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Dimitrov: o Baby Fed saiu do berço

A vida de Grigor Dimitrov sempre foi a constante comparação com o melhor tenista de sempre, pela forma estilosa e natural com que bate uma esquerda ou um serviço. Ou as referências à sua vida amorosa, que já partilhou com Maria Sharapova. Mas ele, talvez o mais talentoso tenista a vir ao mundo depois de Federer, Nadal e Djokovic, o búlgaro que pinta quadros e desenha roupa nos tempos livres, venceu o ATP Finals, já é o número três do ranking e está, finalmente, a fazer jus ao seu potencial

Diogo Pombo

Naomi Baker

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No vídeo que se segue há um senhor sentado ao piano e três tipos em pé, alinhados. Estão ali reunidos para darem voz a uma canção e por terem algo em comum, para lá da forma desafinada, sofrível e forçosamente teatral em que cantam durante pouco mais de minuto e meio:

Eles juntaram-se nesta paródia por serem tenistas, todos destros, que seguram a raquete com uma mão quando têm de bater uma bola que lhes vá para o lado esquerdo do corpo. Pertencem a uma espécie incomum num desporto que, com a evolução, vai requerendo mais força e poder de uma pancada. Mas, neles, há outra coisa especial e não está em Tommy Haas, o alemão e mais velho dos três, que está ao meio - está entre Roger Federer, que sabemos bem quem é, e Grigor Dimitrov.

Porque, sem que alguém o quisesse, o suíço sempre limitou a carreira do búlgaro.

A história de Grigor é parecida à de tantas outras que se contam no desporto. O pai era treinador de ténis, a mãe uma jogadora de vólei tornada professora de Educação Física, aliança que antevia um destino provável à sua descendência. O filho seria desportista.

Aos cinco anos já praticava ténis todos os dias e puxava pelo talento com a labuta e a repetição de processos que o fazem florescer. Tanto era o jeito que, aos 12, deixou a Bulgária, passou uns tempos na Califórnia e acabou em Espanha, na Academia Sánchez-Casal, um rapazinho a delinear já o que pretendia fazer com a vida. “Bom, acho que até sou bom e quero continuar a fazê-lo. Vou dar uma oportunidade a isto”, lembra-se de pensar, na altura.

Ele era mesmo bom e melhor foi ficando, com o tempo. Com 14 anos foi campeão europeu, um mero feito, comparado com as vitórias em Wimbledon e no US Open, em juniores, que conseguiu passados dois anos. Grigor, um adolescente com 16 anos, chegava a número um da categoria e decidia virar profissional. O ténis, um meio atento, sedento por atenção e ávido navegador em estórias que possam atrair público, colou-lhe logo uma etiqueta.

Jogando ele como joga e ganhando o que ganhou, vem aí a próxima grande coisa.

Clive Brunskill

Dimitrov era como um protótipo, alguém que reunia quase tudo o que um tenista pode e deve ter. A direita, forte e colocada, garantia-lhe pontos. Um serviço fiável e potente batido por um tipo que viria a crescer até aos 1,91 metros. A esquerda a uma mão, versátil na capacidade de cortar a bola, batê-la chapada ou dar-lhe um efeito topspin.

Tudo junto num corpo ágil e elástico, esguio ao ponto de se esticar em espargatas para chegar a uma bola. E, sobretudo, tudo embelezado por um estilo elegante e bonito a jogar ténis, cheio de técnica, como se todas as pancadas fossem um suspiro natural de perícia. Era aqui se via um pouco de Roger Federer em muito de Grigor Dimitrov.

Começaram-lhe a chamar Baby Fed, um fertilização in court de um bebé que muita gente queria ver a aparecer, porque quando Grigor tinha 16 anos, Roger tinha 26 e ia com oito torneios do Grand Slam conquistados. O ténis estava louco com o fenómeno que o suíço já era antes de se cimentar como a lenda viva que é hoje. E como a ascensão sem teto de Federer trouxe interesse, fãs, marcas, dinheiro e contratos televisivos para o ténis, o ténis quis mais.

A alcunha, que no fundo é uma comparação mascarada, sempre lhe pesou. Grigor perdeu mais jogos do que ganhou nos primeiros anos da carreira, sendo tão vistoso quanto inconstante até 2013, quando conquistou o primeiro título da carreira, no piso rápido de Estocolmo. Tinha 22 anos e decidiu contratar Roger Rasheed, o quarto dos seis treinadores que já teve, um homem que já trabalhava com o australiano Lleyton Hewitt.

Juntos, o búlgaro melhorou. Ganhou quilos de músculo, manteve a destreza e a técnica naturais, fortaleceu a cabeça e a forma como a deixa pensar. Ganhou consistência, três títulos (Acapulco, Bucareste e Queens, em Londres), jogou até às meias-finais de Wimbledon e chegou a número oito do ranking ATP.

O bebé estava a crescer, uma alcunha a ser justificada, não para bem dele. Era um peso a ficar mais pesado. “Quando o conheci, obviamente ele era um jogador talentoso, com muitas ferramentas e muito hype à volta, por causa das coisas do Baby Fed. Isso é algo bom quando és miúdo, mas depois chegas a um ponto em que vais ser a tua própria pessoa e criar a tua própria marca”, explicou Rasheed, anos depois, ao New York Times.

Clive Brunskill

Dimitrov ia sendo aquela esquerda a uma mão, a técnica e agilidade juntas a darem nas vistas, o tenista búlgaro bonito e com estilo, e não apenas o herdeiro de tudo o que se associava a Federer. Mas essa cara laroca, no fim de 2013, também lhe deu uma relação com Maria Sharapova.

Uma namorada que o manteve a existir como sombra e não como o ponto no qual a luz incide.

A russa, tenista mais conhecida, famosa e titulada do que ele, já tinha Grand Slams conquistados e reunia na sua figura uma máquina de marketing. Ele era mais o namorado de Sharapova do que o Grigor Dimitrov. “É difícil ter uma namorada de grande perfil no mesmo desporto quando estás a tentar construir a tua própria identidade”, lamentou Roger Rasheed, que o treinava enquanto o búlgaro namorava com a dona de cinco majors.

O treinador via neste namoro algo que esgotava o tenis, mais um foco de instabilidade em alguém que nem na marca de raquetes era capaz de estabilizar: “Mesmo que penses que consegues gerir tudo, muita da tua energia tem que ir, de uma forma invejosa, para ti mesmo. O ténis é muito emocional, é vitória e derrota todas as semanas, portanto haverá sempre alturas em que tens de te confortar no lado emocional de quem está contigo. Por norma, eles ajudam-nos. Mas, quando tens de lhe dar tudo também, isso pode sugar-te e afetar o teu desempenho”.

O namoro terminou em 2015, o treino com Rasheed também. Esse ano e o seguinte foram tão parecidos um com o outro que não lhes descolaram uma etiqueta, mas lhe rotularam com outra - embora prometedor e com muito potencial, Dimitrov era um tenista instável e errático. Caiu para o top-40 do ranking. Tornou-se um underachiever, como dizem os americanos.

Grigor sentiu-se encurralado e a pensar em derrotas. Inseguro e sem confiança. Descambava à primeira dificuldade que um jogo lhe dava. “Perdi muita confiança em mim. Estava a lutar contra os meus demónios para encontrar o caminho certo para ser consistente o suficiente”, admitiu, sem os mencionar, até que chegou 2017. O búlgaro começou a trabalhar com Daniel Vallverdú, um venezuelano, dominou-se, aprendeu “muito sobre ele próprio” e reinventou o prazer de jogar ténis.

Passou semanas, na pré-época, a treinar com Rafael Nadal, em Maiorca, dando mergulhos de barcos, passeando e confraternizando em jantares, nos tempos livres de raquetes. Arrancou o ano com uma série de 16 vitórias e uma derrota, que aconteceu nas meias-finais do Open da Austrália e logo contra Roger Federer. Prosseguiu sendo, e sentindo-se, diferente - “Acho que, desta vez, nem estou a pensar no que me está a acontecer. A diferença é essa, não penso nos pontos ou no ranking, deixo um pouco as coisas fluírem”.

A esquerda presa a uma mão, a elegância em qualquer pancada, o esforço que combina com graciosidade, tudo se fundiu em Dimitrov. O búlgaro encontrou a constância e ela retribuiu-lhe em Brisbane, Sofia e no Masters 1000 de Cincinnatti, o primeiro da carreira. Grigor ascendeu nos pontos em que já não pensava e, despreocupado, entrou de novo nos dez melhores tenistas da hierarquia mundial. Deu por ele, literalmente, pelo que tem dito, e o oitavo lugar classificou-o para o último dos torneios da época da ATP. O mais prestigiante na sucessão dos Grand Slams, que à falta de um Nadal em forma, dos lesionados Djokovic, Murray e Wawrinka, e de um Federer com quem não se cruzou, foi vencido por ele.

Linnea Rheborg

O bebé, por fim, saiu do berço em que o mantinham.

Ele tombou, de joelhos, e deitou-se sobre o court durante segundos, vertendo lágrimas embrulhadas no público que aplaudia a vitória ao som de David Bowie - “We can be heroes, just for one day”. O herói não foi o herdeiro, a cópia, o protótipo ou uma futura imitação aproximada de um tenista que nunca terá semelhante neste mundo.

Foi Grigor Dimitrov, o tenista tranquilo, descocado e sincero, que deu um clique na própria cabeça e aprendeu a lidar com sua forma de ser tenista. Voltou a ter uma relação com alguém de grande perfil e famosa, mas fora do ténis (Nicole Scherzinger, ex-vocalista das Pussycat Dols e antiga namorada de Lewis Hamilton), focou-se no equilíbrio de amar o ténis e de o desporto não ser tudo na vida dele. “Eu pinto e desenho quadros de amigos. Desenho roupas, por exemplo. É isso que eu sou. Amo o ténis, mas mesmo que me torne no melhor jogador de sempre, não quero ser definido apenas pelo ténis”, idealizou.

Ele, por fim, não é um Baby Fed ou o bebé de alguém. É Grigor Dimitrov, o elegante, ágil e mais que talentoso búlgaro, com a sua bonita esquerda a uma mão, que já ganha em grande e vai fechar o ano como o terceiro melhor tenista do mundo.

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