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Sim, ele joga ténis só pelo dinheiro. E então?

Bernard Tomic já foi o maior prodígio e a maior esperança do ténis australiano. De certo modo, aos 25 anos, ainda o é, porque o talento e o jeito estão-lhe no corpo. O problema é que, na cabeça, está o gosto pelo estilo de vida luxuoso e ornamental que o dinheiro lhe permitiu ter. Alguma vez adorará o ténis pelo ténis? "Não, vou encará-lo como um trabalho"

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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O inglês é dotado de palavras ou expressões idiomáticas que, de tão popularizadas por uma cultura de filmes e séries hollywoodescas, nos dão mais jeito para descrever certas situações. Ou pessoas, neste caso. Pois, convenhamos, Bernard Tomic é um tipo muito característico e protagonizou uma estória que, praticamente, o define in a nutshell, como os ingleses ou os australianos, como ele, dizem.

Uma vez, Bernard, nos seus 18 ou 19 anos, foi multado por conduzir em excesso de velocidade, na Austrália... três vezes no mesmo dia. Estava num Ferrari amarelo, que trocara por um BMW laranja, topo de cama. Já autuado, virou-se para a câmara da polícia que, por acaso, filmava a ocorrência, e disse: "Eu represento-vos, eu jogo por este país e vocês implicam comigo".

Este era o mesmo tenista que, na segunda-feira, disse “nunca” ter precisado da “ajuda deles” para alcançar “tudo” o que alcançou na carreira. Usou esta contração, no plural, entre uma preposição e um pronome, para se referir à federação de ténis do seu país, que mencionou quando perguntaram a Tomic como se sentia ao não receber um wildcard para entrar, diretamente, no quadro principal do Open da Austrália.

Ele reagiu, no fundo, como se esperava que reagisse - de forma despreocupada, altiva e quase desinteressada em algo que muito devia importar para a vida que leva.

Mas é, precisamente, essa vida que o tem “aprisionado”, palavra do próprio. Porque a vida de Bernard Tomic começou por ser como é com tantos miúdos, que nascem com um particular talento para praticar uma modalidade, encontram uma vocação, embebedam-se no sucesso e viciam-se mais no que isso, por tabela, lhes dá, em vez do prazer que retiram a praticar desporto.

Bernard nasceu na Alemanha e lá passou os três primeiros anos no mundo, até que os pais, emigrantes croatas, decidiram ir para a Austrália. Um dia, o pai deparou-se com uma venda de garagem e deu 50 cêntimos por uma raquete, deu-a ao rebento e todos perceberam que ele tinha jeito para o ténis.

Com 13 anos, Tomic já ganhava a miúdos maiores e mais fortes, à beira da maioridade. Já conquistava torneios de juniores pelo mundo, já era patrocinado pela Nike. Já dava entrevistas de menino prodígio, descalço, com uma bola de futebol e uma camisola do Barcelona vestida, a passear numa praia perto de Brisbane, no Este australiano onde a família se fixou.

Nesse tempo, os treinadores gabavam “a fome e a vontade” em melhorar-se e em ganhar a um miúdo que, de facto, foi crescendo e vencendo. Aos 15 anos, conquistou o Open da Austrália em juniores (sub-18), um de dois Grand Slams que colheu antes de virar adulto. Com essa idade tornou-se, também, no mais jovem tenista de sempre a vencer um encontro em Melbourne, no quadro principal do major da terra dos cangurus. Até competir como sénior, Tomic venceu mais de 90 torneios.

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Cameron Spencer

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Jonathan Wood

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Robert Prezioso

Contudo, ultrapassada a adolescência, Tomic virou-se para o que o talento e o ténis, conjugados, lhe davam: o dinheiro. Com 18 anos tornou-se milionário e, aos poucos, virou-se de vez,para a opulência que os torneios, os patrocínios e a publicidade o deixavam ter. Com mais ou menos essa idade, começou a comprar carros caros e desportivos, a coleccionar casas na Gold Coast australiana, em Miami e no Mónaco, e a pagar muito por festas abastadas onde ricos convivem com outros ricos, com extravagâncias a juntá-los.

No tal dia, foi multado três vezes por excesso de velocidade. No ano seguinte, a polícia retirou-lhe a carta de condução, quando reincidiu no desleixo. Em julho, o programa “Sunday Night”, do Channel 7 australiano, perguntou-lhe se achava, por essa altura, que estava a dar demasiado nas vistas. “Nem por isso. Na minha posição, com 18 ou 19 anos, você faria o mesmo. Tenho a certeza”, respondeu, sem despender mais do que um segundo a pensar no assunto, à jornalista.

A posição de Bernard Tomic era a de um rapaz que, chegado aos 3 anos à Austrália, com uns pais que, no bolso, tinham entre 200 ou 300 dólares, virou milionário aos 18 e, mais do que se deslumbrar, parece ter escolhido deslumbrar-se e aproveitar o que tinha. Hoje já amealhou mais de 7 milhões de dólares em prémios de jogo, fora outros milhões que terá recebido em contratos de patrocínio e direitos de imagem. Dinheiro do qual faz questão de ir usufruindo.

E o seu ténis, claro, foi sofrendo com isso.

Bernard conviveu dentro do top-20 do ranking durante cerca de dois anos, sobretudo após chegar aos quartos-de-final em Wimbledon, em 2011, vindo do Qualifying (só foi derrotado por Novak Djokovic, em cinco sets). O ano passado, no mítico torneio da relva e dos tenistas obrigatoriamente adornados a cor branca, Tomic foi eliminado na primeira ronda e, no final, disse que se sentira “aborrecido” durante o encontro. “É tão simples quanto isto: ele foi demasiado rico, demasiado cedo”, criticou, na altura, Pat Cash, ex-tenista australiano e vencedor (1987) no All England Club.

O australiano está com 25 anos, é o 142º do ranking, terá que jogar o Qualifying para tentar a décima participação no Grand Slam do seu país, menosprezou a organização que o poderia poupar a esse trabalho. E Bernard Tomic deverá estar tão despreocupado com isso, tal como estava em julho: “Provavelmente não gostam de mim, mas, com 24 anos, vocês só podem sonhar ter o que eu tenho aos 24 anos. No final do dia, tanto me faz se gostam de mim. Voltem para os sonhos da vossa casa ou carro de sonho, que eu vou sigo com a minha vida.”

Ele gosta de ténis tanto quanto se pode gostar de algo que nos retribui com dinheiro. É isso que o ténis significa para Tomic, que admite sem problemas e rejeita a hipótese de, alguma vez, vir a amar o desporto pelo desporto. “Não, não. Jogo pelo dinheiro, vou encará-lo como um trabalho”, assegurou.

Entende-se, pois tantos carros, casas e luxos variados exigem a dose de manutenção que apenas o dinheiro assegura. Os ganhos que Tomic faz com o ténis e terá de manter. Daí o australiano dizer que está “aprisionado” a um estilo de vida e à forma de o sustentar. Na sexta-feira, Bernard vai prosseguir a sua tentativa de entrar no Open da Austrália (sobreviveu ao primeiro de três jogos que tem de vencer) e se, hoje, pudesse aconselhar a sua versão de 14 anos, respondeu assim a este exercício de retrospeção:

“Não jogues ténis. Faz antes alguma coisa que adores e da qual desfrutes. É triturador e [implica] uma vida muito, muito dura. Se queres que, financeiramente, a boa vida venha depois, então continua. Mas se não o amas, não o faças. Na minha posição, estou aprisionado. Tenho de o fazer, vou continuar a fazê-lo, mas um miúdo de 14 anos tem sempre a hipótese de escolha.”