Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

RT ≠ endorsement, ou como Tennys Sandgren nega ter simpatia pela extrema-direita, apesar da internet dizer o contrário

Foi curto o idílio de Tennys Sandgren com os adeptos do ténis. A grande surpresa do Open da Austrália deste ano - eliminou Wawrinka e Thiem e vai jogar esta madrugada um lugar nas meias-finais - era a melhor história do torneio até ser tramado pelas suas atividade nas redes sociais. Seguidor de personalidades e grupos ligados a ideologias racistas, homofóbicas e islamofóbicas, Sandgren negou partilhar as mesmas convições. Mas esta terça-feira apagou tudo o que escreveu nos últimos anos

Lídia Paralta Gomes

Michael Dodge/Getty

Partilhar

Quem anda nisto das redes sociais, e aqui falamos especificamente de uma delas, o Twitter, já se habituou a ver por essa twittosfera fora a expressão “RT ≠ endorsement” nas pequenas biografias de cada página. É uma forma rápida de dizer ao visitante que nem tudo o que uma pessoa retuitar supõe, necessariamente, uma aprovação.

E sobre retuitar, Tennys Sandgren, o tenista-sensação desta semana, pode dizer uma coisa ou outra.

Mas vamos recapitular. Ainda há um par de dias falávamos aqui de como um rapaz norte-americano de 26 anos, e que até à última semana nunca tinha ganho uma partida num torneio do Grand Slam, tinha afastado Stan Wawrinka do Open da Austrália. E de como esse rapaz, passeando-se num modesto lugar 97 do ranking mundial, tinha um curioso nome, foneticamente semelhante (bem, igual) ao desporto que pratica.

Todos os supracitados fatores tornaram Tennys Sandgren numa súbita celebridade. Até porque o seu caminho em Melbourne não ficou por aí: depois de Wawrinka, número 8 do Mundo, eliminou o alemão Maximilian Marterer na 3.ª ronda e outro top 10 na 4.ª, o austríaco Dominic Thiem. O norte-americano vai agora discutir um lugar nas meias-finais com o outro cisne do torneio, o jovem coreano Hyeon Chung, que eliminou Novak Djokovic.

Até aqui, tudo bem.

Mas a fama tem os seus senãos. Como, por exemplo, milhares de pessoas, movidas pela curiosidade, passarem pela página de Twitter do tenista chamado Tennys e muitas delas perceberem que a coqueluche segue quase exclusivamente um conjunto de personalidades e de meios de comunicação ligados à extrema-direita.

Ou descobrirem conversas em que Sandgren nega a existência de racismo nos Estados Unidos, dando como justificação o facto do país ter eleito por duas vezes um presidente negro.

Ou verem retweets de vídeos da autoria de um dos participantes da marcha de supremacistas brancos em Charlottesville, no ano passado. Ou a congratular-se com o Brexit. Ou a referir-se a transssexuais em termos ofensivos.

O assunto, naturalmente, chegou à sala de imprensa do Open da Austrália. Depois de derrotar Dominic Thiem, Sandgren foi questionado sobre o padrão das suas atividades nas redes sociais. O tenista defendeu-se utilizando a lógica do “RT ≠ endorsement”.

“O tipo de informação que lês não dita aquilo que tu pensas ou acreditas. É uma loucura pensar dessa forma, é uma loucura assumir que ‘bem, ele segue a pessoa X, então ele acredita em tudo o que esta pessoa acredita’. É ridículo”, sublinhou, entre as tentativas do treinador para acabar com as perguntas sobre política.

Mas Sandgren não fugiu ao inquérito. E quando um dos jornalistas lhe perguntou diretamente se apoiava a extrema-direita e movimentos nacionalistas e de tendência racista e sexista, deu uma no cravo e outra na ferradura.

“Acho algum conteúdo interessante, mas não, não apoio. Como um cristão de fortes convicções, não apoio coisas desse género”.

Um súbito desaparecimento

Fazendo uma busca pelas páginas seguidas pelo tenista do Tennessee, há vários jogadores de ténis mais ou menos conhecidos (desde Roger Federer até tenistas universitários), mas boa parte têm conotações claras com a ala mais conservadora da sociedade norte-americana. Além dos óbvios follows a personalidades que estão ou já estiveram ligadas à administração Trump, como o antigo diretor de comunicação Anthony Scaramucci, o analista militar Sebastian Gorka, a assessora de imprensa Sarah Sanders ou a diretora da campanha eleitoral de 2016, Kellyanne Conway, Sandgren segue meios ditos independentes, mas com uma grande tendência para partilhar ideologia de extrema-direita ou pró-Trump como o "New Media Central", o "The Daily Caller", o "The Daily Wire" ou o canadiano "The Rebel Media".

Não faltam jornalistas da Fox News, do Breitbart ou até do site Dangerous, propriedade do infame Milo Yiannopoulos. Ou os comentadores Ben Shapiro e Ann Coulter, conhecidos pelas suas simpatias com as políticas de Trump.

Uma página de divulgação de teorias da conspiração de sugestivo nome “Decline of the West” também está no cardápio, tal como de algumas figuras da política internacional. E não estamos a falar de Emmanuel Macron, ou Matteo Renzi, mas sim de Nigel Farage, elemento do UKIP, partido britânico de extrema-direita, ou Tommy Robinson, um dos fundadores do grupo islamofóbico English Defence League.

A súbita fama de Tennys Sandgren no Open da Austrália pode ter acabado tão rápido quanto começou

A súbita fama de Tennys Sandgren no Open da Austrália pode ter acabado tão rápido quanto começou

Vince Caligiuri/Getty

Sandgren diz que é tudo uma questão de se manter informado sobre os mais variados pontos de vista, ainda que não se vislumbrem páginas de ideologia, digamos, mais à esquerda no seu Twitter.

“Gosto de consumir informação, quero ouvir todos os lados da história. E quero aprender, porque só tenho 26 anos. Acham que eu sei tudo sobre a vida? Não!”, disse mais tarde o tenista, em declarações citadas pelo “New York Times”. Nessa entrevista, que se seguiu à conferência de imprensa, Sandgren admitiu ainda preocupação por estar a ser conotado com a extrema-direita. “Sinceramente preocupa-me porque não representa de todo os meus pontos de vista”.

A resposta a esta preocupação foi extrema. Durante a manhã desta terça-feira, o tenista apagou a quase totalidade dos tweets da sua página, que agora é um desolador mar de cor branca. Mas clicando em “seguindo”, os nomes da discórdia ainda lá estão todos - e milhares de printscreens ficaram para contar a história.

Sandgren justificou a atitude garantindo que quer "começar de novo". Mas é possível que o estrago já esteja feito. Quando entrar na Rod Laver Arena, na próxima madrugada, para o jogo mais importante da sua vida Tennys Sandgren dificilmente será o favorito do público – e o público australiano não é de estar calado. O que podia ser o início de uma bela sintonia entre um tenista e adeptos – que gostam sempre de uma boa história de um underdog que vira cinderela – pode acabar num estalar de dedos.

Porque não há rasto que possa ser completamente apagado e porque geralmente a internet não perdoa.