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O joelho é quem mais ordena dentro de ti, ó Nadal

Ele tentou, insistiu e coxeou, mas nada feito e a temporada, agora sim, acabou, porque o joelho, que é o seu pior inimigo, ordenou Rafael Nadal a desistir. O espanhol retirou-se do ATP Finals (é a sexta vez que uma lesão o retira de Londres), o torneio que junta os oito melhor tenistas do ano, pois "faz pouco sentido" jogar "se não tiver hipóteses de ganhar"

Diogo Pombo

Foi a 13ª vez que o espanhol se qualificou para o World Tour Finals, mas voltou a não ser capaz de vencer a competição (de novo, por causa dos joelhos)

Clive Brunskill

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Ele sente dor. O esgar que, de vez em quando, lhe rasga a cara não se esconde, muito menos a forma como coxeia entre os pontos. Está a jogar limitado, preso de movimentos e com a mente a bloqueá-lo e a fazê-lo hesitar pelas picadas de dor iminentes. Perde, embora dando luta (7-6, 6-7, 6-4) a David Goffin, tenista que não lha costuma pedir e, num dia normal, é em tudo inferior a Rafael Nadal.

Num dia em que o pior que o espanhol tem não decida importuná-lo.

Os joelhos, ambos ao mesmo tempo ou apenas um deles, como aconteceu esta segunda-feira, a doerem e a não deixarem em paz o tenista mais bruto, poderoso e com o estilo de jogo que mais exige ao corpo humano da última década. Rafael Nadal aguentou as dores até perder contra David Goffin, mas recusou-se a suportá-las mais tempo e desistiu do Tour Finals. Mais um ano, outra tentativa não conseguida do espanhol para vencer o torneio com que a ATP fecha a temporada. Nunca o ganhou.

É um torneio que ilude e finta o espanhol há 13 anos, a cada oportunidade. É a sexta vez que um problema físico o retira de Londres, onde se realiza esta competição, que lhe é muito querida. “Desde 2005 que o primeiro objetivo que traçamos para cada temporada tem sido a classificação para este torneio”, deu conta Toni Nadal, o tio e treinador de uma vida, no texto que escreveu para o "El País", a “escassos minutos” de o sobrinho partilhar court com o belga que o derrotou.

Essa partilha sucedeu porque Nadal assim o quis. Insistiu com o corpo e confiou na aptidão, marinada há muitos anos, de tolerar a dor enquanto joga. Mas a tendinite no joelho direito derrotou-o, mais uma vez. “Estou habituado a jogar com dor, mas, às vezes, a dor é superior ao que podes aguentar. Sabia que não me ia curar de um dia para o outro, mas tinha o compromisso comigo mesmo, e com os adeptos, de tentar”, disse, no final, explicando a desistência que anunciou mal entrou na conferência de imprensa que o esperava.

Ele tranquilizou a consciência e deu o que tinha, os 42 erros não forçados a mostrarem como o seu jogo pouco teve a ver com o verdadeiro Rafael Nadal. O espanhol intenso, do top spin arrasador e bruta força nas pancadas cujos joelhos - pelo quinto ano na carreira- voltaram a limitar. E a frenar, porque se “não tem hipóteses de ganhar o torneio” que ainda lhe escapa, “faz pouco sentido” continuar a jogar assim.

Nadal abandonou Londres, outra vez, sem uma vitória, mas lutou para ir, embora ciente de que deixou “uma imagem digna” dadas “as circunstâncias em que estava”. Além de ganhar um set a Goffin, ainda salvou cinco match points.

Vai de férias como número um do mundo, com vitórias em Roland Garros e no US Open e uma ressuscitação feita - “Foi um ano de sonho. Teria pagado muito dinheiro para ter a temporada que tive”. Ele não é rapaz que dramatize nas derrotas, ou que rejubile nos momentos que o tratem bem, e já sabia que jogaria com dores, não estaria a 100% e dificilmente competiria (como deve ser) com alguém.

Mas tentou até que o joelho, previsível, ordenou a paragem.

Fê-lo desistir e reconhecer que “hoje não está preparado para competir a alto nível”. Agora “vai para casa feliz” e tentar “fazer as coisas que não consegue” durante o ano, mas sem demoras, porque no final de dezembro já haverá torneios para se jogar. O ténis pouco descansa. Só falta que os joelhos dêem algum descanso a Rafael Nadal.