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Slamless, a nova série protagonizada por Halep e Wozniacki

Uma é número um do mundo e está a jogar em Melbourne com equipamentos comprados pela internet, porque não tem patrocinadores. A outra goza de bastantes apoios, mas esteve para se retirar do ténis há um ano. Simona Halep e Caroline Wozniacki defrontam-se este sábado (8h30, Eurosport) na final do Open da Austrália, e há algo especial entre elas: quase 40 anos depois, a decisão de um Grand Slam voltará a ter duas mulheres que nunca venceram um

Diogo Pombo

Icon Sportswire

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Estava a dias de competir no tórrido calor australiano, de a cada saída da sombra cobrir a pele com protetor solar, e sentia-se “um pouco stressada”. Precisa de um vestido e ainda não o tinha; um problema, queria algo discreto, confortável, sem dar muito nas vistas e prático, fórmula que parece simples, como o são as mais difíceis de encontrar. Simona Halep agarrou-se à internet, onde “encontramos tudo”, ocupando o telemóvel ou o computador com a busca. E o tempo a urgir, ela a inquietar-se, as soluções a diminuírem.

Um dia, a rondar endereços chineses, deparou-se com uma loja de costura. Trocou uns e-mails e enviaram-lhe alguns exemplos de vestidos. Gostou de um, porque tinha o corte, a cor, “via-se bem e era suficiente” e tinha a essência do “nada de especial” que Simona procurava. Encomendou-o, perfeito, o modelo assentava e serviria para o propósito. “Tive sorte, sinto-me bem nele e talvez o devesse usar durante mais tempo”, admitiu, dias mais tarde, aos jornalistas, em Melbourne, feliz da vida com a sua escolha.

E despreocupada por ser a líder do ranking da WTA nas últimas 16 semanas, ser uma das caras do ténis feminino, ser a vencedora de 16 títulos e ser a única tenista que, na manhã de sábado, não terá um patrocinador que lhe dê uns calções, um par de meias, um casaco, umas sapatilhas e o devido vestido desportivo para jogar a final do Open da Austrália.

Simona Halep estará, sim, adornada pelo vestido vermelho, sem símbolos ou logótipos que encomendou a uma costureira chinesa quando, há semanas, a Adidas não alinhou em brincadeiras. Em dezembro, os representantes da tenista romena negociaram a renovação do contrato de patrocínio, que durara quatro anos, pedindo valores mais elevados, que a marca alemã rejeitou.

Depois, batendo a outras portas e ouvindo semelhantes nãos, retornaram à casa de partida, contou ao site Tennis.life. A ideia era renderem-se aos números da Adidas e aceitarem a proposta inicial, mas, aí, a marca já tinha alocado todo o orçamento para patrocínios. Assim ficou Halep, com vestido costurado na China, a fazer o que faz melhor - e o que lhe elevou o estatuto que, quem negoceia por ela, achou ser moeda de regateio suficiente para qualquer negociação de valores:

A lutar.

À primeira ronda do primeiro Grand Slam da época, torceu um já torcido tornozelo e quase desistiu. Continuou, e tantas eram as dores que, na noite anterior à partida da terceira ronda, mal dormiu. Mas, findas três horas e quarenta e quatro minutos, o tie-break até aos 15-13 e três match points salvos, venceu Lauren Davis e animou-se: “Provei a mim mesma que consigo ganhar com o tornozelo assim. Descanso quando isto acabar”. Defendidos outros dois pontos para fechar o encontro, nas meias-finais, contra Angelique Kerber, a romena chegou à final do Open da Austrália.

XIN LI

Varrendo o fundo do court com correrias, intensificando, ao máximo, qualquer pancada, a carregar na força das respostas em vez de no arrojo dos ataques, antecipando mais as bolas com que a bombardeiem do que ser ela a atacar, a arriscar, a procurar winners. A carregar.

A terceira final da carreira de Simona Halep apareceu como surgiram as duas anteriores, ambas na terra batida de Roland Garros, em 2014 e 2017 - sendo a romena um bom conjunto de muito boas qualidades, não uma tenista com uma ou duas excelentes armas, que moldam um estilo de jogo e podem decidir jogos.

Aos 26 anos, a força de Halep está na intensidade, no quão corre, na facilidade de movimentos, no poderia com que defende para criar uma base para atacar. Um extraordinário físico que potencia uma técnica boa, um físico que sentia estar a ser prejudicado pelo tamanho dos seus seios, motivo que a levou, aos 17 anos, a submeter-se a uma cirurgia. “É o peso que me incomoda, sinto-me desconfortável quando jogo, afetam a minha capacidade de reagir rápido. Não gostava deles no dia a dia, teria feito a cirurgia mesmo que não fosse desportista”, explicou, na altura.

Finda a idade de júnior e, de facto, a romena começou a jogar muito e bem, a ganhar torneios e manter-se perto do teto do ténis. É já a jogadora, no ativo, que mais tempo tem contado entre as dez primeiras do ranking, mas é, também, a sétima na história a ser a melhor tenista do mundo sem ter conquistado um torneio do Grand Slam.

Pode ser sorte, ou azar, ou um dia mau nosso em simultâneo com um dia bom de alguém, ou nervos, ansiedade e uma qualquer ratoeira que a cabeça monta quando se está à beira de algo grandioso, mas é isto que a une a Caroline Wozniacki.

Mesmo que, entre elas, haja outras coisas em que o ténis mexeu nos cordéis para as unir - ambas já foram, ou são, a número um do mundo; Wozniacki também jogou duas finais do mesmo major (US Open, em 2009 e 2014); e a dinamarquesa também é reconhecida pelo jogo defensivo, físico e combativo -, são os momentos decisivos que já tiveram nas decisões dos Grand Slams que decidiram as carreiras de ambas.

Chaz Niell/Icon Sportswire

Há quase uma década que Caroline é encarada como uma das melhores tenistas de sempre a não ter um major para apresentar, tal como Simona. Desde que, aos 19 anos, apareceu na final do US Open, a dinamarquesa é a menina bonita do circuito, não necessariamente devido aos seus atributos estéticos, antes pelos sorrisos e o seu lado afável, pela constante boa-disposição e abertura em falar de todos os temas e mais alguns, sempre com a pena compostura e relaxamento.

Wozniacki é assim, uma moça simples, humilde, cordial e eternamente principesca. Mesmo quando, em 2014, teve que lidar com o mediatismo de uma quebra de noivado com Rory McIlroy, golfista mudou de ideias à última hora e comunicou a decisão à tenista por telefone. “Fiquei chocada, pensava que teria, pelo menos, uma conversa cara a cara”, resumiu, pouco depois, no programa de entrevistas de Graham Bensinger.

Ou quando teve de lidar, inesperadamente, com acusações de racismo ao brincar com Serena Williams, que tem como boa amiga, num jogo de exibição - pegou em toalhas e colocou-as nos seis e no rabo, para replicar as formas mais voluptuosas da múltipla campeã de Grand Slams. “Os meus pais sempre me ensinaram a ser a mesma pessoa, quer seja número um ou número 1.000. Não vou mudar a minha maneira de ser só porque as pessoas me estão a julgar”, defendeu, perante as críticas que a própria Williams contrariou.

E muito se foi dizendo que essa personalidade de tenista boazinha, embebida do positivismo com que encara tudo, aliada ao estilo defensivo e algo ultrapassado de ténis, demasiado agarrado à lógica de bater as adversárias pelo cansaço, desgaste e prolongamento da troca de pancadas, fazia com que Caroline Wozniacki quebrasse nos grandes momentos.

Ela já foi a tenista que, durante 67 semanas, fez as restantes olharem para cima, para a conseguirem avistar. Foi a jogadora que fechou dois anos consecutivos na liderança do ranking. É, como Simona Halep, a mulher que sairá do Open da Austrália nesse topo, caso vença na final e, por fim, acabe com o sufixo que a língua inglesa cola a uma palavra para descrever tenistas como elas - “Slamless”. Jogadoras excelentes, talentosas, fisicamente superiores, a quem, há anos, falta conquistar um dos quatro maiores torneios do ténis.

Wozniacki já viveu um auge, no início desta década, do qual escorregou devido a lesões e alguma perda de motivação. Halep está a viver o seu, liderando o circuito nos últimos três meses. A dinamarquesa bateu menos 24 winners em Melbourne do que a romena, que, porém, vai com mais 50 erros não forçados e quase mais hora e meia passada nos courts.

No ténis, fadiga física acumulada interessa, sempre. Mas, no caso destas tenistas, o cansaço mental de já terem estado a pontos de distância de um Grand Slam e nunca lhe terem tocado importará ainda mais. Uma delas permanecerá fustigada por essa falta, no sábado, mesmo que Simona Halep tenha desdramatizado essa ânsia: “Se alguma coisa correr mal, haverá sempre uma cerveja para beber depois”.

Esteja ela ainda slamless, ou não.