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Um bom ano para todos. Assinado: o vosso bad boy

Nick Kyrgios venceu o primeiro torneio que jogou este ano, em Brisbane, na Austrália. Há 15 meses que não conquistava um título (este é o quarto da carreira) e a sua relação de amor-ódio com o ténis parece estar a viver bons dias. Porquê? Ele parece estar motivado

Diogo Pombo

Bradley Kanaris

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Já sabíamos que Nick Kyrgios era especial, mas não especialmente pelo que faz em campo: ele é o tenista que parece amuado quando joga; que desiste dos pontos, ou os oferece inexplicavelmente; que se vira contra o público que o apupa, quando arma esse espetáculo; que já admitiu não gostar de ténis, ou querer melhorar-se, o suficiente.

E se ele levasse isto mais a sério?

Ora, há uns meses, com a época anterior a terminar, a jovem e problemática e prometedora e desinteressada promessa tenística usou o Player’s Voice, um site para dar voz aos desportistas australianos, na primeira pessoa, para escrever isto: “Há coisas em que me tenho de focar. Como fortalecer a minha anca e o meu braço para me colocar na mesma trajetória em que estava no início de 2017”.

O ano passado chegou a duas meias-finais e a uns quartos-de-final entre os cinco primeiros torneios nos quais jogou. Até que as lesões o começaram a chatear, Nick chateou-se com o que se dizia e escrevia sobre os seus jogos, foi perdendo a vontade e os resultados, claro, minguaram. Como as horas de treino, o tempo extra no ginásio ou a concentração no ténis.

Mas ele, na altura, entre a prosa com que tentou explicar a sua relação de amor-ódio com o ténis, lá garantiu que este ano seria diferente. E, para já, está a sê-lo, pois Nick Kyrgios venceu o primeiro torneio que jogou este ano.

Em Brisbane, a cerca de hora e meia de avião de Canberra, onde o tenista assenta os arraiais, Kyrgios ganhou ao americano Ryan Harrison e conquistou o torneio de categoria 250.

A final foi o único de quatro encontros em que o australiano não foi a três sets. Mesmo com um problema no joelho, que o apoquenta há meses, o bad boy que é mais desmotivado do que mau, parece ir lançado para o Open da Austrália - o primeiro Grand Slam do ano, que arranca a 15 de janeiro, na próxima segunda-feira.

A direita estrondosa, as pancadas em suspensão, que lhe saem com a mesma naturalidade de quem se senta num sofá, e a intensidade de jogo estão lá. E, a par de ter vencido Grigor Dimitrov, o número três do ranking, nas meias-finais de Brisbane, muitos dos pesos-pesados do ténis poderão não estar em Melbourne.

Porque a anca de Andy Murray (é certo), o joelho de Stan Wawrinka e os dois de Rafael Nadal. e o cotovelo de Novak Djokovic, tudo campeões ou finalistas do major australiano, talvez não os deixem participar.

Mesmo que os fãs australianos, por vezes, não tenham Nick Kyrgios como o seu representante preferido - “Adoro jogar diante de vocês, apesar de, às vezes, não o verem assim. Mas adoro”, disse, na ressaca da vitória em Brisbane -, ele voltou a levantar o caneco de um torneio, 15 meses volvidos. E o bad boy, sobretudo, parece carregar com ele a coisa que melhor lhe faz: motivação.

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  • Nunca pensámos escrever isto: Kyrgios, o good boy

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    Nick Kyrgios é um tenista que tem tanto talento como polémica. O australiano, de 21 anos e 16.º do ranking ATP, já criticou árbitros, refilou com adeptos, desistiu de pontos a meio de jogos e até confessou que não adora ténis e que prefere basquetebol. É capaz de já ter sido assobiado tantas vezes quantas as que foi aplaudido, mas, agora, provou que também tem fair-play - e até quis ver se o momento ia “aparecer nas redes sociais”