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O desassombro de Marion Bartoli: “Tive medo de morrer. Deixei-me destruir por alguém que me fez sentir abaixo da terra”

Marion Bartoli venceu o torneio feminino de Wimbledon, em 2013, e 40 dias depois retirou-se do ténis. Agora está com 33 anos e vai regressar aos courts em março. De lá para cá a francesa teve uma história de doença, perde de peso, suspeitas de anorexia, um namorado idiota. E esta história conta-se do mais antigo, para o mais recente

Diogo Pombo

ADRIAN DENNIS

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6 de julho de 2013

O lufa-lufa de uma vencedora não dá descanso a Marion Bartoli. Tem apenas tempo para agarrar numa sandes – os jornalistas esperam-na para o bombardeamento de perguntas. Acabou de ganhar em Wimbledon, o mais tradicional dos courts de ténis, no mais prestigiado dos torneios. No dia seguinte irá ao café onde costuma ir sempre quando está em Londres; nos posteriores ainda não sabe o que fazer ao milhão e qualquer coisa de euros de prémio.

Aos 28 anos, a francesa está no topo do mundo, pelo menos do seu, felicíssima e incrédula. Conquistou o seu primeiro Grand Slam e foi a primeira tenista que bate esquerdas e direitas a duas mãos a fazê-lo; e foi, também, uma das poucas a lá chegar sem perder um set pelo caminho, e a que mais majors disputou (47) até conquistar um. “Ainda nem me apercebi que ganhei Wimbledon, o primeiro passo, aliás, é realizar que acabei de o ganhar. O meu sonho sempre foi vencer Wimbledon”, admite, risonha e aliviada.

15 de agosto de 2013

Marion entra na sala de imprensa em Cincinnatti. Perdeu há minutos – uma derrota surpreendente contra uma miúda romena em ascensão. Está cabisbaixa, com um ar enfadado e estranhamente conformado. Esquece as meias medidas e, do nada, desabafa: “Este foi o meu último jogo. Desculpem. É a altura de me retirar, sinto que é o tempo de me ir embora”.

Quarenta dias contados desde a vitória em Wimbledon, a tenista francesa cita o tendão de Aquiles, as costas, as ancas e os ombros, partes desgastadas do corpo que já não aguenta mais ténis. “Não foi uma decisão fácil, sou tenista há muito tempo. Mas tive a oportunidade de tornar o meu maior sonho realidade. Ninguém se vai lembrar do meu último jogo, todos se lembrarão do meu título em Wimbledon”, defende, chorosa e dominada pelas lágrimas.

19 de dezembro de 2017

Está com mais peso, visivelmente com o efeito dos anos que passaram, mas está, também, no meio de um court e a apoiar-se numa rede. Sorri e fala para a câmara – tem uma novidade. “Estou radiante por anunciar que vou regressar ao circuito profissional da WTA [Women’s Tennis Association] no próximo ano”.

Aos 33 anos, Marion Bartoli, a forte, pouco ortodoxa e muito peculiar tenista, voltará a jogar.

Daniel Kalisz

O namorado e o vírus, ou o motivo e a desculpa

E tudo está bem quando recomeça bem – não fossem todas as coisas que afetaram a vida de Marion Bartoli entre a segunda e a terceira datas desta cronologia (excluído o preciosismo dito no ano em que se retirou, claro: “Não sou dessas que se retiram e depois voltam”).

De lá para cá, a ex e agora regressada tenista chegou a estar, pelas próprias palavras, “com medo de morrer”. Nos primeiros anos, Marion focou-se na marca de roupa que criou, tentando não cortar o cordão umbilical com o ténis. Trabalhou como comentadora televisiva para a Eurosport,e serviu muitas vezes de embaixadora para promover o torneio de Roland Garros. Um cargo que exigia que viajasse muito.

Numa dessas viagens, foi até à Índia, em fevereiro de 2016, para mostrar a magia da terra batida a miúdos tenistas do país. Visitou várias cidade, imergiu num rodopio de deslocações e começou a sentir-se mais fatigada do que o habitual, mesmo para quem já andava a sentir-se anormalmente cansada há dias.

A partir daí o corpo da francesa começou a “rejeitar cada vez mais coisas”, disse, meses depois, quando foi à ITV para desmentir os rumores que já se espalhavam devido à sua aparência – Bartoli perdera quase 40 quilos, estava mais do que magra, quase esquelética, a ponto de se suspeitar que sofria de anorexia. Suspeitas que Marion atribuía a “um vírus interno, a que os médicos não sabem dar nome”.

Basicamente, a tenista foi à televisão explicar como o seu corpo recusava tudo, como uma espécie de alergia. “Até podia ser o contacto com um aparelho eletrónico. Hoje tenho de usar luvas quando toco no meu telemóvel, começo a ficar com taquicardia e a ter uma reação cutânea. Neste momento, a minha vida é um pesadelo, não desejo isto a ninguém. Por exemplo, tenho de tomar banho com água mineral, não posso usar água da torneira”, lamentou.

Marion Bartoli teve que lidar com este vírus inexplicável, incompreensível, até ao dia, contou-nos ela (na tal terceira data), em que a organização do torneio de Wimbledon a impediu de jogar um encontro de exibição para a qual a tinha convidado, por temer que o seu débil estado de saúde a fizesse colapsar em pleno court. “Daí em diante, prometi que, se ficasse saudável outra vez, quereria reviver o que tive a sorte de viver três anos antes”. Foi isso que garantiu no dia em que anunciou o regresso à competição: 17 de dezembro de 2017.

9 de janeiro de 2018

Já se sabia que a francesa se andava a treinar e a preparar para, aos 33 anos, apanhar o fio à meada do ténis que está cada vez mais físico, exigente, rápido e intenso.

Bartoli estava a trabalhar o peso recuperado e os músculos restituídos após a doença – ou assim se julgava. Porque, nesta terça-feira, o L’Équipe fez capa com uma entrevista à tenista, que desvendou mais coisas sobre o período negro.

A tenista contou que, em março de 2014, conheceu o agora ex-namorado, alguém com um idiotismo apurado ao ponto de, quando ambos se passeavam pela rua, aproveitar para dizer este tipo de reparos: “Dizia-me todos os dias que era gorda. Ele via uma mulher magra e dizia-me ‘Viste aquela mulher? O quão bonita era?’. Quando terminei a carreira era a mulher mais feliz do mundo, depois deixei-me destruir por alguém”.

Marion admite que teve “medo de morrer” na altura em que o então namorado a fazia sentir-se “abaixo de terra”. Longe de como está agora, “feliz ao despertar a cada manhã” e a dedicar-se, intensivamente, ao ténis.

Treina no Centro de Alto Rendimento, em Paris, onde chega às 9h e sai às 21h, metade do tempo de todos os dias que dedica ao ténis. “ Nunca na vida vou chegar ao top-100. Se regresso, é para jogar grandes jogos, em grandes courts e sentir as emoções. Não será por uma questão de ranking”, assegurou.

Porque, sabendo o que Marion Bartoli viveu, ela já ganhou só por tentar o que está a fazer.

BERTRAND GUAY