogadores que já jogaram, pelos vistos, gostam de como o jogo fica. “Muito mais intenso” porque um tenista “já não se pode descontrair de vez em quando”, defende Shapovalov, que também apreciou o facto de poder consultar estatísticas enquanto falava com o treinador. Fresco, divertido e inovador foram os termos que o russo Daniil Medvedev escolheu para falar da voz saída do sistema automático do olho de falcão. Karen Kachanov, seu compatriota, partilha o gosto, mas sugeriu que os árbitros gravassem antes a sua voz, “para ser sempre a mesma”.

Portanto, houve coisas boas, outras assim-assim, e outra má para quase toda a gente.

Antes de se ver todas estas alterações em jogo, e nesta demanda da ATP em querer inovar e captar atenções - porque Federer, Nadal e Djokovic não estão a ficar mais novos e são os principais ganha-pão no que diz respeito a mediatismo do ténis - resolveu-se apostar na cerimónia de apresentação do torneio. E a ATP teve a ideia de sortear os dois grupos da competição com algo parecido a uma passagem de modelos.

Resumindo, cada tenista tinha que escolher uma de oito modelos, cada uma com uma letra (A ou B) escondida, algures, no vestido, para depois desfilarem juntos perante os presentes.

Ora, uns tentaram sacudir a estranheza do momento com risos e gargalhadas desconfortáveis, outros não esconderam esse desconforto na postura contida, impávida e pouco natural com que se forçaram a participar na gala.

As críticas de sexismo e mau gosto apareceram em força nas redes sociais e a ATP acabaria por se desculpar pela ideia e, sobretudo, pela sua execução: “A intenção era integrar a rica cultura de Milão como uma das capitais de moda do mundo. Contudo, os procedimentos foram inaceitáveis e de mau gosto. Lamentamo-lo profundamente e garantimos que nada deste tipo será repetido no futuro”.

Eles podem estar a arriscar virar as regras do ténis de pernas para o ar, mas há coisas em que não convém inventar.