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O next big thing que já começa a ser grande

Zverev é o nº 3 do mundo, o mais novo do top 35 do ranking, uma espécie de “protótipo do jogador perfeito”, e vai disputar o ATP Finals, que começa domingo

Diogo Pombo

Alexander Zverev é o único jogador que este ano ganhou dois encontros a Roger Federer

FOTO Jerry Lai/Getty images

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Os pais são russos, mas ainda nascem na União Soviética, fria no clima e mais fria em tudo o resto. Às tantas, mudam-se para a Alemanha, um sítio onde a cultura, a forma de estar e as maneiras sociais são como as estereotipamos: frias. Saber que um tenista de 20 anos é filho destes pais, tem a herança gélida e uma vivência fria, equivale a deduzir, porque não há defeito mais fácil do que generalizar — no court, o provável era que ele fosse controlado, calculado e frio, claro. Não é.

Alexander Zverev é emotivo ou espontâneo ao ponto de achar por bem cometer um ato que o ténis pune como rude e indisciplinado. “O que há de tão terrível em partir uma raquete? Tens de mostrar emoção, de outro modo o desporto nada significa para ti”, opinou ao “Der Spiegel” sobre as vezes em que já atirou uma raquete contra o chão a meio de um jogo. Ele só quer “ser capaz de soltar a fúria de vez em quando” e não ser “um robô”, como “os árbitros querem” que todos sejam.

A confidência de Alexander bate de frente e em força — como as bolas batidas pela sua pancada de esquerda a duas mãos, mecânica e poderosa — com as outras coisas que já disse, essas sim frias e calculadas, como a reação aos elogios de Roger Federer e Rafael Nadal, que o consideraram o futuro do ténis, o nº 1 à espera de acontecer: “Tento prestar a menor atenção possível a pessoas que não fazem parte da minha equipa.” Passing shot.

Uma postura que vem de tudo o que ele foi antes de começar a ser o que é neste momento: o terceiro melhor tenista do ranking mundial; o mais novo entre o top 35; a única pessoa deste planeta a poder gabar-se de ter provocado metade das derrotas que Roger Federer, o melhor de sempre, já sofreu este ano (apenas quatro, já agora). E o miúdo que Pedro Carvalho, especialista em ténis da Academia dos Champs, descreve como “o protótipo, não ideal mas muito perto, do jogador perfeito para a atualidade”.

Porque Alexander, Sascha para os amigos, é alto (1,98 m) e forte (86 kg) e anormalmente coordenado para o tamanho que tem. Até aos 12 anos praticou futebol e hóquei no gelo, tanto e tão bem quanto praticava ténis. Chutar uma bola e dar ‘sticadas’ num puck ajudaram-no, porque o que a genética dá em altura costuma tirar em agilidade, e foi bom deixar Sascha diversificar-se. “São modalidades com um baixo centro de gravidade. Ensinaram-me a estar em baixo o tempo todo, a mudar de direção rapidamente”, confirmou o alemão ao “New York Times”.

Nesse ágil, esguio e veloz corpo, Zverev tem o serviço bombardeiro, a forte direita chapada e a poderosa esquerda a duas mãos, “uma coisa fora de série, do outro mundo, que causa desequilíbrios impressionantes”. Aptidões que lhe permitem “dominar grande parte dos adversários no fundo do court”, diz Pedro Carvalho, também comentador da SportTV. Mas antes de ter tudo isso já tinha a família. Ou a “envolvência”, como Pedro Carvalho lhe chama.

Alexander Zverev nasceu quando os pais já se tinham mudado de Sochi, no sul da URSS, para Moscovo, a capital, e por fim para Hamburgo, na Alemanha. A mãe e o pai eram tenistas profissionais, uma das avós também, e o pequeno Zverev cresceu com essa inevitabilidade, que mais inevitável ficou quando Mischa, o irmão dez anos mais velho, se tornou profissional em 2005.

Em criança, o pai viajava muito e ainda se ocupava com a vida de tenista, enquanto a mãe participava apenas em torneios locais para cuidar do filho. Irina aproveitou o tempo para ensinar os fundamentos do ténis a Sascha. “Acho que tenho uma técnica bastante boa, e o crédito é da minha mãe. A minha esquerda, em particular, é 100% devida à minha mãe”, garantiu. A família a transpirar ténis e a suar por ele “faz lembrar um bocadinho o que Nadal teve”, resume Pedro Carvalho, lembrando as entrevistas em que Zverev já disse, e redisse, que a mãe é a cola de tudo, apesar de os nervos não a deixarem assistir nos camarotes aos jogos do filho. Prefere ir dar passeios com o cão e ficar atenta ao telemóvel.

Nessa família também há Patricio Apey, “que treinou a Gabriela Sabatini e o Guillermo Coria e já foi empresário do Andy Murray”, um fisioterapeuta particular, que Zverev contratou à própria ATP. Há Juan Carlos Ferrero, ex-nº 1 do mundo e vencedor de Roland Garros, a treiná-lo a meias com o pai. E há Jez Green, preparador físico, que também trabalhou com Murray e que, na primeira vez que viu Zverev, disse: “Meu Deus, este tipo mexe-se com uma fluidez impressionante.”

Apesar dos seis títulos que já tem — ganhou dois Masters 1000 este ano —, Zverev tem de se mexer melhor em torneios do Grand Slam, onde nunca passou da quarta ronda. O ideal para ele seria vencer o ATP Finals, em Londres (12 a 19 de novembro), que reúne os oito melhores tenistas do ranking. Mas falta-lhe desbloquear essa parte mental, e se ainda não o fez não será por nervos: “Conheço o Djokovic e o Murray desde os 4 anos. Viajavam com o meu irmão para os torneios. Eu batia umas bolas com eles. Mais tarde, quando os tive de defrontar como profissional, não fiquei imediatamente paralisado com medo, como outros.”